Resenha de livro: Norwegian Wood, de Haruki Murakami

 

Paulo Avelino
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MURAKAMI, Haruki. Norwegian Wood. New York: Vintage Books, 2000. 296p. Trad. Jay Rubin.

Murakami é um dos autores mais lidos no Japão atual. Este livro é de 1987 e é um daqueles que todo-mundo-leu, tendo vendido quatro milhões de exemplares. E é na verdade um livro de muitas virtudes e alguns defeitos.

A primeira virtude é ser um livro, digamos assim, intimista, e não cair numa coisa muito comum no Brasil, uma certa melosidade confessional que faz com que os textos fiquem todos parecidos com a transcrição de uma ida ao psicólogo. O livro tem um enredo e o leitor o sente logo como uma obra de arte, não como uma confissão. Outra virtude, que decorre da primeira, é que o autor tem o que dizer, ao contrário de certo intimismo onde nada acontece – só o leitor se aborrece.

Uma terceira virtude não menos importante é que sendo um livro japonês não tem nada de exotismo, nada que nos faça pensar “isso só poderia acontecer com japonês”. Os conflitos dos personagens são universais e as poucas menções ao que é especificamente japonês se resumem a nomes de comidas (tempura, sushi, saquê).

Watanabe é um jovem de dezenove anos vindo do interior estudar em Tóquio em 1969, e vai morar numa república de rapazes. O título do livro alude a uma música dos Beatles, sucesso na época. Na sua cidade natal ele tinha dois grandes amigos, Kizuki e a namorada deste, Naoko. Kizuki se suicidara. E Naoko continua sua amizade com Watanabe. Eles passeiam juntos, a intimidade entre eles cresce e um dia fazem amor. E Naoko some. Então surge na vida dele uma mocinha chamada Midori Kobayashi, uma espécie de Natacha Rostov pós-moderna que não tem muitos problemas de dizer o que pensa, principalmente no tocante a sexo. A jovem condessinha de Tolstoi diz coisas como “nunca vou me casar, serei uma dançarina!” fazendo piruetas na sala de jantar. E todos riem. Um amor de menina. Já Midori pergunta para Watanabe se os rapazes pensam em alguma garota específica quando se masturbam, ele fica perturbado, ela diz, escute, não sou ninfo nem coisa parecida, só tive uma irmã, estive no colégio de moças, quero aprender sobre rapazes, ok? E ele a pedidos promete se masturbar pensando nela na próxima vez. Ela quer saber como é... De certa forma, também um amor de menina.

Midori é uma espécie de namoradinha dos sonhos de todo adolescente-um-tanto-lido-e-com–problemas-com-a-família: ela é engraçada, sexy, usa roupas sugestivas, está sempre para cima apesar de uma história de família difícil. A mulher ideal quando se tem dezessete anos. E isso leva à maior fraqueza do livro, da qual falaremos mais adiante.

Forma-se então o triângulo amoroso, que se complica quando se revela que Naoko teve problemas mentais e está num lugar, não exatamente um sanatório, mas um lugar de convalescença. O livro todo é a história desse triângulo, com final surpreendente.

Não vou generalizar e dizer que todo romance é assim. Mas o grande romance russo emgeral segue o seguinte esquema, os personagens tem uma evolução “antes da queda-queda-regeneração”. Antes da queda, é a inocência, os defeitos e qualidades estão latentes. O personagem cai, levado pela luxúria ou pelo orgulho. Chega ao fundo do poço. E depois se recupera, retomando algumas das suas antigas qualidades e compreendendo seus defeitos, agora num plano superior. É o que acontece com Rashkolnikov em Crime e Castigo de Dostoievski, e que o orgulhoso protagonista mata uma pessoa , cai num inferno pessoal e depois se recupera como pessoa. Ou como a própria Natacha, que trai seu noivo, um homem que a amava verdadeiramente, e depois de muito sofrimento emerge como uma mulher completa.

Midori é uma personagem antes da queda. Ela é pura inocência, uma inocência que tem mais a ver com inconsciência que com castidade. O leitor fica na expectativa de quando o relacionamento dela com Watanabe vai mudar – vão ficar eles só naquela sexy amizadezinha adolescente? Ou ela vai querer algo mais estável? Quando o fizer, ela mudará. Esse mudar é sempre sofrido – a queda. Com Natacha, essa passagem de menina para mulher se deu quando da traição ao seu noivo, como já vimos. Quando a Midori, ela não cai. Chega a dar sinais de estar mudando, mas não avança muito nisso. Não passando totalmente por seu inferno particular, ela não se recupera. E portanto não se torna uma personagem inesquecível. Ela ficará sendo sempre a namoradinha-adolescente-ideal.

Essa passagem de crisálida para borboleta em personagens femininas adolescentes é uma das mais difíceis da literatura, e por isso carrega em si as possibilidade mais fascinantes. De novo Tolstoi: alguém diz dos Rostov que eles são um bando de alegres animais, especialmente a menina, Natacha. Dentro de uns dois anos ela começará a mudar, o que a tornará mais fascinante, mas menos Rostov. Ou seja, perderá a inocência., Em Natacha esse processo de perda foi bem acompanhado. Em Midori foi um tanto abortado. Mas não suficiente para deixar de ser um excelente livro, e que seria bom ser traduzido para o português para mostrar que é possível um livro de amor e intimismo que seja interessante de ler.