Carta a um jovem poeta (por um não poeta)

Paulo Avelino
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ICQ# 53760772
[Um jovem poeta me escreveu. Essa é a resposta que fiz a ele.]
 
 

Caro Caio,

Você tem catorze anos e revela que quer ser poeta. É uma boa idade para isso, e não digo isso poeticamente (!), mas por que com essa idade você terá tempo para se aperfeiçoar. Há grandes poetas que se decidiram aos nove. É uma boa idade a sua.

Você enviou um poema falando de mães. Mães são um tema válido. Namoradas são um tema válido. A pátria, também. Pulgas, cachorros vadios, latas enferrujadas que um menino de rua chuta distraidamente na calçada, a derrota do meu time, as proezas do arcanjo Gabriel no combate aos demônios, tudo isso são temas válidos.

Dizem que Churchill, quando pediram que dissesse uma mensagem à juventude, disse apenas: “Nunca se dêem por vencidos. Nunca, nunca, nunca...” Eu poderia dizer algo parecido: “Não confunda o tema com o poema. Nunca, nunca...”

O tema é uma coisa, o poema é outra completamente diferente, e as virtudes de um simplesmente não se comunicam para o outro. Se você escreve um poema e as respostas que você tiver se referirem ao tema, elogiando o tema, tome isso como sinal de que está no caminho errado.

Por isso, não precisa se preocupar em escolher Os Grandes Temas (assim mesmo, com maiúsculas): Amor, Mãe, Morte, Solidão... O que não significa que sejam proibidos.

Pense em quantas pessoas já passaram por esse mundo antes de você. Quantas pessoas escreveram. A cada dia eu me surpreendo mais com quanta coisa maravilhosa se encontra escondida em prateleiras de bibliotecas. Será que essas pessoas deixaram algum tema original, não tocado, para você? A resposta é não. Todos os temas, caro Caio, já foram explorados (e muito bem explorados) por gente muito boa. E isso não é de hoje, creio que quando os gregos entraram em decadência todos os temas já tinham sido devidamente visitados.

Então, há algum sentido em escrever hoje? Por que não ficamos simplesmente reeditando e lendo as maravilhas do passado?

Porque as coisas precisam ser ditas e reditas de forma nova e impactante. As palavras e expressões são como facas, elas se desgastam. E a mesma coisa precisa ser dita de outra forma, de uma forma original. Esse é o sentido de você escrever, é o sentido de qualquer um escrever.

Diga as coisas de forma original. Invente metáforas novas, comparações inusitadas. Existe um veneno para o poema ou para qualquer tipo de literatura, que se chama lugar comum. Não diga que sua amada é linda e você não poderia viver sem ela. Não diga que se sente só. Ou melhor, diga... mas de forma original, nova.

Outro Nunca: não veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do seu eu ou coisa parecida. Poesia é uma arte, é um fazer, é um trabalho. Se diante de um poema seu uma pessoa elogiar a sua pessoa, do tipo “que pessoa linda que você é” aceite educadamente, mas sempre se conscientize de que essa pessoa elogiou um autor que não é você, é o autor do poema, que não se confunde com você pessoa física. Vou tentar explicar melhor.

Existiu um poeta português no começo do século que escreveu alguns dos poemas mais conhecidos da língua. Além da qualidade indiscutível do seu trabalho esse poeta tinha um diferencial em relação a outros grandes poetas, ele escreveu coisas importantes sobre o fazer poético. Ele disse uma coisa bem conhecida mas que muita gente boa passa por cima: “o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”. Ou seja, você não precisa estar apaixonado para escrever um poema de amor. Você pode escrever um belo poema de louvor a Deus e ser um ateu. Sobre a pátria e não ser patriota. Quem tem de ficar com/movido com o seu poema é o seu leitor, não você! Assim, se alguém lhe diz que você é uma pessoa linda, ou uma bela alma, pense assim, a pessoa que eu fingi ser é linda, não necessariamente eu. E como diz o poeta, essa pessoa (ou essa Pessoa) fingida pode ser até você mesmo, e nem por isso será menos fingimento! Não precisa fazer de sua poesia um strip-tease das próprias emoções. Esse poeta tem uma frase cortante a respeito: “Sentir? Sinta quem lê!” Claro que você sabe que estou falando do velho Fernando.

Você está tendo, e terá por algum tempo, aulas de literatura. Saiba que seu professor de literatura vive noutro mundo, bem diferente do seu. Não se trata de inferioridade ou superioridade, apenas de tarefas e visões diferentes. O professor, ou qualquer crítico, tem uma função de analisar e depois fazer uma síntese. Ele busca dar um significado. É a função dele.  Ele chega ao macro. Você tem de partir do micro. Atribuir grandes significados não é tarefa sua. Você tem que buscar uma técnica. E com o tempo você dominará essa técnica, você ficará à vontade com ela, brincará com ela (como sempre gostamos de brincar com algo que fazemos bem), e as sínteses devem primordialmente ficar a cargo de outros. Seu professor, por exemplo, dirá que tal poeta “é a autêntica expressão do seu tempo”, ou que tal poetisa “expressa perfeitamente a alma feminina”. Nunca tente partir de tais afirmações gerais para a sua poesia. Você poderia ficar pensando “como fazer esse poema ser a expressão do meu tempo, ou dos anseios da minha geração”? Não pense assim. Crie uma técnica, coisas originais, que funcionem, que dêem certo. Para isso precisa ler muito. Leia os clássicos e fique atento ao que foi publicado hoje na resenha do jornal. E as grandes sínteses do significado da sua poesia, deixe para os outros.

Bem, é isso. Você escolheu ser poeta. É uma vida difícil. Mas qual não é? Se você me dissesse que queria ser médico eu diria a mesma coisa, analista de sistemas, a mesma, professor... engenheiro... Você vai navegar num mar de amadorismo e muitas vezes vai se sentir imensamente só. Mesmo que esteja cercado de mulher, parentes e amigos e pessoas que o amam, sua solidão profissional vai tão espessa que você vai poder até tocá-la. E os resultados vão demorar, talvez quando surjam você nem esteja mais interessado em louvores dos outros. Mas se é chamado é chamado, e nisso eu não diferencio a literatura de qualquer outra profissão. O cara tem uma tendência para aquilo. Se vai ter determinação e coragem para atender o chamado é outra história. E sequer você pode se orgulhar de ter vocação. Não foi você que escolheu, foi escolhido, e portanto não é mérito.

Enfim, coragem, firmeza e paciência.

Abraços,

Paulo Avelino

28/10/2000