Um brasileiro chamado Rodolfo

Paulo Avelino
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E súbito vim ao mundo, e me chamaram Rodolfo. Descobri que respirava, que tinha um corpo, que tinha peso, que ocupava lugar no espaço, e que podia transportar-me de um lugar para outro retesando certas partes de mim chamadas músculos, e que podia fazer vibrar o ar movendo uma parte de mim chamada boca, e que podia levantar do chão, vencendo outra vez a dura lei da gravidade, alguns objetos, através de partes de mim chamadas mãos.

E a isso descobri que chamavam vida. Eu estava vivo. Não tinha a mínima idéia por quê.

E descobri que a vida cessa, acaba, pára, deixa de acontecer. Por muitos motivos. Balas, facas, quedas, cobras, ciúmes, fome, assinaturas de pomposos generais em rutilantes documentos que se chamam planos de guerras, roubos, naufrágios.

E doenças.

A vida do ser de quem eu vim, a minha mãe, cessou quando a minha vida contava com quatro anos que existia.

Minha mãe cria que dar vida era algo que se devia fazer com risco de fazer cessar a própria.

Ela quase morreu ao dar à luz à minha irmã mais velha.

Teve medo de morrer ao me dar a luz.

E morreu ao dar a luz à minha outra irmã, quatro anos depois.

Meu pai, Marcos José, era um belo rapaz atraente às garotas e que se formara em medicina na Bahia, a única faculdade que havia então.

Como minha mãe, ele acreditava na manutenção desse estado de mover músculos e fazer vibrar o ar que chamam vida.

Mas ele não pôde manter por muito a própria, acossado pela cólera em 1861, na epidemia que se espalhava por todo o país (a casa cheia de gente suja, o fedor de excrementos entrando-me pelas narinas, os auxiliares de meu pai mal se podendo manter em pé, a força da gravidade vencendo a força de seus músculos) e finalmente levado pelo beribéri dois anos depois.

E me vi só. Das duas vidas que me originaram e da minha, só a minha restava.

De meu pai herdei duas fortunas: o nome do meio, Marcos, e o sobrenome, Teófilo.

E mais nada.

Descobri que eu era transitório. Que em algum tempo, na verdade não muito, eu não poderia mais respirar e fazer vibrar o ar. Eu morreria.

Mas não era isso o que me preocupava.

É que eu precisava fazer algo, com meus músculos, minha garganta, meus braços, enquanto ainda podia movê-los.

E eu decidi especializar-me em vida. Aprendi que gostava de desafios. E meu pai e minha mãe tinham me ensinado que morrer era tão fácil que não representava nenhum desafio.

Difícil era manter o que se chama de vida, pelo menos por algum tempo.

E eu comecei a estudar a vida.

Os micróbios, os bichos empalhados, as dissecações de sapos, os esfolamentos de gatos, os esqueletos dos cachorros, as pústulas nos bois ou nos humanos (são escandalosamente iguais) me fascinavam. Na minhoca mais nojenta eu via a vida (e não a achava nojenta).

E minha fascinação foi se estendendo ao que se usava para estudar e estraçalhar a vida de alguns para manter a vida de outros, os tubos de ensaio, as pipetas, os contrastes e corantes, os microscópios e as longas barbas dos meus velhos professores que liam em latim e pensavam em francês, os vidros escurecidos com líquidos letais, a espuma das soluções que se misturavam e transformavam em outras, isso me fascinava.

Eu me tornei um farmacêutico.

E decidido a manter vivos o maior número de seres por mais tempo possível, até que eu próprio cessasse.

Para isso eu precisava de três coisas:

uma placa oval com o meu nome, "Rodolfo Teófilo", e a minha qualificação logo abaixo "Farmacêutico", na frente da minha casa;

meia dúzia de instrumentos, tubos, fornos, plantas secas, soluções e pós, coisa que pude comprar com o generoso auxílio do meu padrinho o Barão de Aratanha;

e um ódio mortal à morte.

