De santas e santas

Paulo Avelino
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Teresa era uma moça que poderíamos chamar pedantemente de privilegiada. Filha de um dos caras mais ricos do país, tinha uma mãe extremamente culta que a ensinou a gostar de cinema, sua paixão. Dinheiro de sobra, que a fazia passear pelos shoppings de São Paulo ou Miami sempre com aquele jeito de nem-te-ligo que as moças realmente bonitas têm. Usava os jeans das melhores marcas e freqüentava os lugares e os cinemas da moda. Para completar uma perfeição quase irritante ela era culta também, extremamente lida, sabia escrever sua língua com elegância e clareza.

E sabia lidar com os rapazes: ser cortejada e recusar com firmeza e classe. E sendo a pessoa decidida que era, ninguém sabia se ela já tivera aquela experiência com algum de seus admiradores. Talvez sim, mas ninguém tinha coragem de perguntar. Sem dúvida oportunidades é que não lhe faltavam.

Teresa tinha consciência do que se passava com ela. Dizia: “Tenho tudo o que uma mulher quer: beleza, juventude, dinheiro”.

E um dia Teresa abandona tudo isso, bate um papo com Deus e ele a manda se internar num convento, onde ela tem de aturar a inveja de freiras velhas e chatas.

Ou pelo menos é assim que creio que seria a vida de Santa Teresa D’Ávila se vivesse hoje. Lembrei dela por causa da notícia da revelação do terceiro segredo de Fátima, que me fez lembrar de santas e santas.

Particularmente, e com todo o respeito, nunca fui muito fã de certas santas que tudo o que fizeram foi sofrer e ficar castas. Sempre penso que não pecaram, mas em grande parte essa pureza se deu por falta de oportunidade!

Não é o caso de Santa Teresa, rica, bonita, inteligente e apreciadora de novelas de cavalaria (o cinema da época). Gosto de pensar numa jovem bela com suas roupas da moda escutando nos bailes propostas deliciosamente indecentes vindas de rapazes tão ricos e belos como ela, e abrindo mão deste mais feminino dos prazeres, que é o de saber-se ardentemente desejada.

Alguns dizem que ela cedeu a esse prazer quando jovem. Só isso explicaria os seus êxtases, delírios estranhos e cheios de sensações, em que sonhava e via um anjo aproximando-se, portando uma flecha, uma flecha grossa e rija, com a ponta larga e brilhante de fogo, apontada para o seu coração, e o anjo cravava várias vezes a flecha no seu corpo, e cravava e tirava, e cravava e tirava, e cada vez que tirava parecia que suas entranhas vinham junto, na violência de um gozo que a fazia gritar. Depois ela se sentia esgotada, mal podia caminhar, e a deliciosa dor se mantinha no dia seguinte.

Enfim, essa é a apenas a suposição de alguns. Prefiro crer num milagre divino e pleno de justiça. Deus resolveu restituir de outra forma um prazer a que ela, como moça bonita, jovem e rica estava destinada: suspirar nos braços de um amado belo, fogoso e atraente como ela. Esse amado acabou sendo o Espírito Santo. Bem, tanto melhor.