Resenha de livro: O Continente, de Érico Veríssimo

Paulo Avelino
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VERÍSSIMO, Érico. O Continente. 44a ed. São Paulo: Ed. Globo, 2001. 670 pgs. (O Tempo e o Vento – parte 1).

*José Lírio, você é um homem é um rato? Não tem coragem? São só uns dez passos. Uns cinco pulos e zup! Está salvo.*

José Lírio, o Liroca, media os passos entre o muro em que se abrigava e a igreja. No meio ficaria a mercê dos tiros dos inimigos, que do sobrado controlavam aquele espaço. O partido dele tinha tomado a cidade toda com exceção do sobrado. Tinham a igreja, onde tinham postado um atirador para não deixar o sobrado em paz. E já era tempo de Liroca substituir o homem. Só que para isso precisava passar aqueles dez passos... E o sobrado cheio de homens com rifles. Naquela tarde o homem que estava na torre atravessara essa distância acendendo o cigarro, e até parar no meio para acender melhor... E ele com medo. José Lírio pensava em Maria Valéria, ali dentro, do lado dos inimigos. E pensa que mesmo depois que essa guerra termine, ela nunca a perdoaria, e mesmo que a perdoasse, o pai dela nunca a perdoaria. Sem terminar de pensar correu. Parou bem no meio e berrou:

*Chimaaaaangos! Eu sou um maragaaaaaaaaato!*

Ou pelo menos é assim que me ficou a primeira cena de O Continente. É estranho fazer uma resenha de um livro escrito em 1951. Mas lembro de um crítico que diz que os autores brasileiros são muito louvados e pouco lidos. Ainda mais autores como Érico, que tiveram a desgraça de serem adotados no ensino médio e no vestibular.

Li o Érico Veríssimo agora por conta de uma viagem ao Rio Grande, e é outro sabor lê-lo em lugares como Cruz Alta, Santa Maria, Tupanciretã ou Santo Ângelo. É como se o autor me levasse pela mão para compreender sua terra. E tive várias surpresas agradáveis.

EV não sofre de um mal muito forte na literatura brasileira hoje, que é a leitorofobia, o horror ao leitor. Ele é autor que quer agradar o leitor, quer prender sua atenção. Começa o livro com a cena que resumi acima como me ficou. Isso é o que no cinema moderno se chama de seqüência, ou seja, uma parte de ação nos primeiros dez minutos do filme. Isso acontece em quase todos os filmes americanos. A partir daí começa a contar a história do Rio Grande, desde as Missões, no ano 1746, centrada na família Terra que depois se junta com a família Cambará.

Já bem entrado no livro ele muda de ritmo para avançar a narrativa. A parte em que o narrador se transmuta em uma voz indefinida aconselhando o açoriano José Borges a se mudar para o Rio Grande é soberba. Esse José Borges terá uma filha que é uma das pontas da família.

EV não é um autor à la Dostoievski, ou seja, não é desses autores que eu me acostumei a gostar. Os personagens dele são bem lineares. Quem é teimoso continua teimoso. Quem é mulherengo continua mulherengo. Não há em O Continente Raskolnikovs que dão voltas a cada cinco páginas. EV é um autor de aventura, mais na linha que um Cormac McCarthy faz hoje. Há vários tipos de romance, mas os grandes mestres do século XIX investiram pesado no romance de personagem, o que deu enorme prestígio a esse tipo de romance e condenou os outros a serem de segunda ordem. Mas os romances de aventura existem e podem ser bons.

Procurou ser bem didático. Virtualmente todos os fatos que afetaram o Rio Grande na época de 1746 a 1895 estão no romance, desde as crises econômicas, a migrações e especificamente as guerras. Por sinal seria bom até o pessoal dos CTGs ler com mais atenção o velho Érico. A romantização dos tempos antigos e a idealização das guerras civis estão bem longe do autor. E vejo um pouco dessa idealização no movimento tradicionalista.

Não digo que vale a pena ser lido por que em ler o Érico não há pena. É um livro com gosto de quero-mais.