Pedro e Diana - dois exercícios narrativos sobre equívocos

Paulo Avelino
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- I -

Diana gostava tanto de esportes radicais que seu instrutor brincava que ela se devia chamar Eva, "a primeira mulher". Pois ela fora a primeira mulher de nossa cidade a voar de para-glider, a praticar o pára-quedismo, a escalar o penhasco da Gameleira e mais outras façanhas. Devia estar no sangue: única mulher entre quatro irmãos, todos eles no fim de semana estavam com algum uniforme de neoprene colorido escalando alguma serra ou tentando alguma outra maluquice. E assim também estava ela, se não estivesse no windsurf ou no sobrevoando a cidade na asa delta.

Pedro tinha sido nadador e praticado um bocado de esportes, e logo se viu atraído pelos modos doces e femininos de Diana. Ele parecia ser o tipo daquela menina modesta e discreta. Mas achou que uma garota como Diana nunca se interessaria por um cara como ele, que só assistia aos canais de esportes e nadava mil metros sem se cansar nada.

Ele concluiu que ele devia ser uma garota profundamente intelectualizada, dessas que adoram passar um sábado à noite em casa lendo Dostoievski. E ele a convidou para assistir a uma peça de teatro que, pelas palavras do resenhista devia ser ideal para uma garota culta como ela.

Na verdade a peça foi um fracasso. Por baixo de palavras como "quebra da relação bipolar atores-público", "reengenharia subversiva do modo burguês de representação" ou "suscitação da participação ativa do público" estavam coisas como o público ser recebido na entrada do teatro por um ator nu com papagaio no ombro; estava forçar pessoas do público a irem ao palco fazerem piruetas, ou estava em atores competirem em quem passava mais tempo dizendo só palavrões, sem usar uma conjunção aditiva sequer.

Pedro saiu da peça superembaraçado. "Céus, de que tipo de coisa esses intelectuais gostam", pensou ele. E ela estava mais constrangida ainda. Ela pensava que ele estava gostando daquela maluquice, afinal, ele parecia ser um rapaz tão intelectualizado.

"Pena" - pensou ela. Ela gostava dele, do seu jeito. Mas estava louca para convidá-lo para vê-la subir de para-glider no domingo.

Acabaram num banco, olhando vazios para o mar, um sem ter ânimo de falar com o outro. Pedro pensava que, se ele fosse diferente, se ela não fosse tão intelectualizada e não gostasse de coisas tão esquisitas como aquela peça, ele teria prazer em ficar horas com ela numa piscina no próximo domingo, ensinando-a a nadar (pois ela não devia saber) e poderiam passar muitos bons momentos juntos.

Diana, pensava, suspirando olhando as velas de windsurf ao longe, que ela nunca seria tão intelectualizada como ele. Se ao menos ele gostasse um pouquinho das coisas dela.
 

- II -

Quando Pedro viu Diana num congresso de profissionais em computação, concluiu que seria a garota perfeita, se o tempo não tivesse passado. Diana era uma ativa, charmosa e inteligente. Tudo o que ele queria.

Mas o tempo tinha passado. Diana tinha vinte e cinco, e Pedro, quarenta e dois. Ele não sabia como fora cometer a imprudência de chamar aquela jovenzinha para o cinema. Ela devia estar rindo por dentro de como um velho daqueles teve o desplante de pensar em paquerá-la.

Diana vinha de um longo relacionamento rompido havia pouco. Durante algum tempo ela se sentira ferida e desprotegida, e só recentemente começara a pensar em alguma coisa que não fosse trabalho. O convite de Pedro, um profissional famoso, pegou-a de surpresa. Ela se sentia uma menininha inexperiente diante daquele homem feito.

Durante a saída, para não parecer ridículo, Pedro foi muito sóbrio e respeitoso, e deixou bem claro que ele não estava sendo ridículo de querer paquerar uma menininha. Ele ficava o tempo todo falando as coisas e dizendo "é claro, nesse tempo você ainda não havia nascido" ou então "é claro, você não deve se lembrar disso".

Já Diana se sentia pequenina diante dele. Ela bem que queria ter vivido uma vida tão interessante como a dele, um cara que conheceu de mochila nas costas um bocado de países, e agora era um dos papas da computação. E cada vez que ele insinuava o quão jovem e inexperiente ela era Diana se sentia menor ainda.h

E assim a volta foi melancólica. No carro à noite, as luzes passando, Diana bem que queria que ele, um homem seguro e experiente, a abraçasse e beijasse, e a fizesse se sentir importante de novo. E ele só queria deixá-la logo em casa, sem dúvida essa carinha lânguida dela significava que ela estava se aborrecendo muito.