Nasci em meio à morte, mas tinha aprendido a odiá-la com toda a força de meus músculos, articulações, glóbulos, neurônios, células piramidais e pensamentos.

E na minha casa, que também era minha botica, no Boulevard Visconde do Cauípe, n. 04, na cidade de Fortaleza, no estado Ceará, no país Brasil, no continente América do Sul, no hemisfério Ocidental, no Planeta Terra dos homens que o povoavam por inteiro, eu, Rodolfo Marcos Teófilo, nascido no dia seis de maio de 1853, declarei guerra à morte.

Descobri que minha inimiga não estava longe. Ela, talvez sabendo que eu queria destruí-la, se aproximava, como para desafiar-me.

Ela veio com outro nome. Chamava-se agora Varíola, e passeava livre pelos subúrbios da cidade, nos bairros pobres de gente miserável para as quais um sapato é uma redenção impensável em meio aos miasmas e à sujeira.

Procurei outros cavaleiros para comigo matar esse dragão. Precisava de armas, que agora eram tubos e vidros e substâncias químicas e auxiliares para fazer tudo mais rápido, por que a inimiga era muito rápida. Ou seja, precisava de dinheiro para fazer as coisas e dinheiro para pagar as pessoas.

O Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Doutor Manoel Ferraz de Campos Salles, multimilionário fazendeiro de café que se destacava por seus ternos bem cortados, por seu francês fluente, por ser muito amigo dos banqueiros ingleses pelos quais era muito bem recebido com luxuosos banquetes nas viagens a Londres e por fazer questão absoluta de pagar pontualmente aos referidos banqueiros os juros da dívida externa mandou-me um telegrama com elogios e frases, adjetivos e tropos os mais diversos e superlativos, assegurando-me o seu mais decidido e inabalável apoio moral.

O Ilustríssimo Senhor Presidente do Estado, o Comendador do Império Doutor Antônio Pinto Nogueira Acióli, conhecido por ter mudado de Monarquista sincero a Republicano fanático quando se tornara mais conveniente ser republicano que monarquista, por ser muito amigo do grande comércio exportador a quem entregava a intermediação de empréstimos e encomendas de pontes e obras que nunca terminavam ou se perdiam no transporte, enviou-me carta chamando-me de benemérito, filantropo e quase santo, entre outras longas palavras, algumas das quais de tão eruditas sequer entendi bem mas que me levaram às lágrimas, e informou-me num PS que o estado não tinha verbas para tão benemérita e inadiável ação, por mais inadiável e benemérita que tal ação em verdade fosse, conforme reconhecia, em sua caprichada redação, o Ilustríssimo Senhor Presidente do Estado o Comendador do Império Doutor Antônio Pinto Nogueira Acióli.

Com pequenas variações, esta foi a resposta de Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal, de Sua Excelência o Presidente do Tribunal de Justiça, do Preclaríssimo Senhor Doutor Presidente da Assembléia Legislativa do Estado, dos Doutos Deputados, Monsenhores, Juizes, Parlamentares, Prefeitos, Vereadores e Demais Ilustres Varões De Plutarco Que Formam O Orgulho e Esteio Do Nosso País.

Tantas foram suas palavras de elogio que, se eu tivesse de carregá-las comigo, precisaria de várias carroças e cavalos, os quais, por sinal, não teria dinheiro para comprar.

Felizmente, palavras não pesam.

E assim, tive de eu mesmo, com meus parcos meios, e dois bezerros dados por um amigo, preparar minha lança contra minha inimiga, a morte, travestida de varíola.

A lança era antiga. Um sujeito teimoso (talvez quase tanto quanto eu) já a tinha inventado uns cem anos antes.

