Carta ao Comitê de Defesa da Ilha Grande

                                                                  Paulo Avelino
avelino@roadnet.com.br
                                                                                       http://www.roadnet.com.br/pessoais/avelino
                                                                                                           ICQ# 53760772

Ilhas não são um paraíso (lugares que os turistas dizem, olhos arregalados: é-um-paraíso-tropicaaal!). Só parecem, assim como pessoas parecem ser perfeitas e depois se descobrem maçãs meio comidas na geladeira e toalhas molhadas no chão. Como as pessoas não são paraíso, ilhas não o são, por mais que nos encantem à primeira descida do barco (Robinson Crusoé antes de encontrar Sexta-feira). Mas como pessoas, ilhas não precisam ser paraíso.

Ilhas são um absurdo. Algo ilógico, que não tem razão de ser. Pedaços cercados de ondas e vento, frágeis a tudo, tempestades, ressacas e derramamentos de óleo. As ilhas são o que existe apesar de tudo. Ato gratuito como queria André Gide, e aí está o seu belo. Até os anjos desistem mas a ilha está ali. Como o ser humano. Como cada um de nós que contra si tem todos os fatores, mas continua lá, nem sempre firme, mas lá. As ilhas são metáforas em forma de pedra e folhas.

Por serem um absurdo as ilhas são também um paradoxo. Os homens e mulheres que se revoltam contra o absurdo, qualquer absurdo, sempre se refugiaram por lá (Gauguin se refugiando da arte caduca entre as ondas do Taiti, os negros do Haiti fazendo de sua meia Hispaniola um paraíso negro em meio ao oceano de sangue escravo).

Mas o absurdo também sempre procurou refúgio por lá. Loucos, revolucionários, presos, tudo o que o absurdo produziu legitimamente, logicamente, conscientemente, e que depois se horroriza sempre foi depositado (essa é a palavra) em ilhas, desde marginais até lixo.

Estava numa pousada quase na entrada da trilha para o Abraãozinho. Abri o janelão: uma fragata chegara durante a madrugada. E estava lá, ancorada à distância, quase sem balançar, ao abrigo da ilha. Eu passara a noite lendo a história e os livros me falaram de quem já esteve lá por causa do abrigo da Ilha, exatamente como aqueles ocupados e mal remunerados marujos. Piratas, escravos e presos. E também gente que viveu e foi feliz nessa ilha, nem que fosse por uma semana, como eu fui.

Por serem um absurdo, por serem invadidas pelo absurdo (agora em sua versão moderna de poluição e especulação) as ilhas também são um obstáculo contra o absurdo, e uma promessa de que o futuro pode sê-lo menos.

E eu fiquei feliz de saber que na Ilha Grande (não um paraíso. Uma ilha. Uma bela ilha) há um grupo de pessoas ( um belo grupo de pessoas) que luta contra o absurdo. Que quer que as leis (a vontade do povo) sejam cumpridas. Que sabe que a Ilha é patrimônio dos moradores, da região, dos seus visitantes e de todo o mundo. E principalmente é patrimônio de todos aqueles que ainda são apenas sonho, mas um dia estarão na ilha, olhando novos barcos que chegaram de madrugada, e que um dia contarão nossa história.

Parabéns a todos os que fazem o CODIG.

[Visite a Página do CODIG : http://www.geocities.com/codigbr/menu1.htm ]