Resenha de livro: The corrections, de Jonathan Franzen

Paulo Avelino
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FRANZEN, Jonathan. The corrections. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2001. 568p.

Esse romance se tornou conhecido por um acaso de publicidade. A apresentadora e semideusa da mídia americana Oprah tem um Clube do Livro, uma lista de livros que recomenda. Os autores escolhidos podem se considerar no céu: orgias, vinhos e mulheres a vida toda, pois o livro passa automaticamente a ter vendagens monstruosas. O jovem autor nova-iorquino Jonathan Franzen teve seu terceiro romance ungido. Só que ao invés de pagar promessas para tudo quanto é santo ele declarou que não entendia por que seu livro tinha sido escolhido. O céu caiu por isso. Ele foi retirado da lista, cartas furiosas inundaram as redações dos jornais acusando “esses intelectuais são todos uns blasés! Vivem em torres de marfim etc”. Não adiantou nada ele explicar que achava que achava seu livro um tanto diferente dos livros do gosto de tal Clube.

Mas a confusão atraiu leitores a vendagem disparou para um milhão. No final de 2001 o livro ganhou o National Book Award, a principal premiação literária americana.

Mas as polêmicas não pararam aí. O livro se passa em parte na Lituânia, e retrata uma Lituânia pavorosa, cheia de gangues e com o povo comendo carne de cavalo. Lituanos reclamaram e o embaixador lituano escreveu ao autor dizendo-se entristecido com o que ele tinha dito sobre o país e convidando-o a visitá-lo. O que tornou o autor ainda mais exposto é o fato de nunca ter visitado a Lituânia. Disse que quando estava escrevendo o livro não tinha tempo nem dinheiro para ir lá. E se defendeu dizendo que o retrato que ele fazia do país era tão exagerado que ele achava que as pessoas não iriam confundi-lo com a realidade. Talvez não, mas depois de ler o livro não fiquei com nenhuma vontade passar férias lá.

É a história de uma família, cujo eixo um tanto solto é o último natal que essa família passará junta. Alfred, um homem conservador e de poucas demonstrações a feto, casou-se com Enid há quase cinqüenta anos, e sempre viveram numa pequena cidade do meio-oeste americano chamada St. Jude (o autor não dá o estado). É uma cidade de brancos, conservadores e um tantinho racistas. Tiveram três filhos, Gary, com 43, Chip, o do meio, e Denise, com 32. Viveu sempre como engenheiro de ferrovia, acreditando nos valores conservadores, no trabalho e na honestidade. Agora está aposentado e doente, sofrendo de Parkinson, mas não de forma muito grave,  de um princípio de depressão. Passa o dia todo em casa tropeçando nas coisas. Enid, sua esposa, não agüenta mais ficar ajeitando a casa o tempo todo com ele dando trabalho. Para completar, não ficaram ricos – têm uma vida de classe média.

Gary é um homem próspero, diretor de banco, com três filhos e uma vida familiar próxima de infernal, e que se preocupa com o fato de o pai estar doente, e se preocupa de talvez estar doente também, e insiste para que vendam a casa. Chip é um professor universitário que se envolveu com uma aluna e foi demitido por isso. Aliás, a gente houve tanto falar em demissões por esse motivo que creio que estão desenvolvendo a clonagem é para que a espécie humana não desapareça nesses países ricos. O velho e tradicional meio de reprodução está perto de se tornar ilegal, o jeito é apelar para tecnologia. Ele foi demitido, está sem dinheiro, fazendo um roteiro que não termina nunca e envolvido com uma mulher casada. Já Denise é uma chef de cozinha que está tendo um envolvimento com seu patão e outra pessoa mais. Vidas obviamente desarranjadas, que vão tentar se arranjar nesse natal, o último, já que é claro que as névoas que encobrem o entendimento de Alfred em breve o levarão para um mundo de delírio do qual não voltará.

O romance tem sido acusado de ser deprimente. E de certa forma é. Também tem de ter um enredo inverossímil. Bem, aí cabe uma discussão. No Brasil há uma certa mentalidade de que na literatura tudo-é-válido-não-há-regras. Isso é invenção de gente preguiçosa. Nem tudo é válido e há regras sim. Uma delas é que os personagens devem ser verossímeis. Um dos recursos para seles serem verossímeis é serem exagerados. Mas é preciso tomar cuidado com esse exagero – ou então se torna caricatura e o personagem fica inverossímil de novo. Franzen passeia no limite entre o exagero e a caricatura. Seria difícil encontrar alguém com maior capacidade de fazer tolices na vida que Chip e Denise, por exemplo. Outra acusação é que é difícil gostar dos personagens. E realmente é. Os personagens não geram simpatia. Foi acusado também de não retratar bem o meio-oeste americano – Franzen seria um típico intelectual nova-iorquino, tipo filme de Woody Allen, e teria traído o meio-oeste. No Império há essa rixa com os blasés de Nova Iorque.

O fato é que The Corrections é um bom romance. Demorou sete anos para ser feito. A pesquisa foi muito ampla, envolvendo vários assuntos. desde alta culinária até situação econômica da Europa Oriental e o funcionamento de drogas tipo Prozac. O grande demérito do livro é algo tão comum que mal pode se chamar demérito. Acusar hoje um romance de não ter personagens marcantes e tortuosos talvez seja tão justo quanto acusar um time de não ter nenhum Pelé ou Garrincha. Já o grande mérito do livro se situa na estilística. Franzen faz bem o dever de casa. Tudo o que se vê nos manuais de como escrever ele faz: os personagens tentam fazer coisas (não ficam passivamente espertando que as coisas aconteçam a eles), o autor usa verbos fortes ao invés de advérbios, evita vozes passivas e verbos de ligação. E acima de tudo, ele aplica exaustivamente na prosa um recurso que eu só conhecia nessa extensão utilizado na poesia: o uso de palavras concretas. O velho João Cabral já dizia para evitar palavras abstratas e usar palavras concretas. Franzen mostra que isso também se deve fazer na prosa. Substitui adjetivos como “triste”, “infeliz”, “agitado”, por comparações concretas. Chip não estava com medo, ele cruzou os braços defensivamente. Alfred não cumprimentou seu filho friamente, ele segurou sua mão com se fosse uma corda que alguém tivesse atirado de um barco. Uma coisa curiosa é que o livro fala de um assunto raro, e quase que ausente na literatura brasileira: doenças. Pesquisou doenças da senilidade, especialmente o mal de Parkinson.

The Corrections é um bom romance para quem gosta de ler. Para quem faz parte dessa feliz minoria é um bom livro.