Conto - uma tentativa de aprender Joyce

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br
http://www.roadnet.com.br/pessoais/avelino
ICQ# 53760772


Caros leitores, (30/03/2001)

Esta é uma tentativa de escrever utilizando algumas técnicas do Finnegans Wake, de Joyce. Utilizei a edição bilíngüe de Donaldo Schuler, publicada pela Ateliê Editorial. Estudei e tentei identificar as técnicas utilizadas. São muitas, entre elas a troca de letras, os arcaísmos, a troca de radicais, a utilização de palavras e
radicais de outras línguas e muitas outras, das quais não tenho a mínima pretensão de ter identificado todas. Descobri que para esse tipo de leitura, as notas de leitura são essencialíssimas. Portanto eu mesmo escrevi notas de leitura para cada parágrafo, e estão abaixo. Eu detesto explicações como essa e coisas como notas de leitura. Mas descobri que a chamada literatura moderna não pode viver sem isso. É uma literatura de muletas, não pode viver sem auxílio externo. Enfim, escrevi para aprender. Não sei se devo desejar que você se divirta, pois desconfio que esse tipo de literatura não objetiva divertir ninguém, muito menos o leitor. Enfim...

Obs: O projeto todo engloba cinco parágrafos, que farei aos poucos.

Caros leitores, (06/04/2001)

Esta é a continuação do trecho que estou fazendo tentando usar técnicas do Finnegans Wake de Joyce. Não sei se estou aprendendo as técnicas em si, mas uma coisa aprendi, não é muito fácil escrever assim! Para começar, é preciso conteúdo. Não se pode sair só por aí duplicando letras e juntando palavras. Isso cansa logo, e é preciso ter o que dizer, ter uma história, por mais diluída que seja sua narrativa. Joyce tinha, e no meu exercício procuro ter o que dizer. Quando terminar darei as fontes.

Neste terceiro parágrafo, que fiz hoje, utilizei quatro técnicas. Faz parte de sete técnicas que identifiquei em apenas quatro linhas do Finnegans Wake, as linhas [8.9 a 8.12] do edição do Donaldo Schuler. E depois ainda notei uma oitava que me tinha escapado.



 

De sua boca parecia voejavam aquoterramente terríveis tetrâmeros futuramente poluidores mas não ainda, riorelâmpagos que estremeceram o planalto borboremense toda a Terra, Butão, Índia, Gerais e Juatama, e sobre tudo se ouviu o ouieouaiojoinnpoooeuennoenntomimwrgdbaheirtqzx que rapidamente se partiu em turfos cada veza mais longes um do outro, terramarterra cada vez mais mar longe terra, mar, cainobaelmente traindo um ao outro, a um negava a água a outro negava o sustento das plantasecas. Sobre o peito gibacouro do planalto dos Inhamuns, sobre a cabeça a coroa safadística da casa real da Torre, para a qual missas ímpias e iníquas havia sido pedidas. Arrêi, Arrôo Trampado Triste Tritão da Torre! Morreste só, com mil homens de preto interesseiros a te cercar e abajular. São sóis salgados as sinas dos solenes poderosos! E qual Vieirarennovado, João, a Última Verba dos Cavaleiros de Tomar, os mongoliadvindos. a Grande Cruz de um lado, a espada na boca, a palavra flamejante, dos cinco continentes o novo Profeta, os olhos vermelhos de verem inferno muito mais que Dantesco, o inferno-invernoseco do sertão, pregando contra o pecado e iniqüidade, foi finalmente chamado para restaurar a bondade o reinonazarenoense nas quebradas de um sertão que não era quebrado. Uebrwpqlk.

