Sobre literatura e história

Paulo Avelino
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LLOSA, Mario Vargas. A festa do Bode. São Paulo: Mandarim, 2000. 450p

Hoje há uma grande efusão da história dita romanceada. No Brasil autores como Fernando Morais e Eduardo Bueno fazem sucesso com essa onda, e no exterior gente como Eduardo Galeano e os biógrafos de celebridades de maneira geral. Muitos leitores procuram nesses livros coisas como distração, diversão, uma boa história para entreter os amigos, etc.

O curioso é que essas coisas seriam características da literatura, da ficção. Aristóteles dizia que a poética é superior à história, pois a poética fala do que poderia ter sido, e a história do que foi. E assim a poética seria universal e história particular. E no entanto o que se v6e é a história, com todas as enormes limitações inerentes a si, tomando o lugar de fantasia e entretenimento que por direito sempre coube à ficção.

Penso nisso ao ler mais um romance de Mario Vargas Llosa. A festa do Bode trata da ditadura de Trujillo na República Dominicana, de 1930 a 1961, com ênfase no seu final. Para isso conta com dois fios narrativos paralelos: um é a volta de Urania à República Dominicana, décadas depois da queda do regime, para se reencontrar com seu passado. Ela é filha de um ex-senador dominicano e antigo bajulador do ditador Trujillo, e mora nos estados unidos desde os quatorze anos e é uma advogada solteira, charmosa bem sucedida de Nova Iorque. Ao conversar com o pai senil e com as parentas, ela narra as desgraças o regime. O outro é as lembranças dos homens esperando Trujillo numa estrada, para matá-lo. Depois do atentado, esse último fio desaparece e é substituído por uma narrativa mais convencional dos acontecimentos.

Vargas Llosa é ótimo em tramas políticas. O ponto alto do romance são os monólogos do ditador Trujillo, que formam uma linha secundária de narração. Do mesmo modo que em “A Guerra do Fim do Mundo”, romance do autor de 1983 em que algumas das melhores partes são os monólogos internos do General Arthur Oscar e do Coronel Moreira César.

A grande fraqueza do romance é o fato de ser quase um daqueles livros de história romanceada, e aí a lembrança de Aristóteles é importante. Ao escrever sobre história, mesmo com os recursos da ficção, e mesmo sendo um trabalho de ficção, o escritor está sempre amarrado pelo que aconteceu. O escritor não pode criara um episódio rocambolesco para dar mais interesse, não podia colocar Trujillo ressurgindo como ditador de outro país, por exemplo. A realidade é um limitador. Outro fator em que a realidade limita neste caso é que a história é em poucas palavras, triste e feia. Tipo da historinha que infelizmente conhecemos bem: torturadores impunes, corruptos que mudam de uma hora para outra e se saem como paladinos da democracia, gente idealista assassinada e difamada, um povo tolo que apóia os que os oprimem.

Às vezes penso como foi possível que os escritores deixarem a fantasia e o entretenimento, áreas que por direito nos pertencem, nas mãos dos historiadores e obrigando parte dos escritores de ficção a os imitarem. Creio que isso acontece em grande parte por uma má compreensão das novidades da literatura moderna, uma má compreensão dos Joyces e quejandos, que levou muitos à conclusão que literatura consiste fundamentalmente em chatear o leitor.

Mas dentro das grande limitações que a história impõe, Llosa se sai bem. Seu romance entretêm, o que já o coloca muito acima da grande maioria da produção de prosa de ficção hoje.