Vallejo

Paulo Avelino
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... e eu falo agora de César Vallejo, que nasceu em 1892 como o mais novo de onze irmãos, num buraco mais que um lugar chamado Santiago de Chuco (Yo nasci em um dia/que Dios estuve enfermo), e que foi pobre, mestiço, inconformado, poeta e latino-americano toda sua vida (cinco pragas em uma), que se formou numa universidade sem importância na província de um pais pobre (o Peru), que publicou em 1919 poemas cheios de flores, azul e beijos (Aquella noche de setiembre, fuiste/tan buena para mi... hasta dolerme!), que foi um homem sensível e terno a vida toda, desses em que as pancadas nunca deixam de doer e em que o riso é sempre mais fraterno, que se comoveu com uma greve de trabalhadores indígenas que viviam mais de esperança que de comida, que foi recompensado com três meses de prisão por ter sido solidário com seu próprio sangue pois era meio-índio, que nunca esqueceu essa prisão em sua sensibilidade aguçada (Hay golpes em la vida, tan fuertes... Ya no sé!), que se converteu aos modernismos na mesma época que a América latinoatrasada os descobria e publicou Trilce em 1922, livro fundamental no modernismo hispânico, que viveu contando trocados a vida toda (Tengo ahora 70 soles peruanos/Cojo la penúltima moeda, la que sue-/na 69 veces punicas), que escorraçado por ditaduras foi viver em Paris de poemas e pobreza, que concluiu que os homens deviam ser solidários, que se converteu ao marxismo em 1927, visitou a União Soviética, foi expulso da França e fugiu para a Espanha, que nunca teve muita saúde, que sofreu do corpo e da alma quando os fascistas quiseram tomar sua Espanha, que escreveu Espanha, Afasta de Mim esse Cálice (Niños del mundo/se cae España – digo, es um decir...), que voltou ilegalmente para a França quando sentiu que a morte o procurava, que passeava sem dinheiro pelos bulevares (De todo esto yo soy el único que parte/ De este banco mi voy, de mis calzones/de mi gran situación, de mis acciones/de mi número hendido parte a parte/de todo esto yo soy el único que parte), que escrevia sobre o coxo que passa dando o braço a um menino,  sobre alguém que treme de frio, tosse e cospe sangue, sobre o comerciante que rouba um grama no peso a seu cliente, e o banqueiro que falsifica um balanço, sobre alguém que passa fazendo contas nos dedos, que nunca desacreditou no mundo (Como hablar del no/yo sin dar um grito?), e que morreu a 15 de abril de 1938 (Me moriré em Paris com aguacero/um día del qual tengo ya el recuerdo), numa manhã de tempestade.