E as terrae oouuuhhuhuhmiidas, cortadas em cacos e travos caquéticos sem-seminais, travam-se em abismocolossias petreopedregosos deles se separando, manadacarus, folhas, cacatioscacatos a vista perder, e como se sibilando em ventos arenosíssimos como a palavra de João, nos penúltimo dia, mês, ano e século, arremessa-se contra a cobiça, o último dos males e o primeiro dos pecados, e monstros d'olhos de ouro e línguas de cobra cercavam-no em todo o lugar para engoli-lo. No balcão, a novaeva, a ultrajadíssma, putaíssima e formodissíma Eudócia, a mulher do arquicanalha e arqueitraído e arquicornudo Arcádio, Bei e Bedel da cidade, dominado e imbrecolizado. Ao seu lado, o amante, sem nome e que lhe importa o nome. Ao seu lado, Padre Teófilo, Estchariam ouuvinndo praara toddo o siempre, quando a voz se alevanta a voz, "E de todos os exemplos o exemplo, a cobiça, Eudocia, a mulher mais bela, a mais elevada" – e ele levanta a voz de caverna "a mulher do Alcaide, vil, déspota e baderneira!" Escândalo. Palavras carregam pecados que palados pecavras. Euidocia e a umidade se separam do bem e da sequidão para sempre, pontoferrando guerras desalminharadas sobre o povo indefesofebril.

“Jezebel” – bbradou a bboca aurora de João. E os tudomultuosos, lendaurogotejantes, criaram na fenda arquiprazeirosa immortalis um raça negra, que prazeirometia a criação de um nuovo moondo. Ccinco ccacos ccalvados ccavam ccalos! Dragodesonestos de treze cabeças foram cortados, multidões lambistadas de invectivas, os ricos foram abbatidos, como no evangelho, e os pobres forram à Cidade Santa. Ddiziam que comia com Deus. “Com o diabo”- dizia Teófilo. Africafloravam revoltas, e os rricos tremetemeram. “Chamou-me imunda”- disse a moderna Putifar aos pés do tríplice corno copia. “Perdadeiradida” – e seus olhos se transformaram em 47 mandínbulas ppendentes de baba e nojo, ao lado da Grande árvore, de onde saíam minutiae palavras de palavras de desengano e alusarão. “Deccaída” – e o Arcacorno levantou-se e voz trêmula, decretou a destruição do quilombola. Não conseguiram pegá-lo de fforma, virtudias demais, desobediência alegaram. “V-a-a-se” – d-d-d-isse o ar-q-q-q-uicorno. E João foi exilado e o quilombo foi destruído, aprofundalhando a fenda entre o seco o úmido.
 


Notas aos parágrafos:

(1) O conto todo é uma história épica, a história do Nordeste brasileiro, vista como uma sucessão de separações, cada vez mais graves e violentas, entre elementos que embora muito próximos se separam e nunca se encontram. E no centro dessas separações está o protagonista, João, padre e pregador itinerante que fez sucesso com uma série de sete sermões contra cada um dos pecados capitais até desaparecer em circunstâncias misteriosas, no ano de 1899, vindo do Planalto da Borborema da Paraíba para o sertão dos Inhamuns, chamado pelo Prefeito da Vila Real e Fidelíssima Cidade de Tauá do Barreiro dos Brancos para combater a maldade, a avareza, a corrupção e a vilania que campeavam por aquela cidade.
"De sua boca" – João era tão eloqüente em suas pregações que o povo a ele deu o nome de "Boca de Ouro". "Tetrâmeros poluidores" – alusão à poluição que assolaria os rios do Nordeste. "Riorelâmpagos" – o primeiro parágrafo se refere à Primeira Grande Separação. Esta separação foi entre os dois elementos fundamentais, a água e a terra, que separados em todo o mundo pelo Deus dos judeus, foi no entanto feita uma separação grande demais, excessiva, no Nordeste. As menções de países e regiões simbolizam que o estrondo da separação foi ouvido em todo o Universo. "ouieouaiojoinnpoooeuennoenntomimwrgdbaheirtqzx" – palavra básica de todo o conto. Representam o estrondo que houve durante a separação entre a terra e a água. A água é representada pelas vogais, a terra pelas consoantes. No começo era só a água, como no Gênesis, onde o espírito de Deus pairava sobre as águas. As águas também eram um grande lamento, o lamento do Ser, "ouieouaio...", alongado como um aboio do sertão, que também representa o lamento de todos os seres. A palavra se transforma e evolui em si mesma, no começo era só água, depois a terra se imiscui aos poucos, depois fica só terra, sem água, e os dois elementos, nascidos próximos, ficam cada vez mais distantes um do outro, causando morte ("plantasecas"). A terra e o mar agem como irmãos se afastando e traindo, daí a referência a Caim e Abel.

