Resenha de livro: Os quarenta dias de Musa Dagh, de Franz Werfel


Paulo Avelino
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WERFEL, Franz. The forty days of Musa Dagh. New York: Carroll and Graf Publishers, 1997. 815p.

Há alguns anos li “Ventos de Guerra”, do escritor norte-americano Herman Wouk, a continuação de um best-seller que chegou às telas no Brasil em 1984 sob o nome de Sangue, Suor e Lágrimas, estrelado por Robert Mitchum. Trata-se de uma drama da Segunda Guerra. A principal personagem feminina era uma balzaquiana muito saborosa, dava um toque erótico ao livro. Num certo momento a balzaquiana, que era judia americana,  se viu na Europa ocupada pelos nazistas, com um filho pequeno, e boa parte do livro relata os esforços dela para escapar. E o livro caiu muito. Lógico. Uma mulher aterrorizada que quer escapar é apenas uma mulher aterrorizada que quer escapar. Ela não tem conflitos internos, impulsos eróticos, dúvidas, essas coisas que dão sabor a um personagem. Quer escapar e alguém mau a impede. Esse alguém deve ser evitado ou eliminado. Só.

O livro de Franz Werfel, Os quarenta dias de Musa Dagh, me lembrou isso. Não se pode dizer que esta resenha seja algo atual, por assim dizer. O romance foi publicado originalmente em 1933. Mas permanece desconhecido da grande maioria do público leitor brasileiro. Apesar da história que o constitui ser uma das mais graves e tristes do século recém fechado. O Genocídio Armênio é um desses exemplos da fragilidade dessa coisa chamada respeito ao ser humano, apesar de todo o palavrório de líderes e liderados de todo o mundo. Em 1915 a Europa estava toda em guerra. Grã-Bretanha, França e Rússia contra Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano. Este último era dominado pelos Turcos, e tinha grandes minorias: os gregos, os árabes, e os armênios. Os armênios particularmente odiados por serem cristãos e por terem em geral um nível cultural e econômico mais elevado que a maioria da população turca. E o governo resolveu acabar com o chamado Problema Armênio, acabando com os armênios. A população foi desarmada, seus documentos foram confiscados, seus líderes presos, e finalmente suas aldeias e cidades foram invadidas por soldados e o povo foi obrigado a longas marchas a pé, sem comida, sem água nem remédios. As crianças, mulheres e velhos eram os primeiros a morrer, e seus corpos eram deixados apodrecer nas beiras das estradas. Desnecessário dizer que tais marchas não se destinavam a lugar nenhum, e sim a fazer com que o máximo possível morresse. Uns poucos conseguiram chegar a campos de concentração no final. Segundo algumas estimativas, cerca de um milhão e meio de armênios foram mortos. Mesmo depois de revelada a extensão do crime, depois da guerra, e provando como é difícil o ser humano se emendar, o governo turco renovou os massacres nos anos posteriores. E hoje não há um só armênio na Turquia. A violência funcionou.

O livro consiste nessa história triste através de um episódio particular. Gabriel Bagradian é um armênio rico que viveu em Paris quase toda sua vida, e resolve visitar sua aldeia natal perto do Mediterrâneo exatamente antes do início da guerra, com sua mulher francesa e seu filho. Percebe coisas estranhas. Os policiais turcos, outrora tão humildes, agora são arrogantes e irônicos. Os funcionários fazem ameaças. E um dia chegam refugiados que contam as terríveis notícias. Por todo o país os turcos estavam matando armênios. E Gabriel decide organizar seu povo, umas cinco mil pessoas das vilas próximas, para venderem caro suas vidas numa resistência desesperada num morro pedregoso perto da praia. O morro se chama Musa Dagh. O livro é história de tal resistência. Sem quebrar o suspense, pois não quebra, informo que os que não morreram na terrível luta foram resgatados por navios franceses depois de 40 dias.

Trata-se de história real. Werfel, um judeu austríaco, soube dessa história numa visita a Damasco em 1929, o que lhe inspirou o livro. Posteriormente migrou para os Estados Unidos fugindo do nazismo e escreveu A Canção de Bernadete, sobre a santa de Lourdes, que virou filme. Morreu em 1945.

O mérito do livro é histórico. O genocídio armênio é quase esquecido. E como se sabe com o esforço de lembrança do holocausto judeu, nessas coisas o remédio é nunca esquecer. E o livro traz a dramaticidade que só a literatura dá, muito mais que estatísticas. A estatística que dei, de um milhão e meio de pessoas, é de entidades armênias. O governo turco diz que matou “apenas” quinhentas mil pessoas. Quinhentas mil? Bem, não é muito, pode dizer alguém. A jovem estava desesperada por seu jovem marido: os homens jovens eram os primeiros a serem mortos. E ela o disfarça de mulher. Logo depois os soldados aparecem para o estupro que era quase uma praxe. Ela grita que “não levem minha irmã, ela é surda”. Os soldados descobrem tudo, matam o rapaz e desfiguram com as coronhas das espingardas. E moça é amarrada cara a cara com o cadáver e deixada lá para morrer com o seu marido já morto. E quinhentos mil deixa de ser pouco.

E a história da mãe que desesperada por seu filho morto o carrega nas costas por dias a fio durante a marcha forçada até que seus próprios companheiros de infortúnio vão se queixar aos soldados: eles não agüentam mais o fedor. Ou a história do soldado turco que Gabriel Bagradian havia subornado para lhe dar informações sobre os movimentos dos turcos. O homem chorou. Não por causa do massacre. Não pelo sofrimento que ia acontecer. Mas por que tinha sido transferido, e portanto não poderia participar do lucrativo saque às casas dos que partiriam para suas marchas de morte... Decididamente, quinhentos mil não é pouco.

Os deméritos estão na área literária, e lembro o romance citado no início. Assim como a mulher desesperada, os personagens deste livro são homens e mulheres sombrios, que sabem que a eles só resta a morte. Portanto, as intrigas que fazem o sabor da literatura estão em grande parte eliminadas do livro, pois os personagens têm a idéia fixa não de sobreviver exatamente, mas de morrer lutando.Os personagens são fracos e estereotipados, até Gabriel Bagradian. As falas dele são muitas vezes previsíveis demais, sensatas demais. Talvez esses problemas sejam em parte os responsáveis pelo livro não ser mais conhecido.

De qualquer forma, um competente e dramático relato histórico. As entidades armênias estão com campanhas para que os parlamentos do mundo reconheçam a existência do genocídio armênio. Recentemente o parlamento francês o fez. O mesmo já aconteceu com os congressos da Argentina e do Uruguai. E nós, quando um deputado nosso se atreverá a empunhar a bandeira da dignidade, entrando com uma proposta de que o nosso Congresso também reconheça o genocídio armênio?