Resenha de livro: Blonde, de Joyce Carol Oates

Paulo Avelino
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OATES, Joyce Carol. Blonde. New York: HarperCollins, 2000. 735p.


Blonde, loura. Creio que não existe título melhor para um livro sobre Marilyn Monroe. É esse o romance de Joyce Carol Oates.

É um calhamaço de 735 páginas e deixa bem claro que é um romance -  como a autora não cansou de dizer em entrevistas, é um trabalho de ficção e não uma biografia.

Eu já sabia que a autora tinha suas ligações com o feminismo americano. Mas mesmo que não soubesse o livro deixa isso bem claro. É uma de suas principais características.

O principal problema do romance é como dar profundidade à personagem. Todo bom personagem tem profundidade, ou melhor ainda todo bom personagem tem um ser e um parecer,  um para/ser, um ser paralelo. Seria difícil fazer um romance sobre Cláudia Schiffer. Ou Cindy Crawford. Ou Giselle Bündchen. Ou qualquer outra modelo. Porque modelos são profissionais da aparência. Uma Giselle Bündchen é o que parece ser, o parecer é tão forte nela que engole o ser e o romancista se veria numa difícil situação para descolar os dois.

Esse foi o principal problema da autora. Como dar profundidade a Marilyn Monroe, o protótipo histórico da loura sensual e burra. A solução foi a mais conservadora possível.

Um dos arquétipos mais renitentes da humanidade é um que se poderia chamar de Síndrome de Dama das Camélias. Mas como sou nacionalista prefiro chamar de Síndrome de Lucíola, em homenagem ao romance do nosso Alencar. A idéia da prostituta de bom coração. A corrompida pelo mundo. A garota que fornece a rodo porque quer ser amada pelo mundo. Que exerce sua profissão premida pela fome.

Uma olhada em entrevistas e reportagens com garotas de programa revela que há muito isso deixou de ser real. As meninas exercem sua profissão premidas pela fome, sim, mas a fome de roupas de grife, brincos e pulseiras da moda, não pela velha fome tradicional de arroz e feijão.

E a autora faz de Marilyn mais uma Lucíola moderna. Primeiro coloca a menina fazendo quase de tudo que se possa imaginar em termos de sexo. Mas ela faz tudo isso por que foi abandonada pelo pai, sua mãe ficou louca e ela quer ser amada. Isso dá ao livro um tom melodramático que não o larga.

O segundo ponto importante é a questão da literatura feminista. Essa tem seus cacoetes. É importante aqui distinguir literatura feita por mulheres, literatura feminina e literatura feminista. A primeira é algo absolutamente simples, literatura feitas por pessoas do sexo feminino. Só isso. Nos últimos anos desenvolveu-se um tipo de literatura que poderíamos chamar de feminina, com características muito marcadas e quase fechadas: são contos/crônicas focados em temas como amor, desorientação, tensão medo/coragem diante do mundo, família, idosos (temas “femininos”) tudo com uma roupagem de solilóquio mais ou menos inspirado na parte do meio do Ulysses de Joyce.

Nos Estados Unidos temos a literatura feminista. Com uma característica meio nojentinha, uma ênfase muito chata em funções do corpo. O livro é um exemplo disso. A autora passa dezenas de páginas descrevendo menstruações com absoluta riqueza de detalhes. E depois enche o pobre leitor com longuíssimas descrições de gravidez. E depois do aborto. E de atos como urinar, ela fala demais em urina. E em baba.

Outra coisa típica da literatura feminista é certa descrição meio repulsiva do desejo masculino, visto como animalesco, malcheiroso (fala-se muito em cheiro no livro), invasivo, violento, etc.

Todos os pontos levantados pelo feminismo americano hoje estão lá: assédio sexual a mocinhas, sabedoria feminina, “há algo de feminino em estar morto”, aborto, exploração masculina, estupro infantil, horror a cheiro de homem, “mulher minha não trabalha fora”, etc.

A pesquisa foi bem feita como geralmente acontece em autores americanos mas o livro precisava ser melhor editado. Como já disse alguém essas setecentas e tantas páginas podiam se resumir a uma trezentas, por aí. Uma intuição minha é que a pesquisa foi feita por outras pessoas, que deram à autora descrições exaustivas de roupas e aparência de mulheres, e em certo momento o leitor não agüenta mais descrições de saltos de sapato e tipos de cabelo.

É uma autora muito mais chegada a inovações formais que seus compatriotas Tom Wolfe e Philip Roth. Dá para ver alguns reflexos joyceanos. No final particularmente há uma parte cheia de caracteres “&”. Há também recursos mais interessantes, como mudanças de pontos de vista, não muitas. E ela pontua o texto com frases em itálico onde ocorre uma troca de narrador. O narrador em itálico é diferente do que está em caracteres normais. Outra pontuação interessante que acontece no livro todo são citações de manuais para atores de Stanislawski e Tchekov.

Existe um grupo de jovens escritores americanos que se dizem conservadores e odeiam Joyce Carol Oates, é o pessoal do grupo Jollyroger. Mas esse ódio se deve em grande parte a motivos pessoais: a autora cometeu o desplante de expulsar um deles da sala de aula como professora em Princeton. Por isso para eles a mulher é o diabo na terra. Claro que não é. Nem mesmo é uma má romancista. Mas a tentativa não de todo bem sucedida de dar profundidade a tal personagem, o tamanho excessivo do livro e os cacoetes de literatura feminista nos dizem que se não é dos piores, o livro esta longe de ser dos melhores.