Viçosa do Ceará não precisa ser pobre

                                                                  Paulo Avelino
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Acordei sentindo um friozinho, puxei o cobertor. Pelas frestas via a luminosidade. Abri a janela. A neblina se espalhava, a cidade estava leve, irreal. Um galo cantava com toda a força no quintal vizinho. Logo na esquina mas parecendo muito longe uma mulher e sua filha passavam com um grande saco de palha indo à feira. Telhados vermelhos se estendiam em frente a mim, meio encobertos.

Fazia tempos que não ia a Viçosa. Só nos tempos de menino, décadas atrás. E vi uma cidade que se tomar as decisões certas tem um grande futuro.

Hoje em dia tudo é dinheiro. Se eu argumentasse que o modo de vida, a paz de espírito, os costumes de outros tempos devem ser preservados diriam que não sou prático. Pois então digo: Viçosa pode ganhar muito dinheiro. Viçosa não precisa ser uma cidade derrotada. Não é como certas cidades do sertão do Ceará, inviáveis. Pode ser uma cidade próspera, um pólo turístico nacional e internacionalmente freqüentado por amantes do frio, da natureza, da história e dos costumes da serra. Pode ser uma cidade com pleno emprego para seus habitantes, onde não haja crianças miseráveis. Para isso só precisa de uma coisa: cuidar de si, cuidar de seu potencial, manter e desenvolver o que tem de bom.

A primeira coisa é a arquitetura. O conjunto arquitetônico tradicional da cidade tem várias características, a principal das quais é serem as casas feitas de alvenaria. Isso faz com que as janelas não possam ser muito largas, pois as paredes servem de sustentação (não são sustentadas por colunas de cimento armado, como as casas de hoje). As casas então multiplicam o número de janelas e têm as paredes grossas, o que lhes dá uma graça e um frescor que não se vêem nas casas de hoje.

Várias dessas casas foram demolidas e substituídas por casas modernas, com prosaicos janelões. Isso não pode acontecer. Quebra o conjunto da cidade. Como o turista vai tirar uma foto bonita, se ao lado da casa pitoresca está uma tolice de hoje?

Esse problema tem solução. Basta criar primeiro grupos de conscientização, liderados por gente que entenda de arquitetura e patrimônio, no sentido de construírem e reformarem as casas sempre de forma a, pelo menos na fachada externa, seguirem as características da arquitetura da cidade, principalmente a multiplicação do número de janelas ou portas, estas no caso de casas comerciais. As casas que já foram feitas de forma não condizente com a arquitetura da cidade podem ser reformadas nas suas fachadas de forma a se tornarem compatíveis. Pode ser criado também um sistema de incentivos e punições através do imposto predial de forma que as casas de fachada tradicional paguem pouco imposto. Podem ser conferidos incentivos ainda maiores àquelas que mantiverem seu interior de forma tradicional, com os longos corredores, os soalhos vermelhos, e as alcovas de muitas portas e a sala, a cozinha e o banheiro lá perto do quintal.

Outra característica da arquitetura tradicional viçosense é que por serem de sustentação por tijolos os prédios nunca são muito altos. Ora, lamentavelmente se deixaram construir alguns predinhos de três andares, feios, quebrando o conjunto da cidade, e completamente sem graça, numa das esquinas da praça General Tibúrcio. Esses prédios devem ser demolidos, pelo menos nos seus dois andares superiores, e sua parte térrea deve ser adaptada à arquitetura tradicional da cidade. Um prédio existente numa esquina da Praça da Matriz deve ter o mesmo destino, e outros também. Conjunto arquitetônico vale dinheiro e não pode ser quebrado. Seus proprietários podem ser indenizados com terrenos em outros lugares, por exemplo.

Sei que há estudos no sentido do tombamento de certos prédios. Isso é pouco. Não é só tombar as casas mais interessantes, é preciso cuidar de seu entorno. De nada adianta uma casa bela com uma monstruosidade modernosa logo do lado. Pode ser definido um perímetro histórico da cidade, incluindo a praça da Matriz, a praça General Tibúrcio e seus arredores onde as construções sejam incentivadas a serem todas tradicionais, ou pelo menos a manterem a fachada tradicional. O perímetro pode ser definido por marcos de pedra ou correntes, como acontece em Parati – RJ.

