FINALIDADE DO MUNDO - Estudos de filosofia e teleologia naturalista

 

de FARIAS BRITO

 

2o Volume - A FILOSOFIA MODERNA

publicada pela primeira vez em primeiro de maio de 1899
I
A CRISE MODERNA
 

O estudo do universo apresenta-se sob a dupla consideração do mundo objetivo e do mundo subjetivo.  O primeiro resolve-se em fenômenos físicos ou mecânicos; o segundo, em fenômenos psíquicos ou metafísicos; e todo aquele que quiser abraçar em suas investigações o conjunto da natureza, deve procurar uma explicação tanto para uma, como para outra destas duas ordens de fenômenos.  Há quem já tenha procurado explicar o mundo objetivo em função do sujeito (idealismo), assim como há quem já tenha procurado explicar o mundo subjetivo em função do objeto (realismo, materialismo); e foram estas duas escolas opostas, que, entrando em múltiplas combinações, prevalecendo, ora um, ora outro dos dois pontos de vista, deram lugar à infinita variedade de sistemas em que estérilmente se divide e subdivide a atividade filosófica.
Esta variedade chegou a tornar-se pasmosa na época presente, e por isto extremamente confusa e incerta é a situação atual dos espíritos;  mas, remontando a uma época mais remota, notar-se-á sem dificuldade que a intuição que chegou a prevalecer e se organizou e generalizou em condições de exercer real influência sobre a sociedade, é a que se eleva à dupla concepção: - de Deus como causa primária do mundo ou explicação dos fenômenos físicos, ou melhor, do universo; - e da alma, como emanação de Deus e causa imediata dos fenômenos psíquicos.
 Mas explicando Deus, explicando a alma, lutam os filósofos com dificuldades insuperáveis, nada podendo ser com segurança deduzido de suas cogitações quase sempre duvidosas e incertas. A natureza dentro da qual vivemos e agimos, que nos envolve por todos os lados e fora da qual nada podemos conceber, é o único objeto possível de conhecimento, porque é o único objeto possível de observação experimental.  Mas eles não se contentam com a natureza; não lhes basta o que vemos, não lhes basta o que nos cerca e o que sentimos; remontam a uma revelação sobrenatural de que não há memória e, explicando Deus, colocam-no fora do mundo e em região superior a tudo o que tem relação com os nossos conhecimentos.  Deus é assim um princípio insondável, uma força superior a todas as forças; e o mundo com todos os seus prodígios, o universo com todas as suas maravilhas, deve ser considerado como uma simples manifestação acidental de sua onipotência: mas não pode por forma alguma ser conhecido, nem sentido, sendo absolutamente inacessível a todas as forças da inteligência.  Admitem, pois. Deus; mas negam toda e qualquer intuição de sua existência que para eles não é natural.  Isto quando não o negam de todo, filiando-se definitivamente ao sistema materialista.
Um semelhante modo de conceber as cousas só serve para mostrar até que ponto nos podem cegar as aberrações do espírito humano.  A verdade, porém, é muito diferente.  Em vez de ser uma cousa tão estranha e tão inacessível ao homem, pelo contrário, Deus é o que está mais perto de nós e mais diretamente influi sobre todos os fatos da vida.  Podemos mesmo dizer que êle nos cerca por todos os lados, que é dentro dele que todos vivemos e agimos, que ele é o que mais intensamente sentimos e mais claramente conhecemos, se bem que só possa ser conhecido em seus acidentes superficiais.  Ou mais precisamente e para concluir com as mesmas palavras com que concluí a primeira parte desta obra: - Deus é o que há de mais claro e visível na natureza:  Deus é a luz.
Há, pois, um princípio último que tudo explica, uma verdade suprema que tudo ilumina: esta verdade é o Deus vivo e real que mantém em equilíbrio o mecanismo do mundo.  Mas para conhecê-lo não é necessário recorrer a processos estranhos á ordem da natureza; pelo contrário é observando a natureza que conhecemos Deus, é na natureza mesma que Deus se revela. E a alma?  A alma é a consciência, isto é, a face interna da luz, uma revelação subjetiva da divindade, do mesmo modo que a natureza com todas as suas evoluções e mecanismos não é senão a sua revelação exterior.
Vê-se assim que o problema de Deus e o problema da alma não são propriamente duas questões distintas, mas apenas duas faces de uma só e mesma questão.  É o que não tem deixado de ser pressentido, se bem que não se possa negar que resultam daí dois departamentos diversos para a atividade do espírito.
Mas por qual de suas duas faces foi primeiramente considerada a questão, por sua face teológica ou por sua face psíquica? Segundo Draper, as idéias sobre a natureza de Deus, fazem as idéias sabre a natureza da alma.(1) Deste modo a chamada ciência da alma, a psicologia, não seria mais que um prolongamento da teologia ao jeito dos metafísicos da velha escola: o homem teria partido do conhecimento de Deus para o conhecimento da alma.
