As lições dos “best-sellers”

Paulo Avelino
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GRISHAM, John. The Testament . New York: Doubleday, 1999. 436p.

Apesar de ser baseado num livro específico, este é mais um comentário que uma resenha. Permitam-me começá-lo por uma nota pessoal. “Não faço ‘best-seller!’” “O que você está propondo é que a gente escreva ‘best-seller’”. “O livro Tal? Não presta. É simples, cheio de situações fáceis para o leitor, quase um ‘best-seller!’”. Frases como estas se lêem nos meios literários brasileiros, pelo menos nos meios literários internéticos, com certa freqüência. Bem, eu também compartilhei certas restrições contra tal tipo de livro, mas um dia caí em mim: eu nunca havia lido um best-seller!

Bom, na verdade para definir um BS (melhor assim, para não cansar) a gente deve usar aquele velho ditado atribuído a Wittgenstein: ao pesquisar uma palavra, não pergunte pelo significado, e sim pelo uso. Em termos de tradução livre simples, o BS é apenas um livro que vende muito. Mas isso é enganoso. O livro que mais vendeu na história da humanidade não é um best-se... Um momento, estou enganado, ele tem todos os elementos de best-seller sim! Senão vejamos: uma coletânea de contos, novelas e poemas recheados de amor, traição, luxúria, incesto, lutas pelo poder, filhos querendo se vingar dos pais, homens implacáveis achando que estavam guiados pela vontade de Deus para impor a virtude a homens e mulheres corruptos e sequiosos de poder e sexo... Não tem dúvida, a Bíblia tem todos os ingredientes de best-seller!

Brincadeiras à parte, best-seller é muito mais que simplesmente vender muito, senão as Sagradas Escrituras, os escritos de Marx e Lênin (hoje um tanto por baixo) e o Pequeno Livro Vermelho dos Pensamentos do Presidente Mao (idem) poderiam ser também considerados best-seller. E não o são. Best-seller é um livro que reúne elementos como ambição, sexo, poder, disputas, investigações... Caí na Bíblia de novo. Enfim, desisto de definir o BS. Vamos a um livro que é inequivocamente um.

Troy Phelan é o décimo homem mais rico dos Estados Unidos. Tem 78 anos, três casamentos desfeitos, seis filhos que o odeiam e que ele odeia, e onze bilhões de dólares. Reúne os filhos para ler seu testamento, alegando que, além de tudo isso, tem também um tumor no cérebro. É submetido a um exame de sanidade frente a especialistas e aos advogados de seus filhos, assinando um testamento em que dá uma fortuna para cada um. Todos saem satisfeitos. Então ele tira do bolso um novo testamento, assina-o na frente seus advogado e poucas testemunhas, e rapidamente se joga da janela do edifício. Seu advogado lê o papel. É um novo testamento, que revoga o anterior, onde não deixa quase nada para seus filhos, e deixa quase tudo para uma filha natural que teve com uma mulher. Ninguém sabia que essa filha existia. Nem ele mesmo sabia direito onde estava. Num bilhete deixado para seu advogado, ele diz que a filha, Rachel Lane, é missionária protestante numa tribo indígena em algum lugar entre a Bolívia e o Brasil, num lugar chamado O Pantanal.

O advogado, na verdade o dono de uma grande firma de advocacia, convoca seus subordinados e os divide em três tarefas. Um grupo vai pesquisar tudo sobre testamentos, para responder às furiosas ações judiciais dos filhos do milionário querendo anular o testamento. O segundo time investigará sobre se uma pessoa sã pode cometer suicídio, pois os filhos certamente alegarão insanidade. E a terceira tarefa... Alguém tem de se embrenhar no Pantanal, partindo de uma cidade chamada Corumbá, para procurar Rachel Lane. Para essa terceira tarefa é convocado um advogado decadente, dois casamentos desfeitos, quase destruído pelo alcoolismo, que está numa clínica de reabilitação. Seu nome é Nate O’Riley. Dias depois ele se mete num barco lá no meio do mato atrás dessa mulher. Assim começa a busca por Rachel Lane, enquanto seus meio-irmãos fazem tudo para destruir o Testamento.

