PELO BRASIL - SUL RIO-GRANDENSES


Paulo Avelino
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NO PRINCÍPIO ERA A PRATA


A história do que chamamos hoje de Rio Grande do Sul começa na Bolívia. Em 1545 o índio Diego Thualca descobriu que sua lhama fugira para o alto da montanha. Arrastou-se em perseguição a ela. Ainda não a tinha alcançado quando a noite caiu. Acendeu uma fogueira. A fogueira iluminou uma pedra, que devolveu o esplendor: a pedra era de prata. Tinha descoberto o maior filão de prata do planeta. Aventureiros vieram de todo lugar. Pouco depois ali mesmo foi fundada a cidade de Potosí.

Em pouco tempo Potosí tinha mais habitantes que Paris ou Roma. E 14 escolas de dança, 24 lojas de tecidos, 800 jogadores profissionais e 120 prostitutas.



POTOSÍ PRECISAVA COMER


E precisava de tecidos e de trigo e de porcelanas e de carne jovem para os prostíbulos. Mas acima de tudo precisava de negros. Cada escravo durava uma média de oito meses no serviço das minas, e precisava ser substituído.

Havia uma rota legal, cara e demorada, pelo Panamá, e depois trasbordadas as mercadorias, por navegação do Pacífico.

Mas havia uma rota fácil, barata, cômoda e ilegal: o contrabando de escravos do Brasil.



OS CONTRABANDISTAS LUCRAM: O REI PROTEGE


Eram os ¿peruleiros¿ - compravam escravos de Angola, açúcar, arroz e chapéus e desciam com eles para a boca do grande Rio da Prata, por onde chegavam ao Peru. O contrabandista Francisco Soares ensinava seu irmão a fazer a coisa: devia usar barcos de 30 a 40 toneladas cada um, que voltariam ¿trazendo daqueles lugares não mais mercadorias, mas dinheiro¿. O lucro era de 300%.

O Rei português manda fundar a Colônia do Santíssimo Sacramento bem na boca do rio da Prata. Lá os agentes do fisco olhavam para o outro lado sempre que passava um navio repleto de escravos contrabandeados.

Bem do outro lado do rio estava Buenos Aires, fundada pelo rei espanhol. Começa uma guerra de cento e cinqüenta anos entre os dois reis pela posse da boca do grande rio.

Do lado português, o Sul da Brasil todo se constituiu como proteção a Sacramento.

O outro lado também não está inativo: Num lance de mestre, os espanhóis fundam Montevidéu ENTRE Sacramento e o resto do Brasil, tornando difícil a defesa da colônia.



E O RIO GRANDE?


Era rota de passagem entre Laguna, em Santa Catarina, e Sacramento. E aos poucos era tomado por bois e cachorros selvagens, espécies trazidas da Europa e que gostaram da região. A rala população caçava bois selvagens, vendia o couro e deixava a carne apodrecer.



DAS ARMADILHAS DO SEJA-VOCÊ-MESMO


Numa livraria em Santa Maria deparo com dois livros ensinando a ser gaúcho. Compro um deles, o Curso de Tradicionalismo Gaúcho, de Antônio Augusto Fagundes.

E em todo lugar há centros de tradições gaúchas (CTGs). Dizem que tem um até na Austrália. E são congregados no Movimento tradicionalista gaúcho (MTG) com regras para que um CTG possa ser parte do MTG. E existe até um MTG dissidente, com CTGs dissidentes!

O RS hoje é um laboratório para uma das coisas mais estranhas da pós-modernidade. A busca de uma autenticidade, de um ser-você-mesmo. E poucas coisas há mais falsas do que essa autenticidade. Um livro que ensina pessoas a serem elas mesmas é de morrer de rir. E a busca de um autêntico passado é algo que envolve duas construções, a de autêntico e a de passado.

Na biblioteca municipal da cidade de Júlio de Castilhos encontro um livro sobre trajes gaúchos. E descubro que os gaúchos nunca foram tão gaúchos como os gaúchos que querem ser gaúchos! Os concursos de prendas (moças) nos Centros de Tradições Gaúchas são um espetáculo do fake: as garotas se vestem com roupas coloridas como de quadrilha. As mulheres gaúchas nunca se vestiram assim. Eram mulheres vitorianas, que se vestiam de cores sóbrias, com tons de cinza. Nunca se vestiriam com essa profusão de cores vivas. Isso era considerado até chamativo para homem.

