Àquilo de que não se sabe o valor

 

Paulo Avelino
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Àquilo de que não se sabe o valor não se costuma dar valor. Do que foi conseguido com muito sacrifício pode-se abrir mão por um prato de lentilhas ou um saco de batatas, como queriam a Bíblia e o velho Machado. Daí a importância da história. Ela nos dá um fundamento, uma base. Quem não tem história é terrivelmente frágil.

Em 1937 o general Góes Monteiro era o chefe de estado-maior do exército. Chamou seus subordinados e perguntou o que estavam fazendo. Um estado-maior é um órgão inventado pelos alemães cuja finalidade é fazer planos que nunca serão utilizados. Um estado-maior tem ou deveria ter planos para  se explodisse uma guerra entre o Planeta Terra e Marte, ou se o Brasil fosse invadido pela marinha do Malawi aliado à Zâmbia, ou se Godzilla aparecesse na Baía da Guanabara. E o  general descobriu que muito brasileiramente o pomposo estado-maior não tinha plano nenhum. O que tal órgão se dedicava a fazer então, acho que nem o general soube na época. Estarrecido pegou um papel e rabiscou o que queria, planos de guerra - plano de mobilização geral, de transportes, de busca de informações, de aprovisionamento e vários outros. Mandou o pessoal trabalhar.

Um semana o general Horta Barbosa trouxe o choque: o Brasil não tinha combustível para mais de oito dias de guerra. Teria de ser uma guerra bem curta... Góes Monteiro abalou-se a falar com o ditador Vargas. Este também ficou alarmado mas achou pequena a possibilidade do país entrar em guerra. (No entanto entraria quatro anos depois). O general insistiu. Sugeriu que cada órgão envolvido do governo indicasse um representante para criar um grupo. E assim surgiu o Conselho Nacional do Petróleo, tendo como seu primeiro presidente o General Horta Barbosa.

Em 1931 tinha sido criada no Uruguai a primeira companhia estatal de petróleo da América Latina, a ANCAP, Administração Nacional de Combustíveis, Álcool e Portland, combatida até o desespero pelas gigantes que dominavam o negócio. E em 1939 ela funda a sua primeira refinaria. Pouco tempo depois o General Horta Barbosa a visita. A refinaria estava dando certo, no primeiro ano de funcionamento quase que se pagara apesar das previsões apocalípticas de que o Estado era um mau administrador. Voltou ao país com esse exemplo. Alguns anos depois era o Brasil que fundava sua empresa para cuidar dos interesses do petróleo, a Petrobrás.

E voltamos ao começo do artigo. Quem não tem história se torna eminentemente frágil. Hoje a Petrobrás é considerada supérflua como um brinco, uma coisa feita sem motivo, propósito ou sacrifício, e que assim pode ser jogada fora igualmente sem penas. Assim como tantas estatais antes e depois dela. No entanto ela foi uma empresa criada por necessidades, mais que econômicas, por necessidades estratégicas e militares, e por homens que, por conservadores que fossem, por maiores que fossem as suas distorções, tinham um projeto para o país. Conservador sem dúvida, mas um projeto. Enquanto hoje temos apenas um Presidente com seu risinho cínico enquanto o país desliza, e nem tão imperceptivelmente assim.