Resenha: Soldados de Salamina, de Javier Cercas


Paulo Avelino
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CERCAS, Javier. Soldados de Salamina. São Paulo, 2002. 241pp. Tradução Wagner Carelli.

País rico, literatura rica. Ou pelo menos, literatura abundante. Em número de livros. E a Espanha está ficando um país rico. Não era até bem pouco. Mas agora está ficando em grande parte com dinheiro levado desta América Latina teta do mundo – as Telefonica e Repsol da vida estão por aqui não é por outro motivo.

Mas Javier Cercas não tem culpa disso. Faz parte da nova safra de escritores espanhóis. Cria nesse livro um alter ego – um jornalista fracassado que se mete a escrever livros, fracassa nisso também e volta ao jornal e aí sabe da existência de um velho e não muito bem sucedido poeta falangista chamado Rafael Sánchez Mazas, que teria sido capturado pelos republicanos e lá pelo finalzinho da Guerra Civil teria escapado de um fuzilamento. Encontrado por um soldado republicano, este não revela sua localização aos outros, e assim lhe salva a vida. Curioso, o jornalista procura dados, entrevista uns e outros e daí sai o livro, um livro dentro do livro, que se chama Soldados de Salamina, e que relata esse episódio. Ficamos sabendo um pouco sobre Sanchez (uma figura real), de seu filho Ferlosio, romancista, e de seu outro filho, Miguel, um filósofo que seria depois exilado do franquismo, sobre figuras hoje esquecidas do fascismo espanhol e também sobre a Guerra, prisioneiros, perseguições e fomes.

O começo é bom. Lembra um pouco o bom romance policial. A figura do Quixote urbano, essencial fracassado levando porradas da vida e ás vez de punhos mesmo, tendo ao lado uma Dulcinéia de reputação muitas vezes não tão ilibada é uma das imagens mais sedutoras da literatura moderna. (A imagem do protagonista como Quixote moderno é de Carlos Fuentes). Mas infelizmente o autor não avança muito nisso. O jornalista não tem os vícios ou vicissitudes atravessadas pelos bons personagens do gênero. Só no começo. Um certo cinismo que o protagonista tinha no princípio vai se perdendo ao longo do livro, o que é uma pena. E o autor de vez em quando resvala no lugar-comum e na frase banal e dispensável - todo romance está cheio de frases banais, mas as dispensáveis não podem ter lugar. E esse resvalar no lugar-comum incha de forma violenta no fim do livro, onde o autor faz uma peroração de como aqueles que combateram o fascismo foram esquecidos – talvez a parte mais fraca do livro. E termina com um curioso fluxo de consciência. Enfim, é romance que começa bem, e vai perdendo fôlego ao longo do livro. Mas termina antes que perca fôlego de vez.
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