Resenha: Uma Missa para a cidade de Arras, de Andrzej Szczypiorski


Paulo Avelino
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SZCZYPIORSKI, Andrzej. Uma missa para a cidade de Arras. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. 154p. Tradução Henryk Siewierski.

Este romance é um romance de milieu. Ou seja, um romance em que o meio é mais importante que os personagens, ou melhor, os personagens são formas do meio falar e se manifestar. Diferencia-se portanto do romance de maior prestígio, que narra as mudanças na personalidade de pessoas. O romance de milieu mais conhecido talvez seja as Viagens de Gulliver, de Swift.

O autor faleceu nasceu em 1924 e faleceu em 2000. Pegou portanto todas as transformações da Polônia contemporânea, desde o governo autoritário na década de 30, o domínio nazista, o comunismo e finalmente a volta ao capitalismo. Foi membro do Solidariedade nos primeiros momentos. Este livro é do início da década de setenta, e circulou de forma semi-clandestina no país nos primeiros tempos.

A história é simples, o autor pegou alguns episódios reais ocorridos na cidade de Arras, na França. Em 1458 houve um surto de peste que matou um quinto da população da cidade. E três anos depois houve um período de três semanas de perseguições contra bruxas e judeus, com muitas mortes. O senhor da cidade, Davi, bispo de Utrecht, filho bastardo do Duque da Borgonha, perdoou e abençoou a cidade. A partir daí o autor cria um personagem, João, favorito de Davi e amigo do líder da cidade, o padre Alberto, que narra essa história tempos depois, centrando na personagem contraditória, ao mesmo tempo piedosa e cruel, do padre Alberto.

O livro tem méritos. Não é politicamente correto o que vou escrever, mas a verdade é que para segurar a atenção de um leitor o romance geralmente precisa ter rapazes e moças vigorosos e sensuais, para fazerem ou melhor ainda sugerirem os ritos de homem e mulher. E esse romance simplesmente não tem mulheres. E consegue prender a atenção. É um mérito. O romance teve pesquisa, embora esta fique um tanto em segundo plano, superada pela trama. Menciona comidas e bebidas e relações de poder na Idade Média. Uma coisa curiosa é a situação de inferioridade dos burgueses da época. Mostra como os nossos orgulhosos burgueses de hoje eram ridículos em sua origem. E de certa forma continuam sendo.

A impressão é que se trata de um romance como os pequenos romances de Hardy : um pequeno assunto, fechado e definido, e dirigido com competência. Assim é o livro.