Despersonalização e unidimensionalidade

(considerações em torno de uma crise renal)

 
Paulo Avelino
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ICQ# 53760772


A saúde além de muitas coisas é um status no sentido que os romanos davam à palavra, um estado dentro da sociedade. É algo que os outros conferem e que determina a forma com que lidam com você. E que não tem muito valor - ou sequer existe - se não é reconhecido. Existe uma peça de Guilherme Figueiredo chamada “A raposa e as uvas”, que fala da vida de Esopo. Instado a fugir de seu proprietário, Esopo – que era um escravo – diz que quer que o patrão lhe conceda a liberdade oficialmente, de forma a que todos saibam disso – viver fugindo não é opção. Do mesmo modo a saúde. Sua existência depende do reconhecimento público.

Basta uma dor intensa, que depois se revela um cálculo renal, e a pessoa perde o status de saudável e de certa forma o de pessoa. A pessoa, agora transformada em paciente, um nome significativo, não vai aos lugares, é levada. Eu que pouco antes dirigia meu carro agora era levado a hospitais no banco traseiro de carros de outras pessoas. As pessoas falavam entre si, se afastavam e discutiam, tomavam decisões, os médicos decidiam coisas sobre minha vida na minha presença sem pedir minha opinião. A primeira característica de uma doença é seu efeito de despersonalização. Médicos fazem isso com a maior naturalidade, treinados que foram exatamente para executar tal transformação despersonalizadora.

A realidade central e quase única de quem sofre uma crise renal é a dor. A dor é algo difícil de falar sobre, ela simplesmente é. Só permite que se fale dela quando não é muito intensa. Podemos então dizer algo sobre ela, que por exemplo vem em espasmos, etc. Não é o caso da cólica renal, uma dor que invade e não dá tréguas. A pessoa se transforma em dor, e a única perspectiva de futuro é o fim da dor. O futuro se torna ao mesmo tempo simples e doce, e a dor é tão forte que sequer se permite lembrar com saudade do tempo anterior, um passado que agora é reduzido à condição de suave tempo sem-dor.

Isso leva a um outro aspecto. A pessoa humana tem várias dimensões. Os antigos falavam da tripartição, corpo, alma e espírito. No entanto a dor intensa transforma a pessoa numa coisa só, o corpo. E o corpo não vale muito no mundo humano. Ser corpo não é ser gente. Isso fica bem claro: as pessoas falam de você na sua presença sem lhe dar importância, injetam substâncias perigosas em você sem sequer lhe dizer para quê.

Creio que o insuportável da dor é exatamente isso: ela nos reduz à corporeidade. Viver sendo só um corpo não é viver. E quando mais forte a dor mais somos simples corpo. Sempre desconfiei de livros e idéias que propugnam uma certa “volta ao natural”, afirmando que nas coisas simples da natureza o ser humano se encontra – o que depende demais do que é que se chama “simples” e do que se entende por “natureza”. A chamada “literatura feminina” por exemplo me enoja, com suas descrições de odores, excreções e orgasmos, coisa meio escatológica. Certa literatura americana, fortemente anti-intelectual, onde o conhecimento livresco é tido como “inútil” diante do “verdadeiro” conhecimento que seria, por exemplo, como derreter banha na frigideira – isso me parece coisa de rico que sempre comprou em supermercados e idealiza a “natureza”. O ser humano é cultura, é o que ele faz. Por isso se torna compreensível a tendência de querer que a vida cesse diante da dor constante e sem perspectivas de cessação. Viver com dor é viver só com a dimensão corpo, ou seja, é não ser pessoa, não ser humano. E é insuportável não ser uma pessoa.

Outro aspecto curioso é o das crianças. Do século XVIII para cá mais ou menos há uma idéia de endeusamento das crianças, que em alguns casos tem criado perfeitos ditadorezinhos de menos de um metro de altura. É consenso que as crianças são uma gracinha, são a alegria, etc etc. Crianças são pura corporeidade, e tanto mais pura quanto mais novas são. Certas “gracinhas” e coisas que fazem são mera manipulação para a satisfação de necessidades fisiológicas, principalmente a de comer. Crianças têm um interesse obsessivo e quase único nas necessidades de seu corpo. Por isso não me interessam muito.

É um privilégio - na verdade o único privilégio – poder trabalhar, ler, cantar, enfim fazer qualquer coisa que mesmo se fazendo com o corpo não é mera corporeidade. E para quem crê, a única oração de agradecimento deveria ser “Obrigado, Senhor, por eu ser mais que um corpo!”

E os anjos digam amém.