Três livros femininos

Paulo Avelino
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FIELDING, Helen. O diário de Bridget Jones. Rio de Janeiro: Record, 1999. 320p.

Comentaremos três livros bem diferentes mas que têm algo em comum que justifica serem agrupados na mesma resenha. Os três podem ser enquadrados na chamada literatura para mulheres, ou literatura feminina.

Comecemos pelo mais elaborado deles, um romance. A autora inglesa Helen Fielding escreveu “O diário de Bridget Jones” a partir de colunas que escreve para jornais ingleses. Foi um sucesso mundial. Vendeu quatro milhões de exemplares segundo a autora, trouxe-lhe fama mundial, entrevista na CNN, etc.

A trama do livro é simples. Bridget Jones é uma moça de trinta e poucos que mora sozinha em Londres, tem um emprego do qual não gosta muito e tem um objetivo, aliás dois. Todo herói tem de ter um objetivo. Vasco da Gama queria atingir as terras além de Taprobana; Dom Quixote queria vencer dragões e louvar sua Dulcinéia; Dante queria rever sua amada e redimir sua própria alma; e Bridget Jones quer emagrecer e arranjar um namorado.

Ela também tem objetivos secundários, como deixar de fumar, beber menos, arrumar um emprego melhor e aprender a programar o videocassete.

O livro é o relato de sua luta durante um ano inteiro. É composto de excertos do seu diário de primeiro de janeiro a 31 de dezembro. E tome encontros e desencontros com namorados, beijos, transas, chutes, foras, idas à balança, chocolates comidos em momentos de tensão, arrependimento por chocolates comidos em momentos de tensão, saídas com amigos quando está sem namorado, afastamento dos amigos quando está com namorado, desespero (e ao mesmo tempo esperança) por estar grávida, nervosismo de se encontrar num novo emprego, etc.

A primeira reação de muitas pessoas é dizer “mas isso é muito comum" ou “Essa garota sou eu!”. Reações assim são internacionais, vão do Brasil à Tailândia. Sem dúvida essa identificação automática foi procurada pela autora e é a grande responsável pelo sucesso do livro. Mas parece que a autora mesma se surpreendeu com uma identificação tão forte com sua personagem. Ela revelou que seu primeiro livro foi sobre uma mulher que dirigia um campo de refugiados na África do Sul e ninguém comprou. Depois escreveu sobre uma mulher que queria emagrecer e milhões compraram.

Mas o esforço de causar uma identificação automática do leitor com o livro não pára na personalidade da protagonista. Pode-se perceber o esforço de pesquisa da autora não só em buscar situações “típicas” de uma moça dessa imensa classe média de mulheres que existe pelo mundo mas também em colocar também produtos que mulheres de tal estrato consomem, e assim fazer com que a leitora pense, “olhe, Bridget compra na mesma loja em que eu”, ou “conheço essa marca de calça que ela comprou, é caríssima!”. Evidentemente esse efeito se perde muito para nós que não conhecemos as lojas e butiques grã-finas ou barateiras de Londres, nem as griffes de roupinhas para bebês que estão fazendo sucesso.

Note-se o contraste disso com a grande literatura. A vida que qualquer um de nós leva é bem diferente da de um nobre da Idade Média, por exemplo. Nossas rotinas, alimentos, diversões são bem diferentes. Mas qualquer um de nós pode se sentir num dilema que nos consome –e então nos sentimos muito próximos de Hamlet, uma pessoa com a qual à primeira vista não teríamos por que nos identificar. Do mesmo modo Natacha Rostov é uma aristocrata russa, uma mocinha graciosa que estava desesperadamente apaixonada por um homem mais velho, casamento marcado e tudo, e de repente se apaixona mais ainda por um cara que ao vale nada, desfaz o noivado e joga tudo para o alto, e depois cai na real como se diz e morre de arrependimento. O mundo está cheio de Natachas, embora as condições de vida em que ela viveu não existam mais há muito tempo.

Voltando a Bridget, pode-se dizer que o desenvolvimento do capitalismo no pós-guerra gerou um padrão de comportamento que mal ou bem se generalizou. Hoje em dia há uma massa apreciável de mulheres que trabalham fora. Ao mesmo tempo é uma característica da pós-modernidade a fragmentação. O conceito universal de “Homem” se desvanece em favor de conceitos parciais como criança, mulher, jovem, etc. O livro se aproveitou desses dois fatores e encontrou um mercado grande. Já foi lançada em fevereiro na Inglaterra e nos Estados Unidos a sua continuação, “Bridget Jones – the edge of reason” – em que a heroína agora se defronta com os apuros e aventuras de ser uma mulher casada (ou de morar com alguém).

Evidentemente Helen Fielding não foi a única que descobriu tal filão. A própria autora reconhece que o livro é uma espécie de resposta a um seriado que faz muito sucesso na TV americana, “Ally McBeal”, que trata de uma jovem e suas desventuras profissionais e afetivas.

