História de um homem que escolheu a pior tarefa

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br
http://www.roadnet.com.br/pessoais/avelino
ICQ# 53760772

Eu, Nestório, chamado de o Iconoclasta, sempre escolhi a tarefa mais difícil, o compromisso mais pesado, a parte menos doce de todos os bocados da vida. A outros a delicadeza e a doçura. Para mim sempre a incompreensão e a violência, e Assim Seja, de acordo com Aquele que tem noventa e nove Nomes e legiões de anjos e serafins.

Agora que os guardas do Imperador, o Procurador da Diocese, o Arquimandrita do Mosteiro de Atos, os Eparcas e Arciprestes das sagradas circunscrições e todos aqueles que me temiam e veneravam vêm me buscar para me fazer ir mais rapidamente ao encontro da Justiça Divina, sempre temível e imprevisível, venho contar a minha história.

Nasci na aldeia de Melitene, dentro das trevas do paganismo, e foram tais trevas que me fizeram buscar a luz divina com maior fervor. A fé do Nazareno já era então professada com maior liberdade. Embora ainda estivessem teoricamente em vigência os editos e códices que declaravam tal doutrina contrária à Lei e ao Império, na prática já não havia perseguições. Tal falta do Mal, considerada por alguns um bem, por mim sempre foi considerada o Mal em si, pois os costumes do povo de Deus relaxavam de tal forma que já não podia ser considerado o seu povo. Os batismos e casamentos, antes verdadeiras condenações à morte e portanto realizados com gravidade e temor, já se tornavam festas mundanas, com comida, bebida e risos. Bispos e sacerdotes prevaricavam.

Mas o principal foi quando o povo, na suas ignorância e estupidez, começou a querer ver o Divino. Queriam estátuas e pinturas para ver Deus com seus olhos. Fazedores de estátuas pululavam e deixavam de fazer estátuas de Júpiter para fazerem estátuas do Deus verdadeiro. Furioso com tal iniqüidade arruinei a fortuna da família em viagens, abandonei meus pais e irmãos na miséria e parti para Antioquia, para Constantinopla, para Roma, gastei grande parte de minha vida terrena em extensas viagens em luta pela verdadeira fé.

No começo obtive sucesso. Era aclamado. Era recebido nas pequenas aldeias à beira da estrada como um enviado de Deus, minha fama me precedia. Eu desenrolava meus pergaminhos na praça central e mostrava que grandes sábios da cristandade como Tertuliano, Clemente de Alexandria, Gregório Casabila e Orígenes o Eunuco condenavam a pérfida doutrina da fabricação de imagens. Sustentava eu que o demônio, o grande falsificador da natureza, é quem está por trás de tal Maligna Doutrina. Bradava que a lei mosaica, apesar das falhas  na revelação divina antes da Encarnação, já proibia a fabricação de imagens.

Não que não tivesse opositores. Sempre aparecia algum homem instrumentalizado pelo Supremo Mal para, atrevendo-se a ser meu oponente, abrir a boca e argumentar que "proibir a feitura de imagens significava pôr
em perigo o próprio mistério da encarnação e subverter o dogma cristão".

Eu no entanto mostrava a tais víboras que de acordo com a Disdascália Siríaca, as Constituições Egípcias e outros textos santos, as imagens, sendo sem voz e sem respiração, representavam só a natureza humana, sendo a natureza divina indescritível. E assim separavam a unidade de sua Pessoa. Terminava verberando meus oponentes como mensageiros do demônio e inimigos do Verbo, assim como a todos os seus apoiadores. Então me retirava para alguma casa onde estava hospedado.

Então, enquanto eu recitava por 490 vezes o nome divino do senhor, sendo este número de setenta vezes sete, que é o número de vezes que temos de perdoar os inimigos, na oração não ouvia os gritos, lamentos e torturas que se seguiam. Eu sabia que era o povo da cidade, movido por minhas palavras,que perseguia, torturava e mutilava aqueles que acreditavam em imagens, arrancava as mãos dos escultores, cegava com ferro quente os olhos dos pintores e depois apresentava seus pedaços ensangüentados a mim, o homem santo. Eu então abençoava os restos daqueles pecadores e seguia em frente. Falam que das aldeias da Bitínia e da Capadócia mais de um terço da população foi morta nas perseguições que instaurei, mas não me importo com proporções, o que me importa é que a vontade de Deus era feita. E nas regiões que percorria não restava uma só imagem, pintura ou estátua.

Fui recebido em Roma pelo Bispo, reconheci nele um homem sábio e astuto que me recebeu com sorrisos e algum temor, sabendo de todos os massacres que não eu, mas o Verbo Divino através de minha boca tinha dirigido contra os enliçadores do mal. O próprio Imperador parece que ficou feliz com minha visita. Alguns tiveram a coragem de me dizer que essas perseguições que eu açulava estavam sendo usadas por senadores e pelo próprio Imperador para ajustar contas com inimigos. Eu não me importava os usos humanos do meu trabalho, só os usos divinos. E àqueles que tiveram o despudor de me dizer tais coisas também mandei degolá-los, não sem antes serem torturados derramando-se chumbo quente nos seus braços e pernas enquanto eu orava se me importar com seus gritos, pedindo perdão pelos seus pecados.

No ano de 6351 desde a criação do Mundo o Imperador reconheceu a força da chamada seita cristã e convocou um concílio para estabelecer a nova doutrina. Eu sabia que ele tinha planos de construir abadias e catedrais e capelas e ermidas em todo o Império, e pior ainda, tinha vontade de decorá-las com imagens e pinturas, e nisso era obviamente apoiado por pagãos empreiteiros, riquíssimos, senadores, que planejavam ganhar fortunas com tais ímpias construções.

No concílio, que se reuniu na cidade de Éfeso, eu me levantei e inspirado pelo Verbo Divino declarei que no credo dos cristãos deveria ser colocada a frase "Duas Vezes Invisível", como um dos atributos da divindade. "Creio em Deus-Pai Todo Poderoso, Duas Vezes Invisível, Criador..." E argumentei que, se na tradição mosaica, Deus era invisível, dentro da plenitude da revelação do cristianismo, então ele era duplamente invisível.

Aquilo foi suficiente para unir meus inimigos. Os senadores empreiteiros, os parentes daqueles que haviam perecido pela espada de meus seguidores, os padres relaxados, os arquiprestes relapsos, os falsos teólogos, os adoradores de imagens em geral consideraram minha doutrina herética e pérfida, inimiga da fé, e a mim como um enliçador do mal e espalhador de falsas doutrinas.

E agora estou preso nos calabouços do Imperador esperando ser degolado e ser feito em dois, assim como a natureza do Salvador é duas, humana e divina. Daqui ouço crianças brincando e casais alegremente indo para os esponsais seguidos de seus parentes em festa. Coisas que nunca tive. Como disse, a doçura só para os outros. Para mim, o rigor do ferro e da doutrina.