"Sobre o peito gibacouro..." Começa a descrição de João, o herói e o protagonista dessa história, o homem que não irá conciliar todas as coisas não fazendo a paz entre as duas, tal como os profetas da Europa e da Ásia, mas o que irá conciliá-las através de si mesmo, de sua palavra e seu sofrimento. Usava um gibão de couro, à maneira de armadura. Usava (de maneira metafórica, não real) o símbolo da Casa Real da Torre, a nobre Casa dos Garcia D'Ávila, a mais poderosa Ordem Real que jamais reinou sobre o Nordeste, mostrando que ele era descendente da nobre casa, e que tinha vindo para redimir os pecados dos Garcia D'Ávila e de seus descendentes os Pires de Carvalho e Albuquerque. "Missas ímpias e iníquas" – alusão às missas que Garcia D'Ávila mandou celebrar todos os dias, pela ordem dos Jesuítas, até o Fim do Mundo. "Homens de preto" – os jesuítas. "Trampado" – os jesuítas não cumpriram sua promessa e logo desistiram de rezar as missas.

"E qual..." João é o descendente de uma velha e nobre estirpe não só pelos Garcia D `Ávila, mas porque é o último dos pregadores-guerreiros da Ordem de Cristo, temível Ordem que levou a fé e o terror aos corações de metade do mundo conhecido, e de cuja Sé de Tomar tinham jurisdição sobre quase toda a Ásia, África e América, chegando até à Mongólia. Unindo a fé e a ira, João é a reencarnação ou o novo advento de Vieira, o Pregador que queria um grande Império Cristão unindo os cinco continentes e o mundo todo. "Inferno... dantesco" – possível alusão às torturas infligidas a Vieira nos cárceres da Santa Inquisição, e alusão aos sofrimentos do próprio João no cumprimento de seu destino. "reinonazarenoense" – alusão ao Reino de Deus, o Reino do Nazareno. "Uebrwpqlk" – o trovão era agora menor, indicando que os tempos das intervenções divinas estavam ficando mais fracas, e agora entramos no tempo dos homens, que fazem e dizem as coisas eles mesmos, representando a divindade agora retirante, o Tempo dos Profetas. O novo pequeno trovão tem poucas vogais e é quase todo de consoantes, alusão à secura que se seguiu à primeira grande separação.

(2) neste parágrafo se descrevem a Segunda Separação, a separação dessa vez entre as terras úmidas, próximas o litoral, e as terras secas. Como eixo unitivo, como o homem que veio das terras úmidas para as secas, está João, que começa sua pregação que o levaria ao encontro de seu destino. "Terrae" – o uso de palavra latina indica quanto é antiga a separação. "Oouuuh..." – "cortadas em cacos e travos caquéticos"- o uso de consoantes cortantes nos lembra fauna cortante e as pedras do sertão. "Sem-seminais" – alusão à esterilidade que acomete a terra durante as secas, causada pela própria segunda separação da qual fala o parágrafo. "Abismo..." Como grandes massas rochosas as duas terras se separam. Mandacarus e cactos em geral formam a nova paisagem da terra seca. "Penúltimo"  - João, o Boca de Ouro, proferiu seu primeiro sermão na cidade de Tauá no dia 29 de novembro de 1899. Esperava-se que o século seguinte fosse o último, assim o século XIX seria o penúltimo século. "Monstros d'olhos de ouro" – os ricos e poderosos da cidade. Maria Eudócia de Albuquerque Cavalcanti, sobrinha-neta do Ministro da Justiça, doutor Epitácio Pessoa, era a esposa do Prefeito. Belíssima, jovem gastadora, é contra ela que João se chocará. Seu marido, o prefeito Municipal, Arcádio, só tinha energia para fazer o que a mulher lhe mandava. Eudócia tinha vários amantes, daí a alusão, a amante "sem nome" – eram tantos que seus nomes não tinham importância. O Padre Teófilo era o antigo cura da cidade, um homem vil e cobiçoso, aliado de Eudócia. Eudócia rompe definitivamente com o caminho da virtude, assim como a umidade se separara da sequidão.