Quanto às roupas dos homens, as bombachas, não existe tradição mais enxertada: são oriundas de uma superprodução de tecidos na indústria inglesa durante a guerra da Criméia, ensina o uruguaio Eduardo Galeano. E as bombachas atuais querem tanto ser bombachas que se tornam verdadeiras saias. Coisa que as de antigamente não eram.

Livros, discursos, clubes, política: tudo para que uma população seja ela mesma. Por assim dizer.

É complicado isso de ser-você-mesmo!




O PROBLEMA DE TODO FOLCLORE


Mestre Ariano Suassuna compara o hip-hop com a embolada, e considera a última muito superior.

Concordo plenamente. Mas por que a contestação dos jovens de periferia segue pelo hip-hop, e não por uma embolada poeticamente melhor?

Há muitas respostas para isso. Arrisco uma hipótese. O folclore tomou um aspecto de neutralidade social, de passado risonho, de harmonia social que talvez não se coadune com quem tem motivos para contestar. Sequer digo que isso seja essencial ao folclore. Duvido que seja. Mas o fato é que é apresentado assim. Veja as quadrilhas: tem sempre um coronel de garrucha na mão forçando um rapaz a casar com alguma moça. Isso é vendido como engraçado, folclórico enfim. Eu sempre vi nisso o arbítrio, a violência de uma sociedade em que um homem rico e sem escrúpulos em matar faz cumprir normas ditadas por seu capricho.

Em comidas folclóricas como a feijoada vejo a violência de gente cruel que não deixava a quem trabalhava, os escravos, nem a oportunidade de comer as partes nobres do porco. Quem a comia eram os parasitas da Casa Grande. O escravo tinha de pegar o pé, o rabo, a orelha, as rejeitos do porco enfim, misturar com o feijão que ele mesmo plantava e daí nasceu o prato folclórico. Que é saboroso, mas é filho autêntico da injustiça.

E no RS também. Os CTGs vendem um passado harmonioso, sem conflitos: o feliz estancieiro, o feliz peão, a feliz prenda, até o feliz escravo.

Infeliz de quem acredita.



LENDAS


E até lendas bobas existem por aí: gaúcho gosta de pelear. Coisa nenhuma. Basta reler Érico Veríssimo: Pedro filho de Ana Terra sofreu como os diachos nas guerras com os hispanos. Foi convocado por que o estancieiro dos Amaral convocava os pobres, para não convocar os escravos dele, que eram o meio de enriquecimento dele. Assim o pobre Pedro pegou uma doença de tanto dormir em banhados, não teve glórias, muito menos gostava de pelear. Ninguém gosta de pelear. Ninguém que seja humano. Toda e qualquer guerra é um empreendimento que mata os pequenos acionistas.

E a lenda de um estado de todo mundo vivendo bem. Que nada. Era um estado de latifundiários como todos os outros. E latifúndio quer dizer pobreza e injustiça. De novo, basta rever Veríssimo. Havia muito pouca harmonia para os dominados pelos latifundiários Amaral. O latifúndio distorcia tanto a cadeia de produção que até o produto mais besta, a farinha de mandioca, tinha de ser importado. Está em O Continente.

Essa construção de passado quer fazer com que até as guerras sejam docinhas.

Balela.

As guerras gaúchas foram feitas para benefício de quem tinha, como todas as guerras. E quem não tinha, o peão despossuído, a mulher pobre, ficavam no seu canto morrendo de medo que chegasse a sua vez, a do marido e a do filho. O resto é tolice.



1756 - SÃO MIGUEL TINHA QUE MORRER


Eram sete povoações de índios, lideradas por Padres. Povoação em castelhano se diz Pueblo. Uma tradução imaginativa os transformou em Povos. Assim, se diz, Os Sete Povos das Missões.

São Borja, São Nicolau, São Luís, São Lourenço, Santo Ângelo, São João e São Miguel Arcanjo, a capital. Tinham de morrer. Vê lá se o capitalismo ia permitir uma comunidade em que todos trabalham, todos comem, e em que o bem-estar social é mais importante que a acumulação?

E no entanto esse prédio, o encaixe perfeito das pedras, a beleza mesmo em ruínas mostra o quanto isso é possível.



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O CHARQUE PRODUZ NOBRES E GUERRA


Foi o cearense José Pinto Martins que trouxe um velho costume do norte: salgada e posta a perder os líquidos, a carne fica seca e o processo de apodrecimento não avança. Em Aracati, de onde ele vinha, esse processo era usado havia séculos. Ele comprou terras na beira do riacho Pelotas e começou a matar bois.

Nascia a carne seca do RS, o charque, filhote mais novo da carne de sol do Norte.

