Resenha de livro: Sagarana, de Guimarães Rosa

Paulo Avelino
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ROSA, João Guimarães. Sagarana. 52a reimpressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 413p.

No começo dos sessenta, havia um sujeito que sempre a situação esquentava ele era chamado para ser Presidente da República. Sem poder nenhum, é claro. Só para evitar confusão maior. Era o Ranieri Mazzili, Vice-presidente do Senado. Quando Jânio renunciou em 61 e quase houve golpe, e em 64 quando João Goulart foi escorraçado do país e houve golpe mesmo, ele ocupou a presidência interinamente enquanto os reais donos do poder decidiam o que fazer com ele.

Havia um funcionário público que inventara a seguinte anedota e que achava muito engraçada e vivia repetindo para todo mundo. Ele chamava Mazzili de “Modess”, porque “ficava sempre no melhor lugar, no pior momento, para evitar derramamento de sangue”. Rárárá... (risos sem graça)

Piadinha vulgarzinha, não? Quem a dizia era o funcionário do Ministério das Relações Exteriores João Guimarães Rosa. Começo por essa piada por que o ensino de literatura, feito por pessoas muito bem intencionadas, faz uma péssima coisa: transforma escritores em criaturas distantes, exteriores, predestinadas, com aura de santo. As críticas viram hagiografias. Não nascem os grandes escritores: são fundados. Por isso quis trazer esse escritor ao nível do que ele foi, e todos são: um homem.

Um homem que escrevia muito bem. Sagarana foi escrito em 1937, em sete meses, depois reescrito por mais cinco em 1945 e foi publicado logo apos. Foi o seu primeiro livro. É uma coletânea de nove novelas, todas se passando em Minas Gerais, ou melhor ainda, no indefinido “Sertão das Gerais”, que invade também Goiás, Bahia e Tocantins, e na melhor das nove deixa o sertão para trás e invade também o resto do mundo.

Não tem muito as acrobacias de sufixos e prefixos e torcidas de palavras e inversões de ordem de termos pelas quais o autor é temido.

O autor do prefácio, Paulo Rónai, diz que o regionalismo pode ser um peso para o autor. O regionalismo veio de maneira mais ou menos direta do naturalismo, Zola, Aluízio de Azevedo, etc. O naturalismo tinha aquela mania de pesquisar casos excepcionais o que não surpreende pois o naturalismo se fascinava por livros de medicina e nesses livros só o que tem é descrição de doença. Se se juntar a isso uma tendência natural da narrativa que é procurar alguma coisa que dê errado, então temos que o regionalismo sertanejo é cheio de assassinatos. Parece que o pessoal do sertão não tem ou não tinha nada melhor que fazer que ficar matando uns aos outros.

Sei que tudo nasce de um contexto de opressão, mas às vezes a gente perde a paciência e tem vontade de dizer “o sertão podia ser melhor, se vocês experimentassem tra-ba-lhar ao invés de ficar se matando o tempo todo, certo?” Mas isso é só uma fraqueza. Sei que é um contexto social etc.

Várias das nove envolvem assassinatos. O que dá um tom meio pesado lá pelo meio. E na novela do Salãthiel e do Duelo, o autor faz de certa forma os maus se darem bem. Aristóteles dizia para não fazer isso: é odioso. E tem razão. Ganha a antipatia do leitor. Essas duas ganharam a minha.

Novela após novela, e eu continuando a achar a primeira delas, O Burrinho Pedrês, a melhor. Só não gostei do título. Fica parecendo coisa de criancinhas, o que não tem muito a ver. Não tem muito a ver sequer com o burrinho – ele é só um fio condutor que o autor usa para descrever o dia a dia de uma fazenda de gado. Tem ameaça de assassinato, mas bem secundária, felizmente. É a história de uma boiada sendo tangida para o trem, de onde virá para os dentes do pessoal da cidade.

E eu achando que o editor espertamente tinha colocado a melhor no começo e a partir daí era só cair quando cheguei a A Hora e a Vez de Augusto Matraga, a última. O próprio autor achava que era a melhor, e tinha razão.

Nessa novela o autor mostrou quem era. Nessa ele saiu do regionalismo que nos faz estranhar e até antipatizar com a região retratada. Só por ela já valeria a pena ler o livro.

Essa novela é um desses clichês, no bom sentido, ou um arquétipo, o que não é uma palavra boa para o caso, a que os autores de orelhas de livros de países pobres dão o pomposo título de “universal”. Não gosto disso: um autor nigeriano ou brasileiro tem de se esforçar por ser “universal”. Já um norte-americano é universal por nascença. Mas essa história podia ser facilmente transposta. Aliás, vou falar dela nessa forma: William J. Cartwright, conhecido como “Billy” Cart, era filho de um dos maiores donos de gado do Colorado. Um dia perdeu a mulher para outro homem, perdeu a fortuna no jogo, e o malvado Dick Clanton mandou matá-lo, e ele só escapou por milagre. Encontrado por uns apaches mansos, foi levado para uma fazenda abandonada perto de Walla Walla. Lá se arrepende do mal que fez na vida, e procura sopitar seu desejo de vingança da mulher e do malvado Clanton tornando-se pastor protestante. Trabalha, conserta cercas, cura pessoas, faz o bem, ganha reputação de santo. E Billy Cart trabalha e trabalha, e repete um pensamento: Um dia, a hora e a vez dele iriam chegar.

Um dia passa por lá o terrível bando de “Cisco Kid” Nelson, homem conhecido por matar primeiro e nem fazer perguntas depois. A rua se esvazia. Todo mundo a cidade tem medo do bandido. E Billy sai à rua sozinho para se encontrar com Cisco Kid...

E o resto, só lendo. Ou “Billy Cart” podia se chamar Igor Ipatiev, que perdeu as terras para um usurário de Petersburgo e fugiu para uma aldeia perto dos Urais. Ou se chamar Jean Mezieres, que ganhou fama de santo numa miserável aldeia da Bretanha.

Só que ele se chama Augusto Matraga, e vive no sertão das Gerais, que é o mundo todo. E “Cisco Kid” é o cangaceiro Joãozinho Bem-bem. E no Oeste norte-americano, na Rússia, na França ou em qualquer lugar a sua história se repete. E em todos eles, a sua hora e sua vez vão chegar.