Uma historinha de Sete de Setembro

Paulo Avelino
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Talvez vocês conheçam uma marcha bastante comum no Sete de Setembro, a “Avante camaradas” – todo mundo a conhece, apenas às vezes é difícil ligar a melodia ao nome.

Essa marcha tem uma história curiosa. “Seu” Joaquim Honório era barbeiro de uma pequena cidade do interiorzão de Goiás, lá por 1924 e 1925, por aí. Um cinqüentão viúvo, sem filhos, vivia sua pacata vida na sua cidade, onde também era regente da bandinha do coreto. Mas Seu Joaquim tinha um sonho secreto – ele queria ser um revolucionário. Era a época da Coluna Prestes, ele acompanhava avidamente as façanhas dos heróis que empolgavam o país – Luís Carlos Prestes! Miguel Costa! João Alberto!Juarez Távora! – e tantos outros que cativavam imaginações no país, heróis maiores-que-a-vida, gigantes capazes de largar tudo por um ideal.

Sua empolgação chegou ao máximo quando a lendária coluna adentrou os sertões de Goiás – e lá fazia as maiores piruetas e manobras complicadas para escapar ao cerco das forças do governo. A todo momento se esperava que os revolucionários chegassem sem aviso –e Seu Joaquim teve uma idéia. Ele faria uma marcha, uma marcha bela para saudar aqueles heróis. As tropas entrando garbosamente na cidade e seu Joaquim regendo sua bandinha – e depois ele se juntaria aos heróis e sairia por aí para salvar o mundo. E pôs mãos à obra, compôs e em poucos dias a bandinha já tinha bem ensaiada a nova marcha.

Ele colocou meninos nas cercanias da cidade para avisá-lo – queria estar pronto quando chegasse o momento. E uma tarde os meninos disseram que vinham as tropas! E ele reuniu seu pessoal, os bumbos, trombones e cornetas – e começou a tocar sua garbosa marcha.

Mas era alarme falso.

E foi assim por vários dias. Os meninos vinham com avisos, ele tocava a marcha, e nada acontecia. Mas um dia foi para valer – ele reuniu a banda, regendo com vigor e entusiasmo, e lá vinham eles, os seus heróis, marchando em formação cerrada! Seu Honório era o homem mais feliz do mundo!

Mas... eram tropas federais. Estavam ali para caçar a coluna. E os heróis mesmo nunca, nunca vieram àquela cidade.

Só que o Coronel governista gostou tanto daquela marcha que a adotou como hino de seu regimento. E depois pela sua beleza a canção se espalhou por todo o exército.

E é isso. Me contaram essa história desse jeito e assim passo para vocês. Nem sei se o barbeiro se chamava Joaquim Honório, ou Artemidoro, ou Raimundo – que importa. O fato é que, quando vocês ouvirem essa marcha, cantada como um hino à obediência e ao conformismo como todas as marchas, lembrem que ela na verdade nasceu de um sonho – um sonho de um barbeiro que queria ser um revolucionário.