Pega-se o líquido da morte, o líquido da varíola, injeta-se em um bezerro (pobre bezerro, mas até para defender a vida precisamos cortejar a morte). O bezerro se cobre de pústulas, e delas tiramos um líquido. Esse líquido se injeta na pessoa. Esta se sente mal, tem uma pequena febre, pode vomitar.

Mas no quinto dia a morte já não entra mais naquele corpo vivo. Não em forma de varíola.

A vacina era minha lança. Meu cavalo era um cavalo mesmo. Tive de comprá-lo com minhas poucas economias.

E no dia primeiro de agosto de 1904, em um lugar chamado Matadouro, o bairro mais miserável duma cidade miserável chamada Fortaleza desse país miserável chamado Brasil comecei meu combate.

Os combates não são charmosos, caro leitor de histórias de cavalaria. Eles fedem. A urina, a sujeira, a sebo, a imundície, a lama podre, tudo isso dentro daqueles casebres daquela gente que comia as sobras de carne imprestável, ossos e pelancas jogadas fora pelo matadouro da cidade.

Quem é esse homem a melhor vacina é a de Deus por quê está fazendo essas perguntas isso é coisa do diabo não sou obrigado a isso e outras coisas mais me diziam.

Sós, eu e minha lança, minhas pequenas lanças em forma de frascos que eu passava a noite toda preparando.

E minha inimiga por ali, rondando. Às vezes eu chegava tarde, a tempo apenas de levar o cadáver ao cemitério.

Mas desta vez ela não estava sozinha na sua ronda por aquelas areias quentes e sujas e por aquela fedentina. Eu também estava por lá, fazendo meu trabalho, diminuindo devagarinho o número de suas vítimas.  Isso a enraivecia e a fazia acelerar seus esforços, e eu também apertava o passo para não ficar atrás.

Ela não conseguiu se livrar de mim, por mais que tentasse.

Tentou campanhas de difamação pela imprensa. Os excelentíssimos senhores donos da cidade, governantes e seus apoiadores, malgrado seus superlativos elogios anteriores, agora que todos viam sua nenhuma disposição em combater a morte, diziam agora que minha vacina era maléfica.

Eu a mandei para análise pelo Sr. Osvaldo Cruz no Rio de Janeiro, que atestou numa carta que a vacina era ótima.

Diziam que vacinar as pessoas era um atentado à liberdade do cidadão. O cidadão tinha direito a não furar a sua epiderme, diziam, exercendo assim o seu livre, sacrossanto e constitucional direito de morrer com o corpo coberto de pústulas, diziam.

E eu lhes brandia a lei de vacinação obrigatória, que eles, que a votaram, eram os primeiros a não cumprir.

Concluí que não era a morte que manipulava os poderosos para seus fins, eram os poderosos que manipulavam a morte, assim como manipulam a fome, a miséria, os preços das mercadorias e o esquecimento.

Hoje não há mais varíola. Pessoas me cobrem de elogios. Espantam-se como eu vacinei sozinho uma cidade, ou a parte mais pobre de uma cidade, que era quase toda.

Mas hoje é a minha vida que cessa. Uma vida bem longa, muito mais que eu esperava. Bem mais longa que a de meu pai ou de minha mãe. As pessoas em volta desse leito, filhos, netos, nem pensavam em começar a respirar quando eu nasci. Não sei se venci a morte, mas acho que lhe tornei a vida muito trabalhosa.
 
 
 

Rodolpho Marcos Teophilo morreu a dois de julho de 1932 em Fortaleza na sua casa no Boulevard do Cauípe, hoje Avenida da Universidade. Farmacêutico formado, ele praticamente sozinho, sem apoio de nenhum governo ou instituição, vacinou boa parte da população de Fortaleza contra a varíola a partir do ano de 1904, erradicando a doença da cidade, na época com mais de setenta mil habitantes. Hoje é nome de um bairro em Fortaleza. Sua casa foi demolida em 1985 para dar lugar a um prédio de apartamentos.