Uma biografia heterodoxa de Farias Brito
Paulo Avelino
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Kant

Koenigsberg, Prússia Oriental, 1770

O mundo está atrasado, Kant não está. O filósofo termina de trabalhar pontualmente todos os dias, fecha os volumes de Platão e Santo Tomás, e se veste para o seu passeio. Precursor do jogging, sabe que o exercício físico é essencial à mente. As pessoas regulam seus relógios pela hora em que passa em frente à igreja.

Ao voltar da caminhada num gélido dia de inverno, enquanto o criado lhe sacode a neve da capa, Kant descobre que o homem não pode conhecer tudo: ele só pode conhecer o que pode conhecer. E que Deus não pode ser provado. Ninguém pode dizer: aqui está Deus, como quem diz ‘aqui temos um bom vinho’. Deus é uma necessidade dos homens de boa vontade e de fé.

Kant olha pela janela. Lá fora neva fortemente. Estava criado o iluminismo, um mundo complemente novo nascia. Kant tem um pouco de medo do que acabara de criar.

Comte

Paris, 1828

"Já que não consigo mudar a mim mesmo, vou pelo menos mudar o mundo". Auguste é um rapaz franzino que acabou de sair do sanatório, por onde esteve por dois anos, procurando seu caminho entre múltiplas vozes internas que se chocavam e discutiam dentro de si. Agora ele desiste de procurara a sanidade. O espírito humano é muito grande e confuso. O mundo é muito menor e mais simples, redutível a leis de evolução que obedecem às regras das ciências naturais.

O homem certo no lugar certo na hora certa, Auguste em poucos anos se torna Comte, o fundador de uma nova crença. Seus adeptos se estendem da França ao Chile, da Inglaterra ao Brasil.

O Fundador da Religião  da Humanidade é fanático pela ordem e pelos números. Cada tratado que ele escreve tem sete capítulos, cada capítulo tem três partes, cada parte tem sete seções, cada seção tem sete grupos de frases, cada frase se estende por duas linhas manuscritas ou cinco impressas, contendo exatamente 250 letras.

Tobias Barreto

Lagarto, Sergipe, 1859

As meditações filosóficas na pequena Lagarto se resumem a especular se o preço do milho vai baixar com as últimas chuvas e como é que aquela doidivanas da Maroquinha ainda conseguiu casar, quando todo mundo sabe que antes ela já tinha namorado três meses com o filho do Dr. Humberto e depois terminou o namoro? Mas Tobias Barreto medita sobre o Mundo, a Evolução e a Matéria. Na sua mesa, as últimas novidades filosóficas dos filósofos alemães, importadas saberia Deus - se Deus existisse - com que dificuldades.

O filósofo resolve mostrar aos seu concidadãos que a filosofia existe, o mundo é mais do que ouvir os galos cantar e fazer fofocas na praça depois do por do sol. Funda um jornal filosófico. E para que saia realmente bem feito, resolve editá-lo na única língua realmente filosófica: o alemão.

E nasce o Deustscher Kaempfer, o único jornal em língua alemã da cidade de Lagarto. Tobias Barreto é seu Diretor, Editor, Redator e também o único Leitor.

Um nascimento

São Benedito, Ceará, 1862

Nesta cidade com nome de santo, nasce um menino que não acreditará neles. Seu Marcolino faz uma festa para os amigos, onde a cachaça corre copiosamente. Não há seca nesta cidade serrana na fronteira com a província do Piahuy, e a festa pelo nascimento do pequeno Raimundo é quase uma continuação das festas juninas, que foram animadas como sempre. Também não há separação entre igreja e Estado neste Império nos trópicos. O vigário registra no livro de batismo, que também é o livro de registro de nascimentos: Nome - Raimundo de Farias Brito; Data -24 de julho de 1862; Filiação - Marcolino José de Brito e Eugênia Alves de Farias.

A Cidade de Vida Dupla

Sobral, Ceará, 1878

Todos são santos nesta cidade, pelo menos assim o crê o vigário, ao contemplar a massa de rostos sisudos na missa dominical. Nos bancos da frente ficam as grandes famílias, os donos do gado, da terras e dos corpos das pessoas. Não das almas, pois as almas pertencem a Igreja. Nos bancos intermediários, os meirinhos, copistas e caixeiros, serviçais e sustentáculos dos primeiros. E atrás, em pé, a arraia miúda.

