Crônica sobre Mauá


Paulo Avelino
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Assim como Proust eu vinha desde algum tempo decalcando meu estado de alma sobre o da véspera, mais ou menos como as pessoas dizem “o tempo voa!” com surpresa e alguma melancolia. As viagens só aumentam essa melancolia, ou melhor, as viagens têm efeitos contraditórios sobre ela, umas a aumentam, outras a diminuem. Estava de férias em maio e a primeira parte das férias, longe de me curarem, agravaram ainda mais “esse sedentarismo que imobiliza os dias”, como diz o escritor. Resolvi ir para outro local.

O povoado de Proust era Balbec - Normandia, beira do mar e igreja medieval. O meu povoado, o meu lugar curador foi outro, nos trópicos, numa serra, com local de árvores tão diferentes das que ele conhecia que o Escritor pensaria ter acordado num mundo ao avesso. Fui a um pequeno lugar chamado Maromba.

Minha primeira impressão de Mauá não foi boa. No percurso do ônibus entre Maringá e Maromba uma placa na beira do rio urrava “propriedade-particular-não ultrapasse-não acampe-não olhe-não pense-não respire-de preferência morra!” e contrastava furiosamente com as flores ao lado, que não cobram pela cor. No dia seguinte seguindo pela estrada em direção ao Escorrega as sucessivas pousadas na margem do rio, com grades impedindo o acesso de quem não pagasse pela natureza me pareciam a reprodução do sempre: suje e cobre pelo limpo, suje de novo e cobre pelo limpo cada vez menor. E o mundo me pareceu mau, ou mais ainda tolo, como se fôssemos criancinhas bobinhas olhando fascinadas para o menino maior que nos tira o sorvete, sem a idéia sequer de chorar.

Mas aos poucos se fez sentir os sinais de uma racionalidade, de uma racionalidade mais clara. Você anda e anda por uma trilha lá no meio do mato, e ali ao lado da cachoeira, dos véus de água, surge um cesto de lixo. Um pequeno sinal de racionalidade. Aquele cesto de lixo é um verdadeiro símbolo de algo de bom do mundo, mais que certos símbolos grandiloqüentes que se vêem por aí. Aquele cesto, com sacos plásticos e latas DENTRO e não fora dele, sintetiza que alguém cuida dali, alguém pensa aquilo ali, alguém se preocupa com, gosta de e por que não dizer alguém ama aquela pequena cachoeira. Um cesto de lixo é uma pequena declaração de amor.

Há outras. As principais cachoeiras são mantidas públicas (o escorrega, o poção, o véu de noiva) sabe-se lá a que custo nesse tempo em que até sentidos e olhares estão em processo de privatização com ações colocadas em bolsa e merchandising multinível visando a uma maximização do retorno. E a conservação das matas ciliares é algo de comovente – cada pequena árvore daquelas, cada arbusto que a gente não olha duas vezes é o resultado de uma luta que nem Homero poderia pensar igual. Quem luta pelo homem-e-natureza não precisa ler a Odisséia – já faz parte de uma. No Escorrega não há nenhuma inscrição estúpida, no Poção não há lixo, ou melhor há – encontrei uma liga de prender cabelo – verde, confundida nos ramos de uma planta. Coloquei-a no cesto, completando a luta de quem – alguém – fez quase tudo. Em Maringá a difícil luta pelo público – as cercas das casas respeitosamente a alguns metros do leito do rio, fazendo com que o que é público permaneça. Em Mauá uma fonte d’água logo na entrada – privilégio que todos os arranha-céus do mundo não valem.

É um erro dizer que são “belezas da natureza”. Não são. São coisas do homem. Coisa da natureza é a calota de sujeira nos fins de tarde em São Paulo - o céu transformado em lixão. É um fenômeno natural – o acúmulo de gases de escapamentos e chaminés gera certas reações químicas e cria aquela cor e as asmas, pneumonias e mal-humor que vêm de reboque. As coisas de Mauá são obras do homem, de homens e mulheres – cada lugar limpo é uma lata que foi recolhida, cada pedra sem inscrição é resultado de vigilância e campanha, cada cachoeira demandou reuniões, panfletos, grupos de conscientização, paciência infinita junto a autoridades que a única lei que levam a sério é a lei da inércia. Em cada uma das coisas de Mauá vejo o suor, as lágrimas e o tempo de vida de pessoas. Mauá não é criação da natureza e sim do ser humano. E sua criação é um processo, algo que acontece todos os dias, um eterno agora.

E só depois que voltei é que entendi por que fui a Mauá – não para ver as “dádivas da natureza” – não são dádivas – nem para “esquecer de tudo” – Mauá é lugar de lembrar. Lembrar que  o estado do mundo – assim como o da alma - não precisa ser decalcado sempre do que foi ontem.