Em pouco mais de cinqüenta anos a carne seca gerou barões, encheu as beiradas do riacho pelotas e do seu principal São Gonçalo de matadouros (charqueadas) e provocou uma guerra civil.



COMIDA DE ESCRAVOS


A carne seca era comida barata feita para alimentar escravos. Por ser barata precisava de transporte barato. Por isso as charqueadas ficavam em beira de rios, para escoar a produção por barco. A produção era vendida para Minas, Rio, Bahia e Cuba.

Cuba não entra por acaso. Lá também o sangue da economia era escravo.



O ARROIO PELOTAS


regurgitava de charqueadas e nobres. Segundo a pesquisadora Zênia de Leon, quem passeasse pelas margens do rio toparia, uma ao lado da outra, com as charqueadas do Visconde da Graça, do Barão de Azevedo Machado, do Barão de Jaraú, do Barão de Cacequi, do Visconde de Jaguari, do Comendador Possidônio da Cunha, do Barão do Arroio Grande, do Barão do Butuí, fora a antiga, de Pinto Martins.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p.



QUADRILHA


A casa do Barão do Butuí tinha dois pisos e um mirante. Só o mirante tinha quatro dormitórios. No segundo piso ficavam o Salão Dourado e a Sala de Música, ao lado da sacada. Atrás da casa, um pátio com azulejos de Portugal e golfinhos de mármore da Itália que cuspiam água para diversão de Francisca, Cândida, Leonídia e Maria Angélica, as filhas do Barão.

Cândida casou com o Barão de São Luís, Francisca com o Barão de Cacequi, Angélica com o Comendador Alves Ribas, e Leonídia terminou casando com o Arthur Antunes Maciel que era o único que não tinha título nessa história.

Mas que quase ganhava. Foi convidado para ser embaixador em Paris e recusou.


LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p.


E POR FALAR EM CASAMENTO...


Como começar de outra forma a velha história de sempre?

A bela moça, a janela, o entardecer, o moço desconhecido, a troca de olhares, as roupas rústicas, o pulo do coração, no dia seguinte o cumprimento, o tirar do chapéu, e no dia seguinte, e no dia seguinte, a apresentação aos pais, os pais desconfiados, o minha filha tenha cuidado não sabemos quem é ele, o mas eu o amo, o mas ele é do interior, o mas eu o amo, o mas você terá de nos deixar, o mas eu o amo, a concordância relutante dos pais, o casamento, as lágrimas, a partida, a viagem rumo à nova vida, a chegada à terra distante, o palácio do desconhecido agora marido, o assombro da moça agora esposa diante de tanta beleza...

é assim que teria sido a vida de Amélia Hartley de Brito Antunes Maciel, a moça que se casou com o Barão de Três Serros.

Mas há mais, e pode ser dito em conto de fadas: ¿...e a moça começou a viver no palácio de seu marido. Eram amados pelos vizinhos e pelos pobres, aos quais sempre davam grandes esmolas, mas... não era de todo feliz. Pois seus pais, lá na capital distante, não aceitavam aquele casamento. Um dia pai avisou que ia visitá-los. O marido, querendo dar boa impressão aos pais da moça, mandou enfeitar o jardim da casa, construindo uma gruta cravejada de pedras semipreciosas, gôndolas venezianas para os sogros navegarem no lago da casa, um castelo em miniatura para sua criação de coelhos para os pais da moça se distraírem. Quando saiu do trem, os pais da moça foram recebidos por uma banda de escravos uniformizados de cores fortes e botões dourados. Para deixar os pais mais à vontade para as expansões de sua saudade com a filha, ele e a esposa vieram em carruagens separadas, a dele de cavalos negros, a dela de cavalos brancos, que era a que levaria os pais dela para o palácio. à noite, uma festa, com toda a nobreza da região. E então, às lágrimas, o velho vence o orgulho, abraça e beija a filha e finalmente dá sua bênção ao casal..."

O lugar onde teriam acontecido tais coisas existe até hoje. Agora é museu e pertence à Universidade Federal de Pelotas. Vale a pena visitá-lo. é um dos palácios mais belos que já vi. Se aconteceu mesmo esse conto de fadas? Bem, o povo diz que sim. Acredite... se quiser, como no velho programa de TV.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p.



ATÉ O CÉU ERA DIVIDIDO


na sociedade da carne de boi morta e não-putrefata. Na "Casa de Pompas Fúnebres" havia uma carruagem luxuosa, mandada fazer especialmente na capital do Império, para os milionários, o carro das crianças, o das virgens, o dos pobres e o "bate-bate", dos indigentes.