Viçosa infelizmente foi invadida por duas pragas que assolam as cidades do interior: o asfaltamento indiscriminado das ruas e a construção de ginásios poliesportivos destruindo praças. Isso tem um efeito destruidor sobre o clima de uma cidade, sobre sua qualidade de vida e de seu turismo. Viçosa não precisa de asfalto nas suas ruas. Não tem tráfego para isso. Sei que é um meio fácil e rápido (embora nada barato) de ganhar popularidade, mas é preciso deixar claro que Viçosa precisa é do dinheiro e dos empregos que o turismo pode gerar. Um turista não sai de São Paulo para gastar seu dinheiro em Viçosa para ver asfalto. Asfalto ele tem de sobra por lá.

Precisa ser definida uma área próxima à cidade, planejada, com boa infra-estrutura e com o menor impacto ambiental possível onde se possam permitir a construção de prédios novos. O ginásio poliesportivo deve ser demolido, suas partes metálicas desmontadas e ele deve ser reconstruído nessa nova área, fora do perímetro histórico da cidade. No seu lugar deve voltar a bucólica pracinha que tanta graça dava à cidade.

Quanto ao asfalto, ele pode ser retirado em toda a área urbana, exceto obviamente na estrada estadual.

Neste processo de recuperar a alma da cidade a Prefeitura talvez precise fazer algumas desapropriações de prédios, para adaptá-los à sua arquitetura tradicional. Depois da adaptados, podem ser aproveitados para fazer pequenos museus, e atenção: museu não é sinônimo de despesa e depósito de coisas empoeiradas. Os museus podem ser uma importante fonte de renda e de dinamização do comércio da cidade, da seguinte forma.

Existe em Nova Iorque um lugar chamado Seaport Museum. Trata-se de dois quarteirões da cidade próximos do mar. Era o velho porto da cidade. Há algumas décadas estavam abandonados. Esses quarteirões foram restaurados em lojas e foram instalados pequenos museus espalhados por toda a área. Entre os museus estão as lojas, todas dedicadas de alguma forma a produtos do mar: há peixarias, livrarias com livros sobre barcos, lembranças, camisetas, produtos náuticos, etc. E cada um dos museus é temático: há o museu do mar para crianças, o museu das navegações, o museu dos barcos, etc. O turista paga um ingresso único, válido para todos os museus, e vai passando de museu em museu. Agora vejam a esperteza. Nessa caminhada o turista passa pelas lojas, sempre dá uma entrada nelas e compra alguma coisa! O museu sustenta o comércio.

A mesma idéia poderia ser adaptada a Viçosa. A Prefeitura poderia fazer pequenos museus espalhados em casas pela cidade e incentivar particulares a fazerem seus próprios pequenos museus nas suas casas. Poderíamos por exemplo ter um museu do Patronato, com reproduções de fotos antigas e quadros explicativos sobre a história daquela instituição. Em uma casa de família tradicional poderia ser feito o museu da casas viçosense, com móveis, quadros de família na parede, os longos corredores, o cheiro característico das casas antigas. Poderia haver o museu do licor; o museu dos doces, o museu a Clóvis Bevilacqua na casa onde nasceu (o Judiciário e a OAB poderiam ser envolvidos nisso); o museu General Tibúrcio (o Exército poderia ser interessado, o museu do sertão, pois boa parte do município é no sertão, com roupas de couro e quadros sobre a vida do vaqueiro; o museu da cidade, com a história da própria cidade, quadros com sermões do padre Vieira, etc. Num sítio próximo poderia ser feito o museu do sítio, com abacateiros, cajueiros e uma engenhoca tradicional de cana; o museu da pimenta do reino, uma cultura que por muito tempo no estado foi quase exclusiva do município, etc. O Sr. Alfredo Miranda poderia ser incentivado a fazer sua casa participar desse circuito de museus. O turista pagaria um ingresso único e percorreria a cidade mostrando os museus, e entre eles haveria o comércio de lembranças, camisetas, doces, licores, tudo para vender aos turistas.