"A base da vida na nossa cidade" - diz o vigário em sua voz tonitruante - "é o respeito à verdadeira religião".

À noite, nos cabaré da Porciúncula, perto do rio, os homens repetem essas vetustas verdades, entre goles de cachaça e com uma cabrita moreninha, maquiada e sorridente, sentada no colo. Na rua lá fora, os homens passam de cabeça baixa para não serem reconhecidos nem reconhecerem quem freqüenta a rua do pecado. Pode ser que o homem corpulento que passou agora seja o próprio vigário.

Enquanto isso, o jovem Farias decora as declinações do latim e do alemão. Acha fraco o curso de humanidades de Sobral, por isso estuda por conta própria. Os encantos da rua do rio o atraem, mas não tanto como a lei dos três estados do Positivismo ou a evolucionismo social de Spencer.

A Escola do Recife

Faculdade de Direito, 1880

"Monista ou Dualista?" - perguntam os veteranos, com cara de poucos amigos, ao novato que chega. Dependendo da resposta, o novato será abraçado como irmão ou execrado como rato.

Na faculdade de direito mais antiga do país, algo acontece algo para sacudir o pó das barbas dos vetustos lentes latinistas. Os navios trazem obras de Darwin, Haeckel e Spencer, que dizem que o mundo é produto da evolução e Deus, se existe, não importa muito. Os padres verberam dos púlpitos "a decadência moral do mundo moderno".

Os monistas crêem que só há uma substância, a matéria. Os dualistas crêem que existem duas, a matéria e o espírito. Quando os dois grupos se encontram, sempre sai garrafada nas estreitas vielas da Veneza do equador.
 

Um militar contra a vontade

Rio de Janeiro, 1880

Benjamim Constant não queria ser um militar. Gostava dos livros, particularmente os de geometria. Mas para viver teve de vestir galões dourados e se submeter aos gritos dos oficiais de cavalaria.

Para vingar-se do mundo, Benjamim Constant ensina a seus alunos da Escola Militar que o mundo evolui, isso é inevitável. E nesta evolução as cabeças coroadas devem rolar, inclusive a do nosso magnânimo Imperador.

Os Cearenses

Recife, 1882

Eles formam um grupo, embora integrado e sociável, facilmente definido e reconhecível. São os cearenses Clóvis Bevilácqua, Rodolfo Teófilo e Farias Brito. Os três são acadêmicos. Os três são devoradores de livros, e vivem o tempo todo juntos. O mestre Tobias Barreto os adora.

"As três cerejas em cima do meu bolo de aniversário" - diz o mestre.

Clóvis é metódico. Nas tavernas, ao pedir a conta, ele confere cuidadosamente, por escrito, item por item cada uma das despesas, e soma cuidadosamente as parcelas, pedindo um abatimento até por uma cerveja tomada só pela metade.

"Detalhista desse jeito, Clóvis" - diz Farias piscando o olho para Rodolfo - "você vai acabar escrevendo um código legal com mil e sei lá mais quantos mais artigos".

"E você" - diz Clóvis para vingar-se - "vai passar sua vida toda tentando compreender o mundo, mesmo sabendo que quem tenta isso acaba ficando doido".

Rodolfo está distraído vendo os restos de líquido nos copos. Elas lhe lembram tubos de ensaio, e como estudante de farmácia, ele adora os tubos de ensaio, esses castiçais que salvam vidas.

Os três rapazes se calam. Tomam um último gole e saem da taverna. A rua está escura, e lhes lembra o seu destino, que os assusta e fascina.

O advogado sem ilusões

Fortaleza, 1884-1899

Voltado do Recife, Farias advoga. Em Viçosa, terra onde o único assunto é falar de cachaça, é promotor público. Em Fortaleza, onde o assunto é o mesmo, é advogado e professor. Mas sabe que, para além das palavras empoladas dos compêndios jurídicos, existe a triste realidade de um país pobre e injusto: "Que os homens não são iguais - demonstra-o o com-plicado sistema das hierarquias sociais.  Que não são livres - demonstra-o a variada combinação de laços e sujeições a que está subordinado.  Que não são irmãos - demonstra-o o espe-táculo cotidiano da exploração do homem pelo homem." Apesar disso é preciso fazer as coisas acontecerem. Advoga, e de noite vai ler seus amados livros.

