Estariam as mulheres condenadas ao intimismo?

Paulo Avelino
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Ele era um jovem capitão do exército, razoavelmente bonito, pobre como todo oficial subalterno e já tinha visto muitas mortes na vida. Mortes inúteis numa guerra inútil, uma guerra para salvar os restos de um império colonial que todos sabiam não ser passível de salvação. Todos exceto um governo fascista decrépito. E ele, muito idealista, resolve fazer algo para mudar aquele estado de coisas com outros de seus colegas, todos oficiais jovens e desconhecidos como ele. Põem tanques na rua. O jovem capitão ocupa a praça principal, sabendo que a qualquer momento tropas leais ao governo poderiam vir e despedaçar-lhe a cabeça com um balaço. Passa o dia todo tenso, cercado de soldados. Ninguém sabe de nada, fofocas cruzam o dia todo, tiros se ouvem ao longe. No final do dia o governo cai. O jovem capitão é carregado como herói. Dezoito anos depois ele morre, ainda jovem e virtualmente desconhecido. Não ganhou absolutamente nada com a revolução que fez. Tinha jurado aos seus soldados que não aceitaria cargos no novo governo. Não estava fazendo aquilo para se beneficiar.

Era a Revolução dos Cravos em Portugal. O jovem capitão se chamava Salgueiro Maia.

Muitos anos depois esse episódio vira um filme, chamado "Capitães de Abril".

Como quase toda pessoa que gosta de livros tenho a tola impressão de que sou a única pessoa que estou lendo certo livro, que ele é uma descoberta minha. E um dia eu - tendo muito pouco tempo a ficar em Lisboa entrei numa livraria na Praça Dom Pedro IV (o nosso Dom Pedro I) e comprei entre outros o livro que os amigos do capitão editaram em sua homenagem incluindo memórias e depoimentos. E agora esse livro reapareceu transformado em filme. O "meu" livro que parecia que só eu conhecia. O livro se chama "Capitão de Abril".

Li outra coisa curiosa no jornal. A pessoa que dirigiu o filme disse que quando começou o projeto todos o achavam um bom tema, os produtores achavam interessante filmar aquele episódio... Até que ela aparecia na frente deles e eles viam que a pessoa que pretendia dirigir aquele filme era uma jovem mulher de pouco mais de trinta, e bonita, chamada Maria de Medeiros. É a diretora do filme.

Então eles ficavam reticentes, coçavam a cabeça, começavam a tergiversar... E alguns tinham a coragem de dizer diretamente: "Senhorita, como uma jovem mulher, por que não escolhe um tema mais intimista, mais feminino?"

Ou seja, aquele era um excelente tema, mas não para uma mulher.

Seguindo a sabedoria convencional, eu geralmente tendo a desconfiar de teorias conspiratórias. Mas às vezes acho que há uma conspiração em andamento. Conspiração que visa a manter as mulheres inteligentes do mundo em situação subalterna. E que até agora tem dado muito certo! Trazendo para o campo da literatura, há uma espécie de lei que infelizmente é bastante obedecida: mulher deve escrever sobre temas femininos. E tome contos e poemas sobre amor, filhos, família, idade, solidão, abandono, esperança, desilusão amorosa, certo erotismo leve... O chamado "universo da mulher".

Muitas vezes esses temas "femininos" vêm numa roupagem levemente inspirada nos monólogos internos de Leopold Bloom no miolo do Ulysses de Joyce, com frases curtas sem muita conexão ora separadas por pontos, em períodos curtíssimos, ora por vírgulas, em períodos longos. E tem-se aí a chamada "literatura feminina".

Estou cansado de ver mulheres inteligentes escrevendo sobre família e temas derivados, e igualmente cansado de ver mulheres NÃO escrevendo sobre teólogos da Idade Média, sobre reis astecas ou mesmo sobre capitães revolucionários.

Não creio que esse restringir-se a um universo tão pequeno, que se convencionou chamar de universo feminino, seja uma boa para a literatura, muito menos para as mulheres que tenham capacidade!

Quando se percorre a história das contribuições escritas para a humanidade, por exemplo lendo as lombadas de uma coletânea como a "Great Books of the Western World" a gente vê que metade da humanidade  até agora contribuiu muito pouco para esse progresso. Por quê? Capacidade inferior? Claro que não, e hoje em dia há um sentimento generalizado que não. Mas em seu lugar está surgindo uma respostazinha muito capciosa, que está conseguindo convencer: seria por causa da desvalorização de uma certa "lógica feminina", de uma certa "visão feminina". E tome moças e mulheres a escrever sobre filhos, infidelidade, solidão e envelhecimento buscando essa lógica, enquanto outros temas importantes ficam na mão de homens muitas vezes menos capazes, pelo simples fato de serem homens.

E não é nada disso. Se quase não havia escritoras até uns cem anos atrás era por razões concretas, necessidade de cuidar de uma casa, de filhos, pouca oportunidade de estudar, etc. etc. Razões concretas. Não por causa da desvalorização de uma "visão feminina".

Portanto, moças e mulheres de espírito, façam como Maria de Medeiros: filmem e escrevam sobre capitães e golpes de estado, sobre política e fascismo, guerras coloniais e coisas parecidas... Escrevam e filmem e representem e roteirizem sobre tudo. Não é preciso se restringir ao intimismo.