Não me parece que tal tenha sido a marcha real do espírito. Antes de tudo o homem deve ter conhecido a si mesmo: na combinação do mundo exterior com o sujeito o que é imediato é o próprio sujeito, o resto vem depois. Quando a criança nasce, o que primeiro deve sentir e conhecer, é a própria existência, se é que já não tem esse sentimento e esse conhecimento no ventre materno.  Com efeito, admita-se que uma cousa qualquer do mundo exterior chegue a ferir pela primeira vez e de certo modo a sensibilidade do homem.  O que é que em primeiro lugar conhece o homem?  Sem dúvida a sua própria sensibilidade: só depois é que pode estender o seu conhecimento aos objetos que estão fora de si: é a explicação que tem o célebre princípio cartesiano - cogito, ergo sum. como anterior a qualquer outro.
Tratando-se particularmente de Deus, é provável que a concepção primitiva fosse a intuição natural segundo a qual Deus é a luz; e isto está de acordo com a significação etimológica da palavra Deus que. como se sabe, vem do sânscrito dians, que quer dizer ar luminoso.  É da mesma palavra que se origina o vocábulo dia.  Isto pelo menos no grupo lingüístico que se prende ao latim e ao grego.
Nas outras línguas é de crer que a palavra tivesse primitivamente a mesma significação.  Mas esta tradição perdeu-se; e o homem. à força de querer tudo subtilizar e engrandecer, está dentro da luz, mas começou a procurar Deus nas trevas.  É o que resulta da prioridade mesma do conhecimento próprio sobre o conhecimento divino. O homem conhecia primeiro a si mesmo, concebeu antes de qualquer outra cousa a idéia da alma, sendo a isso levado pela observação dos fenômenos que se passam no interior de seu próprio espírito.  Depois a tendência antropomórfica obrigava-o, na sua simplicidade ingênua, a considerar tudo o mais como idêntico a si, de onde as superstições fetichistas.   Ora, os objetos de que o homem se viu cercado, eram muito grandes e imponentes; daí a necessidade de uma alma colossal para eles, Deus.  Assim, pois, a concepção ainda hoje preponderante de Deus, foi uma idéia criada em relação ao corpo do mundo, na mesma proporção que a alma em relação ao corpo do homem.  Neste sentido Deus era a alma do mundo. Com o tempo essa idéia passou por modificações sucessivas e por fim deu em resultado o Deus do monoteísmo moderno, mecânico do universo, autor pessoal da matéria e das almas. Era o homem criando Deus à sua imagem; era o estabelecimento definitivo do prejuízo antropomórfico.
Neste ponto de todo estava já mistificada a verdade natural. Deus é a luz, quer dizer, Deus é o meio infinito dentro do qual eternamente se agitam as evoluções indefinidas do cosmos. Transformaram-no, primeiro, em uma personalidade análoga à personalidade do homem.  Depois, fizeram dessa personalidade, uma vontade estranha aos movimentos mesmos do cosmos, regulando de fora a obra da natureza.  Deus passou a ser para o mundo o que o homem é para os produtos artificiais de sua inteligência.  Considerado em face de suas produções, o homem pode ser chamado criador: assim Deus em face do universo. Apenas em um caso a criação é limitada, condicionada, finita; no outro, ilimitada, incondicionada, infinita.  Mas de todo o modo, quer se considere Deus em face do mundo; quer se considere o homem em face de seus artefatos, o criador fica sempre de um lado, a criatura. do outro, inteiramente separados, essencialmente distintos.
Mas no caso do homem o criador é tudo, a criatura é nada. O que é vivo, o que é verdadeiro e real, é o homem mesmo. As criações a que dá. este, lugar, são apenas combinações artificiais a que são submetidas forças já existentes.  O contrário sucede, tratando-se da criação universal.  Aqui o que se impõe, o que é incontestável, verdadeiro, real, é a criação.  O criador é uma vontade estranha à natureza, uma força de que o mundo depende, mas que é, de todo, sem ligação com o mundo, um nome apenas, uma idéia abstrata sem nenhuma significação objetiva; um princípio a que tudo se deve ligar, mas que é absolutamente inacessível ao nosso conhecimento. Ora, daí para a negação da divindade vai apenas um passo. E foi assim que, perdida a primitiva consciência divina, o homem começando por transportar Deus para fora do mundo, terminou por negá-lo.  E em época alguma, cumpre notar, chegou esta negação a adquirir tão vasto domínio, como na época presente, em que não falta quem procure blasonar de ciência, fazendo ostentação de impiedade.