O Palácio crivado de balas

Fortaleza, 1892

Rei morto, rei posto. Quando Deodoro era o Presidente, todos gostavam dele. Era Generalíssimo, Excelentíssimo e Digníssimo Senhor Marechal. Agora que foi derrubado, todos subitamente descobrem que ele era um tirano. Os Presidentes de Estados vão todos mudando rapidamente de lado, todos enviando prontos telegramas de fidelidade ao novo governo constituído. Só um permanece fiel: o general Clarindo de Queiroz, presidente do Ceará, permanece fiel a ele.

"O Marechal é meu amigo. Fico com ele" - diz o General Clarindo.

O novo Presidente, o também Marechal Floriano Peixoto, não é homem de guardar rancor: ele se vinga logo dos inimigos para não ter de guardar nada. E por ordem dele as tropas cercam o palácio do Governo do Ceará. Lá dentro, o General Clarindo, sua família, seu genro Marcos Franco Rabelo e seu secretário Farias Brito passam uma noite de pesadelo, agachados enquanto as balas se cravam nas paredes.

"Um filósofo pensa o mundo. Pensando o mundo, pensa a vida. Pensando a vida, pensa a morte. Um filósofo deve estar preparado para morrer" - diz para si mesmo Farias, repetidamente, como um mantra, durante aquela madrugada insone.

No dia seguinte o governo é derrubado e o General Clarindo é mandado, junto com outros inimigos do governo, para Clevelândia, no Amapá, campo de concentração e paraíso da malária.

Os dilemas

Fortaleza, 1895

O mundo tem sentido, ou é tudo fruto do acaso? Esse é um dos grandes dilemas sobre o que todos se debruçaram. E Farias percorre as soluções que se tentou dar a esse dilema nos últimos 300 anos. Aguarda avidamente os navios que trazem os livros que encomenda a livrarias francesas e alemãs. Lê Schopenhauer e Hegel, Marx e Kant, Descartes e Wundt, Hume e Berkeley. Freqüentemente o desleixo dos carregadores lhe entrega seus livros molhados, já meio podres, mas pouco importa. Ler é preciso, debaixo da luz tênue do gás, assim como até há pouco fora com as lamparinas de óleo de peixe. Não tem pressa para publicar nada: não é como esses poetastros que publicam a primeira tolice que lhes vem à cabeça alegando que é inspiração. Demora para terminar sua primeira obra filosófica, mas hoje ele a tem nas mãos, recém-vinda da tipografia.

É o primeiro volume da sua obra A Finalidade do Mundo. Tem como título A filosofia como atividade do espírito humano.

Alguns lhe criticam a pretensão. Imagine, alguém aqui no Ceará, querer resolver essas grandes questões do espírito! Isso é para europeus, para gente atualizada, que acompanha de perto o debate filosófico, que conhece várias línguas, cujos escritos sejam de alto nível! Isso não é para gente que escreve entre coqueiros, com a rede embalada pelo vento aracati.

Farias sorri. Ele não é europeu mas é atualizado, acompanha de perto o debate filosófico, conhece várias línguas, e seus escritos são de alto nível. Por isso faz filosofia, e por isso não tem medo de criticar Kant.

O Mundo e sua confusão

Fortaleza, 1899

Farias Brito publica A Filosofia Moderna, o segundo volume da Finalidade do Mundo. Deus é luz, diz ele, mas o homem procurou Deus nas trevas, criando um falso deus que o oprime. Daí a confusão do mundo, onde o interesse é a norma de ação. É preciso mudar isso, diz o filósofo com suavidade e firmeza.

Os muitos poetas da cidade, todos gênios e todos mundialmente famosos, cochicham contra aquele sujeito que vive lendo e demora quatro anos para escrever um livro.

"Em quatro anos" - diz um deles - "dá para escrever uns dez livros".

O gênio vaidoso

Rio de Janeiro, 1900

Clóvis escreve a boa notícia a seu velho amigo Farias: o Ministro da Justiça, Epitácio Pessoa, convidara Clóvis a redigir o Código Civil.