(3) Este terceiro parágrafo fala da terceira separação, que foi quando entre as terras úmidas e as terras secas se criou um “Cidade Santa”, de uma “raça negra”, o que significa o Quilombo dos Palmares, que se situava exatamente na fronteira entre as terras úmidas do litoral e o sertão seco. A destruição do quilombo separou ainda mais o mundo. Por uma transcendência da linguagem em relação ao tempo, João, o protagonista da história, também se coloca no centro da separação, e seu martírio e exílio são aqui narrados junto com a destruição do quilombo.

“Jezebel” – começo de um famoso discurso do pregador João, o Boca de Ouro, contra a maléfica Eudócia, personificadora dos pecados e tentações da mulher. “aurora” – alusão à sua eloqüência que gerou seu epíteto, e ao mesmo tempo que sua boca anunciava um novo tempo, uma autora para o sertão, que é o mundo todo. “Tudomultuosos” – as multidões ululantes de homens negros fugidos dos engenhos, que formaram o Quilombo. "Lendaurogotejantes” – muitas lendas se contaram sobre os negros, entre as quais a que mineravam muito ouro. “Arquiprazeirosa... prazeirometia” – ao contrário da raça branca, reprimida e moralista, a raça negra se entregava sem problemas aos prazeres da vida, no caso o prazer de meter. “Immortalis “ – o parazer sempre existiu. A permanência das coisas é indicada por palavras em latim, língua permanente. “Nuovo moondo” – alusão ao fidalgo Felipe Cavalcanti, italiano fugido para Pernambuco na época do quilombo. “Ccinco ccacos – alusão às cinco pontas da estrela de Davi, reforçada pela seqüência de cinco “cês” duplicados – dizem que Felipe Cavalcanti era cristão novo. “Dragodesonestos” – movido pelo zelo das coisas do céu, João depôs treze maus pregadores que estavam a ensinar a iniqüidade às gentes. “Multidões” – os sermões de João atacavam a ignomínia e o escândalo, com isso ofendendo a muitos. “Abbatidos” – os ricos foram derrubados pelo pai “Abba”, em aramaico, mostrando que para João não era ele, mas Deus que fazia aquelas coisas. “Forram” – os pobres, os negros quilambolas fugindo para Palmares. Note que eles foram tambem à forra, daí o rr duplicado. “Diziam...” – uma coisa que impressionava é que João nunca comia acompanhado, o que gerou uma série de lendas, a favor e contra ele, inclusive de seu inimigo o Padre da cidade, Teófilo. “Africafloravam...” – as revoltas dos negros, gerando o temor dos senhores. “Chamou-me...” – Eudócia pressiona seu fraco marido Arcádio contra João. “Corno copia” – palavra em latim, mostrando que a infidelidade é eterna. “47 mandíbulas” – um conselho de 47 padres, freis e homens corruptos e vis, reunido pela maldade de Eudócia e Arcádio, reunindo numa casa ao pé de um grande Juazeiro (“Grande Árvore”), decretou que João fosse expulso da cidade, no dia 17 de julho de 1899. “Quilombola” – João, oprimido dos tempos modernas, se confunde com Palmares, a casa dos oprimidos do século XVII. “Minutiae” – palavras miúdas de ódio e inveja dos membros da reunião. “Virtudias” – João tinha tantas virtudes que praticava diariamente que seus inimigos não conseguiram pretextos para expulsá-lo. Tiveram de expulsá-lo por desobediência, pois ele se recusara a ir à iníqua reunião. “V-a-a-se” – a hesitação do fraco Arcádio.