Bom, vou falar um pouco generalizando, baseado na minha gigantesca experiência de ter lido dois best-sellers (depois li outro, A Armação, de Paul Erdman, um best-seller financeiro.) Uma coisa tenho a dizer a favor dos BS: eles te pegam do começo. Eles sabem que as primeiras páginas são cruciais, são o que certos teóricos chamam de “lua de mel com o leitor”. Eu prefiro comparar uma obra literária a um carro com defeito. Você empurra o carro, uma tarefa bem desagradável. Mas tem um certo momento em que o carro tem de “pegar” e ir sozinho – senão você acaba desistindo. Do mesmo modo o poema, conto ou romance. Você começa a ler por sua força de vontade, você se decidiu e quer ler. Depois eles têm de lhe dar motivos para continuar lendo. Isso tem de acontecer no poema em poucas linhas, no conto em alguns parágrafos e no romance em algumas páginas.

Segundo, eles manejam as reviravoltas muito bem, o que lhes permite logo depois do início quente encher o leitor de curiosidade e perguntas que quer resolver. E nisso o leitor sai de sua própria vida e mergulha nos problemas e vidas de outras pessoas. E assim as primeiras metades dos BS que li foram uma delícia. Eu só largava porque era o jeito.

Terceiro, BS têm pesquisa. Neles, as coisas acontecem. E para ter o que acontecer, é muito mais fácil se o autor pesquisa. John Grisham pesquisou bem o Pantanal. Conheço um pouco a cidade de Corumbá e a descrição que ele faz, inclusive da grande avenida que ladeia uma praça e vai dar no porto cheio de belos casarões do século passado me pareceu muito bem feita. Nos BS a gente aprende alguma coisa.

Lá pela metade os defeitos do livro começam a pesar. No começo a gente não se incomoda com personagens que sejam chatos como uma chapa – os “bons”, embora possam ter alguns defeitos e serem multimilionários, sempre têm alguma virtude, são amigos, delicados, e se importam com outras coisas que não o dinheiro. Os maus são pura ambição e falta de escrúpulos. Mas depois a gente sente falta de personagens tortuosos, que tenham um passado complexo, razões complicadas, que pensem uma coisa e façam outra, que façam besteiras e se arrependam, enfim, a gente sente falta dos bons e velhos personagens profundos.

E como conseqüência no final os personagens passam. Você termina o livro e rapidamente o esquece. Nate O’Riley e Rachel Lane são pessoas absolutamente esquecíveis, ninguém se identifica com elas.

Outra coisa, pelo menos os dois BS que li passam uma mensagem conservadora irritante. Os dois se baseiam numa imperfeição das coisas – homens que queriam ganhar dinheiro a qualquer modo e são punidos, superados por aqueles que queriam ganhar dinheiro, mas não a qualquer modo... O ganhar dinheiro não é condenado, e sim o modo. O sistema é considerado essencialmente bom, são os “maus” que tentam deturpá-lo e por isso saem punidos. A coisa é meio contraditória, quase louca.

E é isso. Pode parecer que um best-seller não tem nenhuma lição a oferecer a quem quer escrever literatura “séria”, certo? Errado! Pelo menos no meu ponto de vista. Com suas caricaturas e exageros o best-seller pode ajudar a perceber certos exageros opostos cometidos por muitos dos que os deploram.

Em primeiro ligar o BS lembra o fato óbvio que a literatura só se completa com o leitor. Há hoje uma tendência de se considerar literatura apenas a relação do autor com o que ele escreve, uma coisa meio simbiótica que dá status de literatura a coisas que geralmente não passam de mera confessionalidade. A pessoa quer escrever algo para suas necessidades pessoais, muito bem, mas expor isso como literatura é um exagero que o BS pode ajudar a corrigir, ao lembrar que o autor precisa ter leitores, precisa estabelecer uma relação com seus leitores e que a opinião dos leitores é importante. O fato de que no passado algumas obras-primas não conseguiram leitores logo não pode servir de desculpa para nos considerarmos autores de obras-primas sempre que não conseguimos leitores.

Em segundo lugar o BS se preocupa em “pegar” o leitor no começo, em brigar pela atenção do leitor em meio a tantas outras coisas que pedem a atenção dele. Quantos contos eu não vejo hoje que começam com descrições absolutamente desnecessárias à ação do conto. Eu os chamo de contos Pelo-amor-de-Deus-pare-de-me-ler!