Uma crítica que se faz é que o livro teria sido muito inspirado, talvez demais, no romance de Jane Austen – “Bridget Jones” seria um “Orgulho e Preconceito” liberado e pós-moderno em que os personagens não têm nenhum orgulho e muito menos preconceito em irem para a cama uns com os outros. Alguns acusam a autora de plágio. Um dos homens com quem a heroína se envolve, Mark Darcy, tem até o mesmo nome do herói de Austen, Darcy. Mas enfim, quem liga?

É livro engraçado, que é o que se propõe a ser.
 
 

HALLACK, Jô, et alii. 02 neurônio - Almanaque para garotas calientes. São Paulo: Conrad Livros, 1999. 100p.

“O2 Neurônio – Almanaque para garotas calientes” (lê-se “os dois neurônio”) é bem diferente. Para começar não é um romance. Trata-se de um fanzine editado desde 1997 pelas três autoras, Jô Hallack, Nina Lemos e Raq Affonso. Depois de alguns números elas publicaram este livro com artigos no formato fanzine: variação de formas e tamanhos de letras, gravuras e muita programação visual.

Quanto à temática, esta não é tão variada, resume-se a um tema só: homem. As moças falam de traição, muita traição (a maior parte do livro é sobre esse tema e suas conseqüências), perda de peso, variações sexuais, tamanho de pênis, como transar com um cara que se droga, etc.

O ponto fraco do livro (ou “fanzinão”) é sua absoluta falta de transcendência. Quando as autoras falam “nós”, elas estão se referindo a elas mesmas, só elas três, sem possibilidade de identificação por parte de mais nenhum outra pessoa. Elas dizem por exemplo que não gostam de garotos que tiram notas altas e preferem os maconheiros. Bem, há milhões de garotas do mundo que têm nojo de drogas e dos homens que as consomem. Esse nós é tremendamente particularizado. E quanto a ter uma vida sexual extremamente movimentada, o que é dito no fanzine, também é algo com que muitas mulheres e moças não se identificariam.

Enfim o assunto é um só, homem, o que nos leva aos terceiro livro.
 

ABRANCHES, Suzana, et alii. Tapa de Humor não dói. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. 170p.

Este é um livro de um grupo humorístico composto exclusivamente por mulheres e que se propõe a ser uma espécie de “Casseta e Planeta” feminino.  Inclusive são os rapazes do “Casseta” que redigiram a contracapa. Trata-se também de uma espécie de fanzine, na verdade melhor dizendo uma série de artigos com algumas fotos e um pouco de tratamento gráfico.

O livro é composto em mais de 90% do assunto homem e seus derivados – transas, ciúme, traição, etc. Tem um pouquinho de crítica social, geralmente relacionada à dificuldade de obter emprego, e pouco mais.

Marilene Felinto em artigo na Folha de São Paulo de 24.04.94 ataca a chamada literatura feminina. Diz ela que as mulheres escrevem mal. Não é verdade, e não preciso citar as grandes autoras do passado e do presente para provar isso. Mas a verdade é que “literatura feminina” é uma coisa bem distinta de livros escritos por ou mesmo para mulheres.

A literatura feminina está ligada a outras expressões também um tanto pegajosas, como “lógica feminina” ou “visão feminina”. Esta lógica feminina é na prática uma recorrente – e irritante – centralização em torno das funções do corpo – o que em termos de literatura se traduz em uma repetida descrição de orgasmos, menstruações, partos e atração por homens ou mulheres.

Quanto à visão feminina, os três livros citados acima são exemplos dela. Os dois últimos se propõem a ser uma visão feminina do humor, um chamado “humor feminino”, centralizado excessivamente na figura masculina e seus derivados. E o romance trata de uma aventura feminina – aventura esta centrada no que já vimos.

Essa “visão feminina” é uma arapuca na qual muitas mulheres inteligentes caíram e estão caindo. Um homem pode escrever sobre tudo, sobre os grandes temas, o pecado, o amor e a morte. Já uma mulher tem de dar uma “visão feminina” sobre tudo. Isso encurrala a mulher num gueto. É mais ou menos o que acontece conosco, gente do terceiro mundo. Um americano ou francês pode escrever sobre qualquer tema, eu tenho de escrever com uma “visão latino-americana”. Isso apenas perpetua o status quo.

Poucas mulheres se destacaram na literatura e em artes escritas correlatas não por causa da desvalorização de uma certa “lógica feminina” que não existe, e sim por razões práticas – falta de dinheiro, de estudo, de valorização social. É meio difícil você se voltar para estudos de filosofia quando todos em sua volta só pensam em filhos e casamento. A pressão social era muito grande, só uma ou outra raríssima escapava. Agora as coisas mudaram – não tanto assim, mas mudaram. Uma moça pode querer fazer um doutorado sem causar um escândalo. E as mulheres que têm vocação e capacidade para tanto podem escrever sobre os grandes temas, sobre coisas universais com uma visão humana, não feminina, do mesmo modo que seus contrapartes homens sempre fizeram.