Uma escola tinha um muro no pátio, baixinho, que separava as meninas pobres das ricas. Depois o muro foi derrubado, mas a marca ficou no chão. E ai daquela que ousasse passar.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p.


DE ONDE VEM A FAMA


A Tablada era um lugar plano ao lado da cidade onde se encontravam os barões do charque, que queriam comprar bois, e os tropeiros, que queriam vendê-los.

Para o tropeiro era uma operação delicada. Durante a safra chegavam em média quatrocentos mil bois àquele lugar. Era preciso calcular a andadura do boi para evitar chegar num dia em que muitas outras tropas estivessem chegando, para não baixar demais o preço. Acelerar demasiado a andadura dos bois era impossível. Esperar nas vizinhanças também era: passava tanto boi por ali que o pasto quase não existia mais. Assim, cada tropeiro tinha espiões a cavalo que procuravam saber onde estavam as outras tropas, qual sua distância da cidade e sua andadura, para calcular em que dia chegariam.

Boiada chegada, negócio feito, os peões eram pagos por dia de trabalho e se espalhavam pela cidade, eram embasbacados pelos casarões e depenados pelas prostitutas e casas de jogo. Os pelotenses eram esquisitos. Usavam roupas de tecido fino e não pegavam na carne com a mão: usavam uns ferros esquisitos. Só podiam ser maricas.

Eles usavam talheres.



(MARQUES, Alvarino da Fontoura. Episódios do ciclo do charque. Porto Alegre: EDIGAL, 1987. 304p. p184-185.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p. p158.)



O CONTO DE FADAS TINHA UM OUTRO LADO


“Como a vida se torna fácil nesse magnífico país, a ociosidade é partilhada por todos os brancos, e só os escravos trabalham nas indústrias que deixamos indicadas...”- escreveu uma testemunha. “Nas charqueadas os negros são tratados com rudeza... Ao imaginar essa multidão de animais decapitados, o sangue a correr em borbotões... vejo que tais lugares devem inspirar contrariedade e pavor.” - registrou o naturalista francês Augusto de Saint-Hilaire.

No livro de registros do hospital consta a anotação em letra elegante: “Foi internado dia 11 de junho, deste ano de 1854, o escravo condenado de nome Viriato, para tratamento de eczema e diarréia. Cure-se e enforque-se.”



(MAGALHÃES, Mário Osório. Pelotas: toda a prosa, 1o volume (1809-1871). Pelotas-RS: ed. Armazém Literário, 2000. p185. p25, 38.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p. p72-73.)



RETRATO DE UM ESTANCIEIRO


O Coronel João Francisco Pereira de Souza, o João Francisco do Cati, ficou conhecido em toda a fronteira quando sua força com imensa superioridade numérica matou o Almirante Luiz Felipe de Saldanha da Gama. Desde então o governo do estado o autorizou a ter sua própria força policial perto da fronteira com o Uruguai, com carta branca para fazer o que bem entendesse quando achasse melhor.

Sua fama chegou até a Buenos Aires. Um repórter veio de lá entrevistá-lo:

“Dizem que fui degolador e outras coisas mais. Histórias. Apenas o povo repetia, manifestando sua simpatia: ‘Se Deus quiser, João Francisco e sua mulher!’... Na minha estância, o Cati, mantive 500 homens dos mais valentes dessa fronteira, entre castelhanos e brasileiros... É verdade que eu tinha, na estância, um calabouço, com 10 metros de profundidade, onde mandava deixar os mais atrevidos e indisciplinados. Mas lá ficavam só por 15 ou 20 dias. Até de vez em quando, lhes mandava um naco de carne... Degola sempre existiu, mas era só quando a justiça existia, para ‘limpar’ um pouco este oeste, de bandidos e ladrões de gados...”


(MARQUES, Alvarino da Fontoura. Episódios do ciclo do charque. Porto Alegre: EDIGAL, 1987. 304p. p256-257).



UM MANSO NO MEIO DOS VIOLENTOS



Antônio de Mello e Albuquerque mal abriu os olhos e se espantou com o que viu: o mundo era de violências, do senhor contra o escravo, do homem contra a mulher, do rico contra o pobre, do inimigo contra o outro. No meio das violências ele teve também de fazê-las, embora fazendo o menos que podia. Quando muitos dos fazendeiros se declaravam revoltosos, ele reafirmou seu amor pelo Império. Foi ele quem aprisionou, e não matou, à moça revolucionária Ana de Jesus Ribeiro, a Anita Garibaldi. Por seu gênio calmo ganhou outro nome: o povo o chamava de Mello Manso.

