Doze anos

Quando eu tinha doze anos de idade, meus seios começaram a crescer. Ao contrário do que dizem os livrinhos de editoras religiosas, do tipo "Torno-me uma Mulher", ou "A flor da adolescência", cheios de pétalas de rosa ou de mocinhas louras à beira de lagos na Suíça, isso não tem nada de poético. No começo me senti incomodada por aquelas pontas que inchavam e começavam a pressionar minhas blusas, por aquilo que acontecia em mim mas totalmente fora de meu controle. O pior foi quando, mês a mês, aquilo começou a inchar cada vez mais, arredondar-se, ser visível. Percebi que meus seios já eram do tamanho de algumas mulheres adultas, e parecia que não paravam nunca de crescer. Era na verdade algo que se podia esperar, seios grandes eram a tradição do lado feminino da família. Minha mãe me olhava com o olhar complacente, meu pai visivelmente se perturbava, e evitava olhar na direção de meu busto. No geral todos pareciam felizes. Menos eu. Eu não gostava daquilo, procurava escondê-los, aprendi a usar blusas frouxas, andava na escola tipo como se fosse uma neandertal, um pouco curvada e com os ombros projetados para a frente, de preferência com os livros agarrados sobre o peito. Essa altura já estavam bem desenvolvidos, os inchaços, como eu os chamava, eu começava a sentir-lhes o peso. Dizem que o ser humano carrega sem sentir o próprio peso, mas não era o meu caso. Eu sentia claramente aquelas coisas pesando, me puxando para a frente, deslocando minha gravidade, me obrigando a fazer um esforço para não me deslocar para a frente. Um dia me bateu uma idéia terrível. Eu seria obrigada a carregar  aquelas coisas pelo resto da vida. Gostasse ou não, querendo ou não. Como todos os adolescentes, tinha sonhos dourados para mim mesma. Mas todos esses se desvaneciam quando eu pensava que, mesmo no mais belo dos palácios e na mais linda das ilhas eu teria de levar aquelas coisas comigo, contra a minha vontade, pesando, me incomodando. E de repente todos os meus sonhos dourados me pareceram cinzentos, o futuro me parecia triste e sem graça.

Surgiu-me uma idéia: eu não tinha muita informação, mas sabia que meus seios cresciam por algo que ainda não acontecera, mas estava muito perto, chamado menstruação. Uma coisa estava ligada à outra. Então eu decidi não menstruar. Se não menstruasse, os seios iriam acabar sem apoio, iam desinchar e eu ia voltar a ser eu mesma. Desnecessário dizer como fiquei decepcionada quando menstruei pela primeira vez. Pareceu-me uma derrota pessoal. Mas não desanimei. Em algum lugar eu tinha sabido que o frio corta a menstruação, que a mulher para menstruar não podia tomar gelado. Então eu passei a tomar água gelada direto, chupava cubos de gelo até minha boca ficar dormente, ficava horas debruçada em frente à geladeira aberta, me acostumei a dormir de janela aberta em noites de vento frio. E deu certo. Um mês inteiro passou. E nada aconteceu. Mais outro, e nada. Senti que minha vitória estava perto. Mas eu não podia desanimar, eu continuava o tratamento do frio, apesar das reclamações da minha mãe ao meu hábito de morder gelo. Mas um dia, meses depois, veio a segunda. A maldita segunda. E depois a terceira, e a outra e a outra, pontualmente. Eu me senti fracassada, o tratamento não rinha dado certo. Eu ia ter de conviver com aqueles pesos pelo resto de minha vida.

A escola era dividida entre dois grupos, o das "meninas" e o das "moças". Quase não se misturavam. E eu não fazia parte de nenhum dos dois. Um dia, as líderes do grupo das "moças" chegaram para mim. A Ana Paula, a Carol, a Bituca. Me convidaram de uma maneira muito direta para fazer parte do grupo delas. Eu disse que não queria. E elas me pressionaram porquê, e eu dizendo que não, e elas me perguntando de novo. E finalmente eu disse quase gritando que eu não gostava daquilo, eu não gostava de nada daquilo. Não gostava principalmente daqueles pesos horríveis me puxando para a frente, e me obrigando a andar que nem um macaco para disfarçar. Elas me disseram que era natural, acontecia por que eu  estava crescendo, eu disse que continuava não gostando. Elas disseram que é natural que eu tivesse os seios um pouco grandes, minha mãe era assim, eu disse que continuava incomodada do mesmo jeito. Elas usaram todos os argumentos que puderam lembrar e eu disse que eu ia acabar com aquilo, algum dia de alguma forma eu ia voltar a ser o que era. Finalmente desistiram. A última a ir foi a Bituca, uma garota de cabelos pretos, que até então não tinha falado nada. Ela deu uma paradinha no marcar os chicletes, e disse: "como o mundo vai ficar um tantinho menor - e ela indicou um tantinho com os dedos - sem você inteirinha, com os seios e tudo". E foi embora.

Aquilo me ficou na cabeça, eu e meus seios, ela disse, eu inteira, ela disse. Fiquei curiosa em saber o que seria esse inteiro. Em casa pela primeira vez me olhei no espelho, sem desviar o rosto a olhar um detalhe ou outra. Isso sou eu, pensei. A cabeça cheia de idéias, minha mãos um tanto magras e de dedos longos, boas para desenhar como disse alguém, e até os pesos, como eu os chamava. Tudinho eu. Pronunciei meu nome, e parecia que era a primeira vez que o ouvia. Veio-me uma de ser imensamente feliz por estar ali, naquele lugar, por ser eu. Até dancei um pouquinho pelo quarto. E pus os braços para cima. Meus seios se destacaram. Um pouquinho grandes, é verdade. E um pouquinho pesados. Mas eram eu, eu inteirinha. E dancei mais. A partir daí deixei de andar como neandertal, passei a andar erguida, cabeça para cima, busto e tudo. Eles eram, eu era assim. Fizemos as pazes, eu e eles. Meus.
 

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br