Em terceiro lugar, o autor de BS pesquisa. Trabalha. Lendo BS, você aprende algo sobre algo. E é interessante saber coisas novas! Mesmo que não tenham aplicação prática para a vida do leitor, ou talvez por isso mesmo, elas distraem das preocupações da vida. Logo depois que o submarino russo afundou, a revista Newsweek entrevistou Tom Clancy para perguntar o que poderia ter acontecido. E o homem deu um show, falou das diversas hipóteses de acidentes que poderiam ter acontecido, etc. E Tom Clancy aprendeu sobre submarinos fazendo pesquisas para seus livros, a ponto de ser um expert. Que escritor brasileiro pode ser considerado expert em alguma coisa, tirando alguns poucos? Que escritor brasileiro pesquisa? Há uma quantidade enorme de obras no Brasil cuja temática gira em torno da vida de classe média urbano um país de Terceiro Mundo, seus problemas e neuroses. Ora, os autores em sua quase totalidade escolhem essa temática porque ela é a vida deles! E a falta de pesquisa faz com que não tenham assunto para escrever sobre alguma outra coisa.

E um aspecto no escrever é que o conhecer necessário para escrever é diferente do conhecimento do dia a dia. Eu conheço o suficiente do meu prédio para morar nele: sei onde são os elevadores, as garagens e conheço os porteiros o síndico e alguns vizinhos. Mas se quisesse escrever um romance sobre meu prédio teria de entrevistar o síndico e ex-síndicos, os porteiros, alguns moradores, os engenheiros que o construíram, teria de passar um plantão na guarita para ver como é, etc. Seria outro conhecimento.

Não se pode ficar sempre nessa de estou escrevendo literatura séria, o que importa é o trabalho de linguagem, meu livro não precisa ter exatamente um conteúdo. O autor base de muitos dos que pretendem escrever literatura séria é Joyce. Deve-se lembrar que o Ulysses de Joyce é cheio de conteúdo! Joyce era um cara cultíssimo, sabia muitas línguas, e tinha um conhecimento da cidade de Dublin que hoje raramente alguém tem da sua cidade. E no livro dele estão muitas e muitas informações sobre os movimentos de independência da Irlanda, as reivindicações de Parnell, história dos jesuítas, as denúncias de Roger Casement, etc. O Ulysses não é um livro sobre nada!

Em quarto lugar, os BS sabem criar tensão. Criar interesse no leitor. Muitas vezes é esquecido o fato de que o leitor não tem obrigação de ler. Às vezes até se diz algo como “não quero criar uma literatura ‘fácil!’” O leitor quase como inimigo. Pobre leitor! O BS sabe disso e tenta não aborrecer o leitor. Tenta agradá-lo e dar motivos para que ele continue a ler.

Agora os defeitos do BS, ou o que eles dão de lição. O maior defeito me parece ser os personagens absolutamente horizontais, caricatos, esquecíveis e sem graça. Mas... Isso também não pode ser dito dos personagens de muitos dos livros da chamada literatura séria? Quando personagens de livros que se propõem a ser sérios não são facilmente esquecidos, não são marcantes, nem têm os exageros e viradas que fazem os grandes personagens? Assim, os BS têm esse ponto fraco, mas a literatura séria também muitas vezes o tem também.

As virtudes que enxerguei no BS não são criação dele. John Grisham não inventou a pesquisa. Teve um sujeito que antes de matar sua personagem passou muito tempo em hospitais pesquisando e lendo cuidadosamente casos de suicídio por arsênico. Seu nome: Gustave Flaubert. Outro ao escrever tendo como pano de fundo uma guerra pesquisou-a tão bem que seu livro hoje é fonte sobre o assunto: Leon Tolstoi.

Quanto ao suspense, à vontade de continuar, as regras do suspense foram esboçadas por Aristóteles há muitos séculos. E li certa vez o conto de um autor que me deu suspense tão grande, uma vontade tão grande de saber o final, que não agüentei e fui logo ao final para ver o que tinha acontecido com os protagonistas. E o autor não era nenhum americano falando de espionagem. Era Miguel de Cervantes, em uma das Novelas Exemplares.

O BS pega elementos que são patrimônio da literatura como um todo e os utiliza para seus propostos, inclusive para difusão de idéias políticas conservadoras.

Enfim o best-seller, com seus defeitos e suas virtudes, tem algumas lições para nós, que estamos envolvidos com literatura.