Mello Manso escrevia versos e se horrorizava:

Nada respeitam no mundo
Vivem nas trevas sem luz
Destroem a linda terra
    Da Santa Cruz.

São capazes de matar
Té ao mesmo Imperador
Nem conhecem que Deus é
    Nosso Senhor.

Vivemos sempre arrastando
Os mais terríveis perigos
Procurando só livrar-nos
    De nossos inimigos.

Só quem segue uns preceitos
Que vive e morre no bem
Gozará essas promessas
    Do Espírito Santo. Amém.



(ROSA, Isaltina Vidal do Pilar. Cruz Alta. Rio de Janeiro: edição do autor, 1981. 289p. p113-115.)




O NOVO CÉU


O Barão de Itapitocaí era Cavaleiro da Águia Vermelha pelo Império Alemão, Comendador da Ordem da Rosa pelo Império do Brasil, Comendador da Ordem de Cristo pelo Reino de Portugal, recebera a Cruz de Ferro da Alemanha e uma outra ordem pela Itália. Seu pai tinha sido fidalgo cavaleiro da Casa Imperial e Guarda-Roupa honorário de Sua Majestade.

Dava fortunas para a Igreja. Assistia à missa de uma tribuna especial na qual estava pregado o seu brasão e sob a qual ficavam os santos de guarda da família.

Sua filha Francisca herdou o casarão, o pelourinho no pátio, o chafariz com azulejos portugueses e o lugar coberto para as carruagens.

O dinheiro foi embora e também a casa, perdida na roleta por um filho viciado em jogo. Perdeu também a tribuna: o padre tinha mandado desmontá-la, reduzindo a filha do Barão a ver a missa lá de baixo, com os outros pobres, na mesma igreja na qual tivera um cortejo nupcial de um quarteirão e meio, começando lá fora, para os escravos e o Zé-povinho pudessem invejar seu vestido.

Rejeitada pelos representantes do Céu resolveu rejeitá-los também: juntou todos os santos da família, embrulhou num lençol e jogou no rio. Durante algum tempo não quis saber de outra vida que não esta.

Passando por uma das primeiras igrejas protestantes algo a fez entrar. Sentiu a paz e passou a ir levando os filhos menores.

Dois deles se tornaram dos primeiros reverendos protestantes do país. Um deles mais tarde foi um dos fundadores da Catedral Anglicana do Redentor.

PS: Essa catedral existe até hoje e é uma das atrações arquitetônicas de Pelotas. Alguém teve a idéia de cobri-la com plantas trepadeiras, dado-lhe um toque de originalidade, e agora é conhecida como A Igreja Cabeluda.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 1o vol. 2a ed. ampliada. Pelotas-RS: ed. do autor, 1993. 238p. p32-34.)




OS FANTASMAS PROCURAM AS GLÓRIAS PASSADAS; PESSOAS TENTAM SALVAR OS CASARÕES

Apertado entre solares de Viscondes e Comendadores, ninguém se preocupou de registrar a história do sobradinho amarelo. Depois da abolição que diminuiu as vendas, da concorrência dos frigoríficos ingleses, da modernização dolorosa nos anos 60 e 70, um homem veio para a cidade e alugou o quartinho de cima. Na primeira noite ouviu passos na escada. Tentou enxergar no escuro. Viu uma mulher, que não disse nada, só fechou o postigo, a janelinha lateral, e desceu a escada. O homem ficou agitado, depois dormiu. De manhã viu que a porta da rua estava trancada por dentro e ninguém podia ter entrado. Concluiu que tinha sido um sonho e foi trabalhar. Ao dormir lembrou de fechar a janelinha. Dessa vez não teve coragem de abrir os olhos. Ouviu os mesmos passos na escada. Alguém levantou a sua cabeça com travesseiro e tudo, passando a mão por baixo, como à procura de algo. Depois desceu a escada. De manhã o homem foi embora e nunca mais passou sequer pela frente dali.

Em 1999 o escritor e músico Vítor Ramil fez conferência em Fortaleza sobre os casarões de Pelotas. Ele e gente como a pesquisadora Zênia De Leon lutam e reivindicam, e protestam contra a demolição ou abandono dos prédios ainda de pé, uma luta as mais das vezes sem vitórias. Essas pessoas, além dos fantasmas, são o que resta do tempo do charque.

LEÓN, Zênia de. Pelotas, casarões contam tua história, 2o vol. Pelotas-RS: ed. do autor, 1997. 312p. p274.)