As crianças carentes da região poderiam ser ensinadas por especialistas em arquitetura, história e literatura e aprender a história, decorar poemas sobre a cidade, aprender detalhes da arquitetura e servir de guia para os turistas. Guias fardados, com preço fixo. Poderiam falar por exemplo sobre a estátua do General Tibúrcio, explicar que ela é em típico estilo fascista, um modernismo pesado muito aplicado no Brasil no tempo do Estado Novo por influência da Itália de Mussolini. Essas crianças nunca mais correriam risco de cair na marginalidade. Elas teriam um orgulho e um futuro.

É um orgulho para uma cidade ter uma instituição antiga como o Gabinete Viçosense de Leitura. É necessário que a Câmara de Vereadores se transfira para outro prédio (de arquitetura tradicional, é claro) e se restaure o Gabinete. Se os livros antigos não existirem mais, não tem problema, compram-se outros. O importante é que essa veneranda instituição continue a existir. Os guias-mirins poderiam falar aos turistas das curiosas histórias sobre as reuniões em que o Gabinete discutia se a Alemanha deveria ser destruída ou não, em 1917, em plena 1a Guerra Mundial...

Para que o turista permaneça mais tempo na cidade e proporcione mais renda lá é preciso que ele durma lá. Para isso é preciso que a cidade tenha eventos. Poderia voltar a velha irradiadora, com músicas tradicionais, e a bandinha no coreto da praça. Para isso é preciso conscientizar os moradores de que os sons de carro e a axé music e o forró eletrônico são música não tradicional, ruim e barulhenta, e tiram a paz das pessoas e espantam o turista (afinal, essa porcaria existe em todo lugar). É preciso que Viçosa seja uma cidade silenciosa, com o silêncio só cortado pela cultura tradicional. Para os poucos que não se conscientizarem é importante que a Prefeitura crie um serviço que vele pelo silêncio da cidade, e que sejam proibidos sons elevado no seu perímetro histórico.

Com o silêncio, as irradiadoras e bandinhas, a segurança na praça, Viçosa poderia vender a imagem de ser uma cidade como nos “velhos bons tempos”. E muita gente suspira por esses velhos bons tempos. Garanto-lhe que em São Paulo, no Rio e até em Fortaleza há milhares de casais jovens e de meia idade que adorariam passear de mãos dadas tranqüilamente por uma pracinha, olhando o luar e ouvindo a bandinha, sem medo de assaltos nem nada. Viçosa poderia prosperar com isso. O numero de hotéis e pousada se multiplicaria, gerando emprego.

A cidade poderia criar festivais folclóricos, gastronômicos, semanas do vaqueiro e semana do doce e do licor, tudo pensado de acordo com a época do ano. O Teatro Pedro II poderia ser recuperado e ser sede de muitos desses eventos. Numa casa anexa poderia ser feito o museu do teatro, contando sua história.

A cidade ainda tem um de seus principais charmes, que é a neblina de manhã. Isso é um patrimônio que não pode ser perdido. Para tanto as pessoas devem ser incentivadas a plantar árvores nos quintais de suas casas. O bairro novo das Malvinas é muito pouco arborizado. As pessoas lá devem ser incentivadas a plantar árvores nos quintais e jardins, e as praças e calçadas devem ser arborizadas com árvores nativas. As pessoas devem ser desincentivadas a desmatar nas proximidades da cidade, e estimuladas a plantar árvores nativas da região. Devem ser definidas as áreas de expansão da cidade, com o incentivo a certo tipo de arquitetura que seja bonita, baixa (nada de prédios) e coerente com a arquitetura da área histórica da cidade. E as pessoas devem ser incentivadas a construir casas tradicionais mesmo na parte nova. O imposto predial pode ser usado como instrumento para essas medidas, fora os grupos de conscientização. Claro que as áreas de expansão da cidade (onde entre outros se localizará o novo ginásio poliesportivo) devem ser cuidadosamente planejadas para ter o menor impacto ambiental possível, utilizando de preferência áreas já desmatadas.

