De Santos e Canalhas

Paulo Avelino
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Jorge era um homem vil, um canalha. Não desses canalhas pretensamente grandiosos, mas desses pequenininhos, que roubam no troco, se furtam a trabalhar e deduram os colegas. Talvez sua origem fosse a causa disso. Nasceu numa distante e atrasada província numa simples oficina de artesão. Ele soube sair dessa origem obscura pelos seus tristes talentos de parasita e bajulador e seu faro para sempre se aliar ao lado  vencedor. Às custas de muito servilismo e bajulação conseguiu protetores poderosos que lhe arranjaram um rendoso contrato de fornecimento de presunto para o exército. E ele fez de tudo, desde vender mercadoria deteriorada a subornar os fiscais e comprar os oficiais superiores com os produtos bons que ele não dava aos soldados, que sofriam com o ventre em chamas de seus presuntos podres.

Descoberto, conseguiu às custas de muito puxa-saquismo e astúcia manter a maior parte de sua fortuna. Mas teve de se mudar de sua cidade, indo para a grande metrópole de Alexandria. Ele chegou em momento de grande confusão. A cidade estava dividida entre dois partidos rivais. Poucos anos antes o pai do atual Imperador tinha permitido que o culto do Nazareno fosse realizado livremente, junto com o antigo culto pagão. Mas se o Nazareno pregava a paz, seus sucessores pareciam ter se esquecido disso e a cidade estavam furiosamente dividida entre os que achavam que Cristo era semelhante ao pai e os que achavam que ele era consubstancial ao pai. Os primeiros se chamavam arianos em homenagem ao fundador de sua facção, o falecido Presbítero Ário. Os segundos não tinham um nome específico, mas tinham uma chefia bem clara, o Patriarca da cidade, Atanásio, cuja família dominava a cidade com mão firme havia décadas.

O novo Imperador decidiu se livrar de Atanásio e pesar o prato da balança a favor dos arianos. Enviou para lá cinco mil homens sob o comando do infame Duque Siriano e este mergulhou a cidade numa orgia de destruição, assassinatos e estupros, apenas para descobrir que entre os cadáveres não estava o de Atanásio. Este fugira. O trono de Patriarca da cidade estava vago.

Não foi difícil a Jorge, com sua pusilânime maleabilidade, convencer o Duque a nomeá-lo novo Patriarca. Ele se cercou dos piores elementos e começou a sugar a cidade como nem o mais vil dos vermes ousaria fazer. Os comerciantes da cidade foram a falência por que Jorge monopolizou para si mesmo o comércio de nitrato, sal, papel e a realização de funerais. A cidade se encheu de informantes, sempre prontos  denunciar aos guardas do Imperador qualquer vestígio de crítica a Jorge ou aos canalhas que o cercavam. Dizendo-se descendente dos Césares, que por sua vez teriam herdado dos Ptolomeus, que por sua vez teriam herdado dos faráos, ele declarou que o Patriarca era dono de todos os imóveis da cidade e obrigou todos a lhe pagarem aluguel.

No começo os pagãos da cidade (ainda os havia) o saudaram como um cristão tolerante, mas logo sua cobiça se deixou atrair pelas peças de ouro e prata dos templos de Diana e Minerva, e declarou que não iria permitir que aqueles sepulcros (os templos pagãos) continuassem a existir, e lhes decretou pesados impostos. Como os iguais costumam se atrair, tinha como braços direitos dois homens tão desleais e vis como ele, o Conde Diodoro e Dracôntio, o chefe da casa da Moeda, o posto ideal para um corrupto, eméritos arrochadores de pobres e cobradores de impostos ilegais.

A raiva do povo aumentava e parecia que uma pequena fagulha faria a cidade explodir. E essa fagulha aconteceu quando chegou a notícia da morte do Imperador Constâncio. O povo se revoltou, invadiu o palácio do Patriarca e o acorrentou a ele e a seus asseclas, e foram arrastados pelo chão para a prisão pública.

Três semanas depois o povo ansioso pela demora da justiça invadiu a prisão e Jorge e seus comparsas forram findados da forma mais ignominiosa possível, aos socos e pontapés. Seus corpos foram arrastados pela cidade e jogados ao mar.

Essa foi a vida de Jorge. Mas mais interessante seria sua vida após a morte. Os anos passaram, e as pessoas nas caravanas, nas conversas ao pé do fogo e até mesmo nos sermões dos templos contavam a história de um homem que teria sido morto da maneira mais cruel. Com o tempo as histórias começaram a retratá-lo como um homem bom, sacrificado pelos inimigos do cristianismo. Ele teria sido morto pela fé. Séculos se passaram e não se sabe como ele ganhou a fama de ter sido um cavaleiro, coisa que nunca fora, e agora se faziam imagens dele como um jovem sempre vestido de armadura. Mais alguns séculos e ele passou a ser retratado como vivendo na Lua, matando com sua lança um dragão que seria trazido acorrentado por uma donzela. A essa altura países inteiros, sociedades de cavaleiros e pessoas em todo o mundo o consideravam seu padroeiro e protetor, aquele mesmo homem que fora arrastado pelas ruas por sua injustiça e sordidez.

E essa é a história de São Jorge!

[PS: esta historinha se baseia em Gibbon, “O Declínio e Queda do Império Romano”, Cap. XXIII].