"Favoritismo para as gentes do Norte" - dizem os advogados da Capital  Federal, despeitados que um paraibano escolha um cearense para tão insigne tarefa, principalmente considerando-se que ambos foram colegas de faculdade no Recife.

Mas a principal oposição vem de um dos "do Norte": o inteligentíssimo e igualmente vaidosíssimo advogado e senador Ruy Barbosa, baiano. Quando  exilado na Inglaterra, Ruy sobreviveu dando aulas em inglês para os ingleses. E na França, deu aulas de francês para os franceses. Ruy comprava todos os dias quatro ou cinco livros de direito, e os levava para casa escondido de sua mulher, com medo que ela reclamasse desse vício.

Planejava passar à história como o codificador do Direito brasileiro. Não o conseguindo, escreveu um ataque de mais de mil páginas contra a gramática do projeto.

Os teatros e a selva

Belém, 1905

Goodyear mostrou que misturando-se borracha com enxofre, o resultado é uma borracha mais durável, boa para as bicicletas que já começavam a invadir o mundo. Henry Ford provou depois que, dividindo o trabalho nas costas de muitos homens, se a monotonia do trabalho deles aumenta, o lucro do patrão aumenta mais ainda. Podem-se produzir e vender carros aos montes. Mas para tudo isso, é preciso a resina dessa planta esquisita, tão caprichosa de nascer em um só lugar que tem o lugar no próprio nome, Hevea Brasiliensis.

O trabalho é feito pelos nordestinos, o lucro fica nas mãos dos ingleses e americanos, mas o que sobra ainda traz imensas fortunas para os coronéis de barranco, que mandam lavar suas roupas em Lisboa, comem manteiga dinamarquesa e mandam construir teatros para as amantes. O Teatro da Paz, em Belém, e o Teatro Amazonas, em Manaus, são jóias arquitetônicas nestas cidades sem esgoto. E a classe média remediada também vem aqui em busca de uma vida melhor. Farias está aqui desde 1899. Além de advogar, ensina lógica e direito. Mas acima de tudo faz filosofia. Com o volume Evolução e Relatividade, conclui a Finalidade do Mundo. No mesmo ano começa os Ensaios sobre a filosofia do espírito com a obra A verdade como regra das ações.

O bilhete

Rio de Janeiro, 1909

O talento vale, mas os pistolões valem também, pensa o Barão do Rio Branco. E escreve um bilhetinho para o diretor do Ginásio Nacional, antigo Colégio Pedro II, ordenando que ele nomeie para professor de lógica o segundo lugar no concurso, e não o primeiro. O primeiro lugar fora Farias Brito. O segundo, o baixinho e birrento engenheiro e escritor Euclides da Cunha, o homem que garantira que o massacre de Canudos, aquele triste precursor do gueto de Varsóvia, não caísse no esquecimento.

Com dificuldades e sem emprego fixo, pediu a ajuda ao seu amigo Barão.

É nomeado.

Outro bilhete

Rio de Janeiro, 1909

Este bilhete, embora de amor, era a sentença de morte de Euclides.

O amante de sua mulher escrevia a ela, e tais bilhetes sempre caem na mão do marido. Euclides vai lavar a honra com sangue, e o amante de sua mulher, exímio atirador, o mata.

Este trágico acontecimento vem de forma inusitada restaurar a justiça no concurso: Farias Brito é nomeado para a cadeira de lógica.

O Espírito e a matéria

Rio de Janeiro, 1914

Farias publica O Mundo interior. Junto com A Base Física do Espírito, publicada dois anos antes, completa sua obra Ensaios sobre a filosofia do espírito. Seus alunos o adoram, os que têm conhecimento para avaliar sua obra o admiram. Os padres não o toleram, desde que escreveu que todas as religiões estavam mortas.

Os profetas

Rio de Janeiro, 1917

...parecem sempre destinados a morrer jovens. Seu velho mestre Tobias morreu há muito tempo, aos cinqüenta anos. Benjamim Constant aos cinqüenta e oito. Farias não chegaria a tanto. O Jornal do Commercio noticia: "Ontem, dia dezesseis de janeiro, morreu Raimundo de Farias Brito, a Coruja de Minerva que pousou nas plagas do sertão".
 

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Leia a primeira seção de A Filosofia Moderna

Leia resumos de teses e dissertações sobre a obra de Farias defendidas na UFRJ e UGF.