O turismo ecológico poderia ser incentivado. Incentivar sítios e fazendas na região, tanto na serra como no sertão, a receberem visitas, mostrando as coisas do doce, do babaçu, do buriti, etc. O turista poderia fazer um circuito por algumas fazendas e sítios, em pequenos veículos, à semelhança do que ele faria à pé dentro da cidade. Isso levaria à constituição de pequenas empresas de turismo, de propriedade de preferência de viçosenses, usando mão de obra local de motoristas, guias, contadores e pessoal auxiliar. O distrito de General Tibúrcio poderia ser usado como centro de mostra de coisas do sertão: uma casa típica de lá poderia ser exposta, com seus fogões à lenha, mostrando as coisas do gado, da coalhada, tudo o  que se faz no sertão. Os turistas ficariam fascinados.

O trekking poderia ser estimulado, escolhendo-se trilhas de diversos graus de dificuldade, com guias locais, podendo ter como ponto de partida a própria cidade e como ponto de chegada algum sítio ou fazenda, com pontos de apoio, cachoeiras, explicações, mirantes, etc. Os proprietários dos sítios por onde passariam os trekkistas poderiam ser conscientizados que isso é benefício para o município e para eles mesmos, que poderiam vender seus produtos aos visitantes no final.

Todos os órgãos públicos na cidade podem reformar seus prédios para ficar de acordo com a arquitetura tradicional, e os que vierem a se instalar podem ser incentivados a ocupar prédios antigos.

Poderia ser instalado um centro de cultura numa das casas tradicionais da cidade, e também em cada um dos distritos do município. Poderiam ser contratados professores para ensinar as crianças carentes a tocar piano, pistom, sanfona, etc. Um assoalho de madeira liso, um espelho grande e uma barra de metal são suficientes para se ensinar balé às meninas. Nesses centros poderiam se apresentar grupos folclóricos, de balé, de música clássica, de forró de Luiz Gonzaga, etc. Esses grupos podem ser conseguidos facilmente em Fortaleza. Eles criariam incentivo para as pessoas de Viçosa, principalmente os jovens, também praticarem arte.

Isso iria mostrar aos jovens e crianças de Viçosa, principalmente os carentes, que a vida é mais que desemprego, bebedeira e forró eletrônico. Elas cresceriam com esperança, futuro, renda e orgulho de sua terra e cultura.

Um elemento que poderia contribuir tanto para o turismo, como para gerar empregos, como para melhorar a qualidade de vida da cidade é uma usina de processamento de lixo. Existe uma em pleno funcionamento na cidade de Japaratuba-SE. Instituições ecológicas internacionais dão dinheiro para pequenos projetos desse tipo. Basta a Prefeitura ir atrás. Para tanto, deve-se implantar a coleta seletiva de lixo, com conscientização da população. Os produtos feitos com reciclagem poderiam ser vendidos aos turistas nas lojas. A própria usina poderia ser mostrada aos turistas, como atração. Muita gente gosta de ver uma cidade que se cuida, que cuida de seu meio ambiente. Até usinas de lixo são atrações. O que ninguém gosta de ver é uma cidade desleixada.

Nada do que digo é novidade. Muitos anos atrás um grupo de imigrantes alemães chegou a uma região serrana no sul do país. Um deles, um cara muito sabido, percebeu que se eles mantivessem as casas sempre no estilo típico alemão, poderiam atrair turistas. E eles fizeram isso. As casas têm incentivo para serem no estilo alemão. Criaram eventos, como festival de cinema. Parques, como o Mini-mundo. Viram que lagoas são coisas muito românticas. Já havia uma lagoa, que eles conservaram e embelezaram, e empurraram o trator e criaram outras. E hoje essa cidade é uma cidade próspera, um dos maiores centros de turismo no Brasil e de ótima qualidade de vida: Gramado. E não se pense que é algum condão da cidade. Existem outras cidades, como São Joaquim em SC, que são até mais frias, têm mais neve. Mas São Joaquim é uma cidade sem graça, não planejada, que não se cuidou. Viçosa pode seguir o bom exemplo de Gramado.

Viçosa não precisa ser uma cidade de desempregados, violenta, degradada e barulhenta como tantas do interior do Ceará. Viçosa pode ter um futuro brilhante. Basta querer.