Mas negar Deus é negar a razão no mundo. Por isto desesperadoras, brutais, haviam de ser as conseqüências que deveriam resultar do ateísmo moderno.  E de fato, qual é o espetáculo que nos oferecem presentemente as lutas dos povos? Observai e vereis que é o mais desesperador e terrível, sendo que jamais passou a consciência humana por tão violentas agitações. Em primeiro lugar, debaixo de uma certa aparência de desenvolvimento e cultura, em realidade domina por toda a parte a injustiça.  Assim reconhece Garofalo na Superstição Socialista; assim proclama Gumplovicz em seu Grundriss der Sociologie. O primeiro condenando a tendência revolucionária dos socialistas que só reconhecem como meio de salvação, a destruição da ordem estabelecida, aconselha a todos prudência, apelando para a moral religiosa.  O segundo, desesperando de toda e qualquer regeneração, pois tudo o que sucede, resulta da natureza mesma das cousas, e como tal não podia ser de outra forma, só encontra possibilidade de consolo, para nossas desgraças e sofrimentos irremediáveis, na resignação.  Depois ninguém tem fé na estabilidade da ordem moral, e os que apelam para a autoridade dos princípios, são tidos na conta de sonhadores; ninguém tem confiança na sinceridade dos homens e cada um já não quer, ou não pode contar senão consigo mesmo na luta contra o destino ou contra a fatalidade.  Daí, a prostração dos espíritos mais puros, o desalento das almas mais delicadas, ao mesmo tempo que o egoísmo chega a tomar proporções assombrosas, elevando o interesse à categoria de princípio soberano da moral.
Se, deixando de parte o testemunho individual dos pensadores, tratamos de considerar o organismo mesmo da sociedade e o ensino direto da história, veremos que não menos patente se torna a confusão que em tudo se observa.  Com efeito; qual é a condição a que se acham presentemente reduzidos os diferentes povos do mundo civilizado, o que é que nos revela a história sobre a situação atual dos governos?  Vejamos.  O regímen social e político que nos foi legado pelo passado, após esse longo período da história a que se dá o nome de Idade Média, foi o absolutismo papal, sendo o Papa o verdadeiro representante de Deus sobre a terra, e devendo, portanto, todos os governos temporais, no que tem relação com a direção, não somente dos negócios que se referem a seus interesses particulares, como igualmente dos que dizem respeito aos interesses gerais da civilização, inspirar-se nas deliberações do Vaticano. Mas o absolutismo papal caiu com a Reforma.  A Igreja fracionou-se e, com o fracionamento da Igreja, sucedeu ao absolutismo papal a monarquia absoluta.  Já não havia nenhum intermediário entre Deus e os reis, sendo que, negada a autoridade do Papa, os reis mesmos é que são os representantes de Deus sobre a terra.  Mas veio o livre pensamento e como repercussão do livre pensamento na história, a revolução.  Esta explodiu, primeiro na Holanda. depois na Inglaterra, por último na França:
e daí se transportou o movimento para todos os países da Europa, caindo afinal definitivamente a monarquia absoluta, para dar lugar á democracia moderna, tendo por lema fundamental a célebre fórmula revolucionária: - igualdade, liberdade. fraternidade.
Mas a democracia. por seu lado, fascinou por um momento os espíritos entusiastas, mas isto somente para dar. logo em seguida, de si mesma, a mais triste cópia.  Em primeiro lugar o lema fundamental que chegou a ser considerado como a mais gloriosa conquista da revolução, de todo se desmoralizou, tornando-se patente que nunca a desigualdade de condição entre os homens chegou a tomar tão vastas proporções como nas democracias.  Que os homens não são iguais - demonstra-o o complicado sistema das hierarquias sociais.  Que não são livres - demonstra-o a variada combinação de laços e sujeições a que está subordinado.  Que não são irmãos - demonstra-o o espetáculo cotidiano da exploração do homem pelo homem.  Depois. se a questão era fazer cessar em política toda e qualquer espécie de absolutismo, acontece que nem isto chegou a conseguir a revolução, porquanto, se a democracia foi o resultado legítimo da revolução, é uma verdade que ao absolutismo do Papa e dos reis, sucedeu nas democracias o absolutismo dos capitalistas e banqueiros, mil vezes mais detestável.
Por isto não sem razão é que já por toda a parte se proclama a bancarrota das democracias. Deste modo, nem teocracia, nem monarquia, nem aristocracia, nem democracia.  Ora, isto é confusão e desordem, isto é a mais desesperadora anarquia: e de fato anarquia é o que se vê por toda parte, em todas as manifestações da atividade mental, reinando na ordem política, como na ordem da evolução social, a mais profunda confusão. como a mais deplorável incerteza.

1.  DRAPER, Conflitos da religião e da ciência.

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