Economia é fantasia

Paulo Avelino
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Exatamente na terça-feira de carnaval, dia sete de março de 2000, a bolsa de Nova York registrou a quarta pior queda de todas da sua história, o crack de 1929 incluído. E a terceira não está muito longe, aconteceu ano passado quando a roubalheira que governa a Rússia depois do socialismo derrubou a economia do país desestabilizando até nossa triste taba tupiniquim.

A data foi sintomática, economia capitalista tem bastante a ver com carnaval. Muita purpurina, agito, fantasia, suor, mas quando se desmontam os carros alegóricos não resta muita coisa.

As grandes alegorias são as empresas que atuam na Internet, a chamada “Nova Economia”. Até aquele dia só se viam artigos e opiniões sustentando de maneira cabal e insofismável que se devia comprar ações daquelas empresas, quanto mais melhor. Pululavam notícias de pessoas, de preferência do tipo assim, João Quase-Nada era só um adolescente masturbador em Denver ou San Francisco e fez um milhão de dólares com sua e-empresa, e aparecia a cara de um boboca cheio de espinhas e sardas rindo feito um pateta, brandindo sempre a ameaça de não chamá-lo de pateta pois ele reagiria dizendo que patetas somos nós, que não colocamos e-empresas nem fizemos um milhão de dólares.

E isso causou a coisa mais louca, enquanto as ações das empresas tradicionais caíam com a alta na taxa de juros as empresas de nova tecnologia disparavam em mais de 50% em apenas três meses em relação às outras. Oh, é natural, diria o Conselheiro Acácio, pois se são empresas lucrativas. Não, caro Acácio, essas empresas acumulam prejuízos monstruosos, quase todas estão levando canos fenomenais que fariam qualquer pessoa sã fugir correndo delas. Quanto mais elas davam errado mais as suas ações davam certo. Lucros futuros? Bem, os lucros da turminha que manipula isso são bem presentes.

Depois da fatídica terça-feira apareceram alguns dizendo que “talvez esta alta desmesurada das ações das empresas da Internet seja uma bolha”. Bolha é um nome bonito para coisas como enrolação, esperteza, malandragem, roubo. Vou contar uma história que aconteceu lá por 1820.

Naquela época chegou um sujeito em Londres, ele dizia que vinha de um país muito distante, e trazia belos papéis de procuração que foram considerados válidos e legais por todos os que os viram, papéis artisticamente finos e decorados. Coisa de rei, o rei de Pouyais. Este era um país na costa do que chamamos atualmente de América Central. Era um país ordeiro, tranqüilo, com florestas que podiam ser derrubadas e fazer com elas uma bela produção agrícola, rios que transbordavam não só de águas como de pepitas de ouro, que estavam lá só ao alcance da mão. E este país rico e dadivoso no entanto precisava de um empréstimo. Era moleza, o país poderia pagar qualquer quantia que se quisesse emprestar, a qualquer taxa. Era um negócio da China, antes mesmo dessa expressão existir.

E o homem recebeu elogios dos jornais e as pessoas disputaram a tapa o direito de comprar belos títulos de Pouyais, enfeitados com araras e outros pássaros exóticos Taxa de juros lá em cima, garantias totais, perspectivas de ganhos absurdos e tudo o mais. E outros se seguiram. Gente que se dizia representando países em guerra, sem dinheiro, sem estrutura e mesmo sem governo lançavam títulos e títulos no mercado, todos acompanhados de garantias dados pelos mais experientes banqueiros de que os títulos eram uma barbada, e por artigos de jornal afirmando os sucessos retumbantes desses países, Pouyais à frente. Surgia uma ou outra opinião discordante, mas quem liga para derrotistas? Artigos  e artigos sobre gente que ficou milionária. Vejam, uma governanta, uma simples governanta, aplicou nos títulos de Pouyais e ficou rica! Vejam esse outro, esse carvoeiro! Tem hoje uma carruagem de quatro cavalos! Você tem uma carruagem de quatro cavalos? Invista em títulos e terá!

É claro, depois se descobriu que Pouyais não existia e os títulos passaram a não valer nada. E então os jornais se encheram de conscienciosos artigos de jornalistas dizendo que eles sempre desconfiaram daquela história toda. Os banqueiros, enquanto contavam o dinheiro das comissões recebidas, lembraram que sempre advertiram o público contra aquela loucura. Os grandes investidores revelaram que foram previdentes, e embora tenham comprado e vendido ações de Pouyais e de outros países no começo a lucros milionários, eles caíram fora a tempo. Quanto aos pequenos, o povo é imprevidente mesmo. Como puderam acreditar numa coisa tão boba como um país imaginário? Tem mais é que levar o prejuízo. E os conscienciosos jornalistas, políticos, intermediários e grandes investidores, todos estes fiquem em paz amém com seus lucros, e quem for otário que caia na próxima.

Na próxima terça-feira de carnaval.