Resenha de livro raro: O Cativeiro, de Dunshee de Abranches

Paulo Avelino
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DUNSHEE DE ABRANCHES Moura, João. O Cativeiro (memórias) . 2a ed. São Paulo:     ALUMAR, 1992. Coleção Documentos maranhenses. Introdução de Jomar Moraes.

Em São Luís existe um trecho de rua de três e quatro andares. É a rua Portugal, hoje o coração turístico da cidade e uma ruas mais bonitas do país. No quarteirão de trás desemboca o beco da Mina, o beco de uma escrava Mina (ou seja, da região costeira da África ocidental) que enriqueceu e foi inclusive dona de escravos.  Perto fica a rua da Alfândega, na esquina do restaurante onde eu estava, olhando para um sobrado antigo hoje sendo restaurado para se tornar hotel. Estava portanto na própria vizinhança em que a história aconteceu.

Amélia era filha de escrava e de um português, alforriada ao nascer. Bonita, forte, saudável, os dentes muito brancos, sempre bem humorada, vivia pelo centro comercial da velha São Luís, onde tinha uma quitanda, lá por 1870 e poucos. Vendia café, mingau de milho, arroz de cuxá e cuscuz aos caboclos da feira e caixeiros. Era conhecida como a Princesa da Calçada do Açougue. A beleza e o bom humor lhe trouxeram muitas propostas de casamento e coisas parecidas, mas a Princesa recusava todas. Era virgem aos vinte e sete anos.

Como nos romances românticos, a Princesa tinha um segredo. Sua mãe Amélia, ama de leite de muitas crianças ricas, ainda era escrava. E a princesa crescera com a obsessão de conseguir a liberdade da mãe. E para isso trabalhava como louca juntando dinheiro. Não tinha tempo para pensar em amor. Era virgem aos vinte e sete anos. Juntou a quantia de um conto e duzentos mil réis, muita coisa para a época.

Sua mãe era propriedade de Dona Evarinta, mulher riquíssima, esposa de Antônio Marcelino Nunes Gonçalves, o Visconde de São Luís. O plano da Princesa era simples. Na véspera do dia de São Benedito, que geralmente caía em fins de abril, faziam-se muitas *libertações de pia* de bebês escravos. Ela ofereceria suas economias a D. Evarinta, e esta libertaria sua mãe como ato caritativo, embora não muito.

Foi lá em companhia de um menino rico, de seis anos, que fora alimentado com leite de sua mãe. Este se sentou no colo de Dona Evarinta. A princesa entregou a caixa que o menino recordaria depois cheia de patacões e pratas de mil. Pediu a liberdade da mãe. O Visconde marido de D. Evarinta assistiu a tudo, pareceu se comover mas não disse nada. A mulher do Visconde não quis libertá-la. Com cara de quem se sentia pressionada a fazer o que não queria disse que iriam ao Rio e lá decidiria o que fazer. A princesa ficou chocada, e mais ainda o menino, que revoltado desceu do colo da mulher.

A princesa não desistiu. Foi ao Rio de Janeiro disposta a se jogar aos pés do próprio Imperador. Mas não foi necessário. Foi ao Senado. Lá encontrou-se com o Visconde e lhe ofereceu a caixa. O político sorriu, pediu papel e pena e lá mesmo, sobre a bancada do senado, deu a liberdade á mãe.

Voltaram a São Luís. Missão cumprida, a Princesa da Calçada do Açougue dizia, “Agora sim, vou saber o que é o amor!...”

É de pequenas histórias como essa que se compõe O cativeiro, livro do maranhense Dunshee de Abranches (1867-1941). Junto com o romance histórico A Setembrada, sobre a revolução liberal de 1831, e as memórias A esfinge do Grajaú, compõe a trilogia memorialística do autor sobre o Maranhão. O autor (1867-1941) foi político de destaque, tendo deixado testemunhos preciosos sobre a política na época. Foi também fundador do Jornal do Brasil. Esse livro testemunha uma época em que o Maranhão era um dos pólos de opulência e poder do país, ainda no rescaldo da prosperidade do açúcar e do algodão. Aliás, e esse é um dado cruel que o autor deixa claro, a prosperidade não era do açúcar nem do algodão, mas do escravo. A riqueza não estava nos produtos, ou melhor, passava pelos produtos, mas se constituía mesmo da indústria da morte e do sofrimento que era a escravidão.

O livro fala da repressão à Balaiada, de estabelecimentos de ensino, e das peripécias da vida de pessoas valentes que fugiam da opressão e de casamentos infelizes, como o caso da mãe dos escritores Arthur e Aluísio Azevedo. E no meio algumas histórias ótimas como essa da princesa da Calçada do Açougue. Interessante que a Princesa no final perdoou Dona Evarinta. Mas o seu irmão de leite, o menino de seis anos que desceu do colo, esse não perdoou. Passou a odiar a escravatura. Esse menino era o autor do livro. Tornou-se um líder na luta pela abolição. É outra das histórias do livro.

Dunshee de Abranches

Dunshee de Abranches