Dois livros bem semelhantes

Paulo Avelino
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ROTH, Philip. Pastoral Americana. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 478p.

ROTH, Philip. Casei com um comunista. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 423p.

Philip Roth talvez seja o melhor romancista americano em atividade. E que atividade: estes são os seus 22o e 23o livros, sendo que depois ele já publicou no ano passado mais um outro, The human stain, ainda não traduzido.

Estes dois romances são muito semelhantes. O autor tem usado em muitos de seus livros, inclusive nesses dois, um recurso bem interessante. Ele cria um autor personagem, Nathan Zuckerman, um senhor que está caminhando para os seus setenta, nascido em Newark, perto de Nova Iorque, escritor que vive recluso nas colinas do norte dos Estados Unidos. Formado em literatura pela Universidade de Chicago nos inícios dos anos 50. Ou seja, tudo a ver com o próprio Roth. O escritor Nathan Zuckerman em cada livro lembra um pouco de sua infância e juventude, e se propõe a escrever sobre alguém que conheceu, e então a história daquela pessoa é contada, através do testemunho de outras pessoas, principalmente de irmãos.

Esse recurso é interessante, pois dá ao autor Roth a possibilidade de escrever sobre alguém utilizando um narrador testemunha mas quase como narrador onisciente, tendo em vista a intimidade das testemunhas com pessoa narrada.

O primeiro livro, a Pastoral Americana, narra a história de “Sueco” Levov, um filho de imigrantes e fabricante de luvas que na juventude tomou uma decisão: ele teria uma bela casa de tijolos, um belo gramado na frente, um carro, uma esposa feliz lá dentro e um balanço em frente à casa onde brincaria uma linda menina. Ou seja, ele teria a família perfeita. E o começo foi bom: ele se casou com uma moça belíssima, filha de uma ex miss New Jersey. E nasceu uma filha. Tudo parecia perfeito. Mas...

O segundo livro, Casei com um Comunista, narra a História de Ira “Iron” (=ferro) Ringold, militante comunista que se casa com uma atriz decadente. Ele queria consertar tudo com base nos princípios do marxismo e do poder do proletariado: o mundo, o país, o estado, a cidade, a rua, o quarteirão e talvez o mais difícil de tudo, consertar sua própria família. Com o tempo ele descobre que a mulher era patologicamente dependente de uma filha jovem que tinha, fruto de um casamento anterior.

Os dois livros têm uma estrutura semelhante, homens levados a seu destino por seu próprio orgulho (hybris), algo que não conseguem controlar.

O ponto fraco dos livros é o mesmo de praticamente todos os romances de hoje, os personagens pouco marcantes. Mesmo em Sueco e Ira falta algo neles, talvez o fato de serem eles mesmos quase sem conflito. O que pesa neles são as circunstâncias. E isso enfraquece um romance. Uma das peças mais cheias de sabedoria que já se escreveu sobre romance é o comentário que Machado fez sobre O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Para relembrar, Luísa, mulher casada, tem um caso com o Basílio. Uma carta que escreveu ao amante cai nas mãos de uma criada que passa a chantageá-la. Machado criticou o romance baseado em que Luísa não tinha conflito nem remorsos de ter tido o caso. Só tinha medo. Se a carta por acaso fosse destruída de qualquer forma, tudo estaria bem. Ela era um títere, disse Machado.

É mais ou menos o que acontece com os dois protagonistas de Roth. Eles sabiam o que queriam e não tinham dúvidas, apenas as circunstâncias se intrometeram fortemente em seu caminho. O que não significa que não haja situações boas. O conflito entre pai e filha na Pastoral Americana é emocionante. Por falar em Machado, Philip Roth é fã dele, diz que no seu tempo de universidade Machado era incensado, e considera Capitu uma das grandes personagens femininas da literatura universal. Ou seja, não é só mais um americano boboca. O homem leva o ofício a sério e conhece quem é bom.

E ele também é bom no seu ofício. São dois bons romances.