Uma história de amor adolescente

Paulo Avelino
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Ela era vestida de luz, mais ou menos como Nossa Senhora, se me permitem a comparação algo blasfema. Uma luz tão intensa que o fazia baixar a vista quando ela se aproximava. Mesmo atos completamente banais dela (tipo responder à chamada ou beber água) eram vistos por ele como algo sublime. Era seu ídolo, sua paixão.

Os amores platônicos não têm nada de bonito. São frutos de uma vaidade tão monstruosa que não cabe numa pessoa só: tem-se que projetar toda a perfeição que se pensa que se é em alguma adolescentezinha colega de colégio.

Mas ele não sabia de nada disso e se soubesse não lhe importaria. A paixão fora instantânea: ele recém-chegado, ela aluna veterana. Nos primeiros dias, a aula foi  dispensada para passar um dia em Corrêas para "a turma se integrar melhor". Ele não foi, sua timidez não o deixou ir.

Dia seguinte, alguém se vira: era ela. Falou com ele. Pergunta banal: Como foi lá em Corrêas? Ele balbucia algo. Ela sorri. É como o sorriso de Beatriz a Dante no Paraíso: tão belo que ofusca, mal dá para olhar.

O lugar dele na classe é na mesma fileira dela, a exatas três pessoas de distância à direita dela. Ela, como toda favorita (ou vítima) de paixão platônica era jovem, bela, articulada, cheia de amigas. Ele tinha como companhia os livros (todas as paixões platônicas são iguais). Ele sofria com as notas dela (não muito boas, na verdade), prestava atenção nela durante as aulas, seguia-a discretamente a uma distância segura nos recreios, observava-a de longe nos seus grupinhos de amigas.

Ele descobriu o endereço dela. Não era longe do colégio, e como diz o Adso d'O  "Nome da Rosa", é um endereço que a caridade e principalmente a prudência aconselham a não revelar. Ele passou a rondar o apartamento dela. Pesquisou seus hábitos, descobriu seu telefone.

Finalmente planejou o seu lance mais ousado: faria uma pequena mudança no seu percurso para pegar o ônibus, e assim seu caminho coincidiria em parte com o que ela fazia para ir para casa. É claro, teria de andar uns dez quarteirões a mais, mas o que é isso para quem tem dezessete anos?

Ele a esperou escondido na entrada da rua Dona Mariana. Ela saiu, ou melhor, quase saiu, ficou conversando com uma amiga. Ela ria, gesticulava, a outra, mera pajem da rainha, gesticulava e ria também. Parecia que iam se despedir, mas voltavam, uma dizia algo que fazia a outra gargalhar, sorriam, demoravam. Como alguém pode ter tanto assunto com apenas dezesseis ou dezessete anos de vida?

Finalmente ela saiu. Prancheta agarrada (naquela época se usavam pranchetas, e a marca da feminilidade era usar a prancheta agarrada na frente, como que protegendo a própria decência). Ela usava um casaco que ele lembraria por décadas e seria capaz de dizer sua espessura, a textura, o padrão de listas coloridas horizontais.

Ele a alcançou. Oi. Oi. Você também vai por aqui? Vou. Continuam a andar. Falta assunto. Esperam o sinal da São Clemente. Ela se volta, sorri para ele. O mesmo sorriso ofuscante. Ele gostaria de fazer um discurso apaixonado, tipo Tristão e Isolda. Não sai nada, a garganta trava. O sinal abre. Continuam. Carros embeiçados na rua atrapalhando a caminhada. Gostou da aula? Gostei. Professor legal aquele, não? Não sei, ele me deu um quatro - e ela fica séria ao dizer isso. Ele tem vontade de desaparecer, sumir para o Pólo Norte.

Continuam. A rua onde ela mora está cada vez mais perto. O sol abre, meio dia. Ele precisa dizer algo, algo significativo. O tempo encurta. Engole em seco. Ele se resolve, abre a boca: Você pretende casar no futuro? Ela o olha surpresa. Já que desatou a língua, ele continua: ter filhos? Ela arregala um pouquinho os olhos, de um modo que ele não esqueceria. Acho que é o caminho natural, não? - diz ela.

Chegam à esquina da grande rua. Tem de se separar dela, senão ela desconfiará. Tchau. Tchau. Até Amanhã. Ele não responde, a resposta ficou na garganta. A calça azul colégio, o casaco de faixas coloridas, a prancheta sobre o busto, ela se afasta.

Foi o momento mais íntimo deles. Pouco depois a família dela se mudou para um bairro melhor, bem distante (parecia que estavam em plena ascensão social) e ele teve de deixar de rondar o prédio onde ela morava.

Ele nem soube como ela se saiu no vestibular. Poucos anos depois o prédio onde ela morava foi demolido para a construção de um espigão. Ele pôde acompanhar a demolição passo a passo, fazia parte de seu percurso diário. Achou uma pena, era um belo prédio. Realmente belo.