Uma desconhecida história

Resenha de livro: A Companhia Matte Larangeira..., de Odaléa Bianchini

Paulo Avelino
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BIANCHINI, Odaléa da Conceição Deniz. A Companhia Matte Larangeira e a ocupação da terra do sul de Mato Grosso (1880-1940). Campo Grande: Ed. UFMS, 2000. 264p.

O escritor Fernando Morais diz que o Brasil é terra de muitas histórias, só falta ter quem conte. E está certo. O fato de ser um país econômica e culturalmente esmagado, a pobreza do povo, os baixos salários dos professores que fazem com que a escolaridade seja um grande faz de conta, tudo contribui para que as histórias morram com aqueles que as conhecem. Sem falar que estamos criando uma geração de ficcionistas apertada em apartamentos pequenos e apavorada pela violência urbana, e que se refugia desesperadamente em si escrevendo sobre o próprio umbigo. Uma geração de desatentos ao que se passa em volta. Por isso eu gosto de ir a bienais do livro, nelas posso encontrar livros de pequenas editoras que geralmente não têm vez no esquemão editorial. Nessas pequenas editoras muitas vezes a gente acha as histórias esquecidas.

É o caso deste livro da professora Odaléa Bianchini, oriundo de uma tese de doutorado. Teses e dissertações raramente dão livros agradáveis de ler, pois são um exercício de conformação à autoridade: um documento que deve ser apresentado a alguém que tem o poder de aceitá-lo ou rejeitá-lo. Mas o assunto deste é tão interessante que supera tais limitações.

Thomaz Larangeira era um desconhecido mas tinha por assim dizer o talento de sempre estar no lugar certo na hora certa. Sua primeira oportunidade veio com uma guerra. Foi para o Paraguai quando a grande guerra começava e faturou com ela, pois conseguiu se colocar no lucrativo lugar de aprovisionador das tropas brasileiras. Mas fez mais que dinheiro, fez amizades com as pessoas certas. Com o fim da guerra, com o Paraguai com sua população masculina quase exterminada, ele se estabeleceu como comerciante no país, em Concepción. Um amigo se lembrou dele, o coronel de engenharia Rufino Enéas Galvão, que fora nomeado chefe da Comissão mista de limites Brasil-Paraguai, para demarcar as novas fronteiras. O Coronel Galvão colocou o velho amigo como o fornecedor de víveres para a  Comissão. A razão da Comissão era que com a vitória na guerra, Brasil e Argentina tomaram territórios do Paraguai. O Brasil particularmente anexou do vizinho 156.000 km, mais do que o estado do Ceará, que passaram a fazer parte do estado de Mato Grosso.  Mas havia alguns complicadores.

O primeiro era o potencial econômico das terras conquistadas. Naquela época se expandia na América Latina e no mundo o mercado para uma bebida, o mate. Antes da guerra o Paraguai dominava o mercado latino-americano. E as terras que perdeu para o Brasil eram cheias de extensos ervais. Thomaz Larangeira já conhecia ervais, do tempo que comerciara em Santa Catarina. E percebeu a potencialidade de fazer dinheiro do negócio. Havia também um problema político. Boa parte dessas terras estava sob a posse de Madame Lynch, a amante do falecido El Supremo Solano López. Ela estava tentando transferir a propriedade das terras ao seu filho Enrique Venâncio Lopez, em questão que tramitava lentamente na justiça brasileira. Havia o perigo do filho do odiado inimigo ser o proprietário de terras extensas logo na fronteira do país.

Enquanto isso Thomaz Larangeira enriquecia. Em 1874 funda uma fazenda de gado no Mato Grosso e poucos anos depois entra no negócio do mate, ainda no Paraguai, pensando em expandir para o Brasil logo que conseguisse terra. O acaso o ajudou: seu amigo Coronel Enéas Galvão se torna Barão de Maracaju, e logo depois Presidente da província de Mato Grosso. Foi a sorte: em dezembro de 1882 o Governo Imperial concede “ao cidadão Thomaz Larangeira o direito de explorar os ervais situados no cone sul de Mato Grosso”. Ou seja, as terras devolutas, em grande parte tomadas do Paraguai e pertencentes ao Governo Imperial foram arrendadas a ele. Quanto à extensão, eram quatro e meio milhões de hectares, ou cerca de dois Sergipes. Assim a terra seria povoada e ficaria nas mãos de brasileiros. E por esse serviço patriótico, Larangeira tornou-se um multimilionário e o virtual dono do Mato Grosso.

