O Diplomata

Paulo Avelino
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Tive provavelmente a carreira diplomática mais curta da história da humanidade, alguém poderia me chamar de anti-Metternich, ou para ser mais próximo, anti-Barão do Rio  Branco. Talvez a razão do fracasso tenha sido minha pouca idade, eu mal tinha dezessete anos, e estava como sempre quieto no meu canto, no começo da aula de geografia. Bem, havia os que não estavam quietos no seu canto, também como sempre. Tinham feito alguma, francamente não lembro qual, eram tantas. O Prof. Clóvis Dottori, uma das pessoas mais cordatas e pacientes não só do Planeta Terra, creio, mas também de toda esta parte da galáxia, quiçá dela inteira, mandou-os para a coordenação.

Tal como Constantinopla, Verdun e outras fortalezas inexpugnáveis e famosas da história militar mundial, a coordenação do terceiro ano do Colégio Santo Inácio do Rio de Janeiro ficava numa encruzilhada de caminhos. Situava-se estrategicamente ao lado da escada que se comunicava com o primeiro e o terceiro andares, ao meio do corredor que dividia as turmas do terceiro ano e na ponta de outro corredor que dava acesso à biblioteca e às séries menores. De lá com uma olhada se controlava tudo. Lá reinava impávido, acompanhado de seu pequeno estado-maior, o Senhor Georges, o coordenador do terceiro ano, o comandante indiscutível de trezentos e cinqüenta adolescentes.

Bem, depois de uns poucos minutos de aula, o Prof. Clóvis declarou que já era punição suficiente. Então ele se virou para mim e me mandou à coordenação negociar com o coordenador gerge a anistia aos "culpados". Logo para mim. Tanta gente para mandar, tanto aluno veterano e já articulado, os nomes adolescentes me vêm à cabeça agora, Geir, Ana Lúcia, Gaúcho, Giselle, Márcia Lacombe, Pedro Tostes, outro Pedro, o Faveret... Não. O homem manda a mim. Como instrução ele me disse algo como, "ora, o Georges vai compreender, afinal, perdoar é a virtude suprema dos deuses".

E lá fui eu. Nos poucos passos que separavam a turma 31 da fortaleza da coordenação caminhava alguém torturado pelo dilema, um plebeu subitamente alçado a ser negociador entre príncipes. Eu nem prestava atenção nos alunos de outras turmas que me atravancavam o caminho. Eu deveria chegar sério, de cara quadrada que nem o George, e - já que o assunto era sério - solicitar em nome do professor de geografia a "soltura" dos colegas? Tanta sisudez poderia parecer provocação. Devia, por outro lado, em razão de minha pouca idade, e considerando que muitos adultos acham que o adolescente tem a obrigação de viver rindo, chegar descontraído, brincando, e rindo às bandeiras pedir que eles voltassem à aula? Ou alguma coisa entre essas atitudes extremas? E se eu fosse direto ao assunto, correndo o risco de ser antipático? E se fosse indireto, começando a falar "como estava lindo o dia, bom dia para ser misericordioso, o prof. Clóvis também achava, é por isso que ele estava solicitando..."

Cheguei à nossa Verdun inaciana, que por sinal estava cheia, a armação, como se dizia na época, envolvera o grupo de sempre em sua formação completa. Na sua mesa em meio dos uniformes brancos, Georges puxava uma caderneta. A horrível caderneta. Não sei por que tão poucos adultos lembram, mas para um adolescente muitas vezes a morte não assusta, mas uma punição registrada na caderneta é um círculo que Dante se esqueceu de pôr no inferno.

Criei coragem e abri caminho entre os colegas. Georges olhou para mim. Eu em meio aos  colegas cuja "soltura" deveria conseguir. Georges interrogou-me com o olhar o que eu queria.

E eu levantei o queixo - o momento era solene - empostei a voz o mais que pude e pronunciei as sábias palavras.

-  "Perdoar" - disse eu - "é a virtude suprema dos deuses!".

Dito isso, olhei em volta a meus colegas surpresos, declarei finda minha missão, e voltei para a classe. Pobres colegas que dependiam de minha habilidade como diplomata. Depois eu soube que não foram punidos afinal. Sorte deles. E minha também, não fiquei com o episódio na consciência. Foi minha última missão diplomática.