Sobre Militância Cultural

 

                Entrei em contato com a expressão militância cultural há pouco, ao ler uma entrevista com o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da USP, Marcelo Ridenti, concedida à revista Caros Amigos, Nº 47. Desde então passei a refletir sobre esta expressão.

            Na entrevista o professor refere-se à resistência exercida pela sua geração diante da opressão militar nos anos 60, apontando para uma característica desta resistência, que era a de tomar como veículo de expressão a cultura em sentido estrito, como a música popular, o cinema, o teatro, a literatura e as diversas formas de expressão artística. Esta forma de atuação seria voltada à difusão de valores, ou até mesmo a trazer à tona valores já existentes na consciência popular, que sirvam para que o povo encontre uma identidade, que funcione como elemento de adesão e que, também, os mostre a realidade por um ponto de vista destacado do discurso unificado do opressor.

            É impressionante observar como, mesmo na cultura popular, produzida por aqueles que não tiveram acesso a rebuscadas construções teóricas, encontram-se formulações de crítica ao status quo bastante engenhosas. Em canções populares, na literatura de cordel nordestina, temos muitos exemplos onde o homem do povo desafia o poder estabelecido tendo como arma apenas a sua criatividade e a bagagem cultural solvida da própria vida, sem refinamentos da educação formal. No cordel nordestino temos um exemplo onde a estória desenvolve-se falando de um bicho cruel, que toda sorte de perversidades pratica contra o povo, que por onde passa provoca desgraça, a fome das crianças, desemprego, etc., para no final dar nome ao bicho – este bicho chama-se capitalismo. É impossível não ficar surpreso. Este é apenas um exemplo. Há cordéis que declamam a simpatia pela luta dos companheiros do MST e outros mais muito interessantes.

            Este tipo de manifestação, extremamente autêntica, brotada da concepção de mundo alcançada pelo homem do povo, a meu ver não pode sofrer as acusações feitas à tão mal vista “arte engajada”, que é criticada por afastar-se da própria arte para abraçar uma causa política.

            O que é bastante interessante é observar como este tipo de manifestação permeia-se na produção cultural, desde a cultura popular nordestina até Vinícios de Moraes, Bertold Brecht. A explicação para isto está na própria essência da arte, na busca do belo. A arte busca a beleza, e é sabido que o ideal de igualdade entre os homens é eleito como um dos mais belos, desde as origens do cristianismo até o romantismo revolucionário dos jovens latino-americanos, dos anos 50 a 70 especialmente.

            É este teor estético, a beleza dos nossos ideais, que está sendo esquecido pela militância brasileira nos últimos tempos. Estamos jogando com as cartas escolhidas pelo inimigo, nos rendendo às discussões sobre sobe-desce de bolsas de valor, travando uma eterna queda de braços com os tecnocratas no sistema, e deixando o povo entregue ao massacrante esvaziamento cultural que nos abate nestes tempos, à empobressedora massificação cultural da mídia e do mercado, que transformaram a arte em um produto enlatado.

            Militância cultural seria, então, buscar construir focos de resistência a todo este processo, no âmbito cultural. Reaproximar o povo dos valores elevados de luta e fazê-lo enxergar a beleza da postura rebelde, da resistência à dominação, do ideal de igualdade. Trabalhar também na luta contra a massificação de pensamento empreendida pela mídia, o que não é nada fácil, mas nossos ideais nunca foram mesmo fáceis de alcançar. O meio pelo que isto pode ser feito? Todos os possíveis e imagináveis. Deve-se utilizar jornais alternativos, da imprensa alternativa como um todo, de algum espaço que de forma astuta alguém consiga na TV, de sites na internet, pois este ainda é um espaço sem restrições materiais do que é publicado, etc. Teríamos que criar uma força contraposta à tendência hoje imposta pela mídia burguesa. Seria este o caminho. Gente para percorre-lo não nos falta. Basta-nos agora traçar diretrizes concretas e mãos à obra.