Ele parecia ter o condão de sempre conhecer as pessoas certas. Tornou-se amigo pessoal de Joaquim Murtinho, médico particular do Presidente da República Deodoro da Fonseca, e de Antônio Maria Coelho, primeiro Presidente do estado de Mato Grosso. Sua influência passou do Império para a República. Mas havia percalços. Um deles eram os concorrentes. Ernesto de Castro Moreira conseguira também uma concessão do Império para explorar mate. Mas este cometera um erro, vendera sua concessão a uma empresa de Buenos Aires, o que era proibido pelos decretos de concessão. Com base nisso sua concessão foi cancelada. Menos um.

Além dos concorrentes o próprio negócio do mate era oscilante, e Thomaz Larangeira se viu na necessidade de ter sócios que injetassem dinheiro. Com o encilhamento, em 1890 o cidadão Francisco Moreira da Fonseca recebera autorização do Ministro Ruy Barbosa para fundar o Banco Rio e Mato Grosso. Larangeira propõe sociedade aos donos do Banco, eles aceitam mas exigem a transferência da concessão. Acontece que o decreto de concessão proibia transferências. Para driblar a exigência ele organiza uma nova companhia, tendo como sócios o Banco, o próprio Thomaz Larangeira, Joaquim Murtinho (o médico do presidente e também sócio do banco), Francisco Murtinho (seu irmão), além de alguns empregados da companhia com parcelas irrisórias. A companhia tomava o nome pelo qual seria conhecida, Companhia Matte Larangeira.

Capitalizada e quase sem concorrentes a empresa se expandia. Além da enorme quantidade de terras possuía prédios, oficinas, carpintarias, serrarias e uma ferrovia de 68 km de extensão. O lugar de embarque dos fardos de mate foi orgulhosamente chamado de Porto Murtinho em homenagem ao sócio, que agora era mais importante ainda pois se tornara o Ministro da Fazenda do novo governo Campos Salles. Mas logo esse porto se tornou insuficiente e a direção procurou um lugar maior, mais ao sul, às margens do rio Paraná. Só que não exista nada por lá. A empresa não tomou conhecimento dessa dificuldade: se não havia nada, eles construiriam tudo. E surgiu a cidade de Guaíra, no Paraná.

Tudo ia bem até que o superintendente do Banco Rio e Mato Grosso por alguma razão brigou com seus ex-patrões. Corrêa da Costa era homem de confiança e confidente de Joaquim Murtinho. A idéia de chamar o lugar de embarque de porto Murtinho fora dele, Corrêa da Costa. Era homem que sabia de tudo da empresa. E ele por alguma razão rompe com seus amigos e patrões, funda um jornal, A Reação, e move uma furiosa campanha. Denuncia tudo, a negociata da transferência ilegal da concessão, informa a situação real do banco, dá a público a lista de sócios, faz um escândalo. Acossado, Thomaz Larangeira corre atrás de novos sócios. Vai para Buenos Aires.

Enquanto isso longe do dinheiro e dessas lutas de poder estavam aqueles que faziam realmente a indústria ervateira, os operários do mate. Eram eles que eram pegos para trabalhar nos “conchavos”, que nada mais era que pegar camponeses atolados em dívidas de bebida e levá-los para trabalhar mediante um contrato pelo qual só podiam sair depois de saldada a dívida. Desnecessário dizer que pouquíssimos saíam. Roubados no peso do mate que colhiam, vendo suas dívidas crescerem nas farras de botequim, pagando preços altíssimos nos armazéns da companhia, se escapavam eram pegos pela temível polícia da companhia, os “comitiveros”. Quanto ao trabalho em si, alguns trabalhadores tinham de fazer a defumação do mate no chamado barbaquá, que tinha ser mantido aceso. Disso dependia a qualidade do mate, para que não queimasse. A erva tinha ser mantida em fogo lento 48 horas a fio, sem descanso. Depois descansavam 24 horas e enfrentavam outras 48 sem dormir. Viviam cozidos pelo fogo. Sentiam frio nas costas. Como deles dependia a qualidade do mate, eram importantes, sendo chamado de “senhor” nos bailes. Em compensação morriam dos pulmões em menos de dez anos. Nenhum chegava à velhice.

O livro de Odaléa Bianchini tem bem mais que isso. Mas o que resumimos já é suficiente para se ver que história emocionante ela nos conta. E que histórias emocionantes esse país tem. Como dizia o escritor no começo, só falta quem as conte.