Brasília, uma crônica

Paulo Avelino
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Brasília é a herdeira dileta de uma revolução que aconteceu na urbanística desde o século passado. E esta revolução começou em Paris. Já viu o filme “O Corcunda de Notre Dame”? Tem uma cena em que o corcunda se balança numa corda entre a Notre Dame e uma casa próxima. Quem já foi a Paris se espanta: não há casas em frente à Notre Dame! Mas havia, antes das reformas do século passado destruírem a cidade quase toda, excetuando só algumas poucas igrejas e palácios. Passaram uma plaina em Paris – então uma velha cidade medieval - e a reconstruíram toda, com avenidas e praças enormes e os palácios bem conhecidos.

Qual a finalidade dessa reforma? Segurança. Não das pessoas, mas do Estado. Umberto Eco diz que o melhor local para fazer uma manifestação é numa praça ao lado da qual exista um velho bairro de vielas tortuosas e estreitas. Quando a polícia chega a multidão entra nas vielas e a polícia tem medo de entrar, pois é obrigada a se dividir em pequenos números e em alguns casos pode ficar até em minoria frente aos manifestantes. E isso não é uma realidade distante de maneira alguma. É exatamente o que acontece nas nossas favelas.

Assim a Paris napoleônica foi reconstruída com avenidas enormes, uma Praça da Concórdia enorme – e enormes também eram as porradas que a polícia dava nos manifestantes, presas fáceis do cassetete. Uma cidade onde um policial a cavalo controla uma multidão, o sonho de todo Príncipe.

É o caso de Brasília, a cidade ideal para o controle. E olhe que em Brasília não se adotou uma das novidades de Paris, a esquina de canto obtuso. Veja, as esquinas são ângulos de 90o, retos. Mas em Paris as esquinas foram cortadas em dois ângulos de mais de 90o cada, dois ângulos obtusos. Por que isso? Para dificultar um atirador, um revolucionário qualquer, de ficar entrincheirado numa esquina e ameaçar as tropas do governo... Isso também existe na parte velha de Fortaleza, por um regulamento urbanístico do começo do século.

Há uns dez anos estava com uns amigos num comício logo em frente ao Congresso Nacional, ali naquele trecho em que a grama rebaixa entre os Ministérios da Justiça e das Relações Exteriores. Estávamos decepcionados com o número de pessoas. Havia claros visíveis no terreno, nem de longe o setor rebaixado do gramado estaca ocupado. Depois de terminado, ficamos sobre um viaduto por onde as pessoas passavam depois de sair do comício. E ficamos e ficamos, por mais de uma hora, passou um fluxo enorme de carros, ônibus e pessoas a pé, sem parar. O comício fora um sucesso. Os jornais do dia seguinte informaram que oitenta mil pessoas tinham participado! Era o terreno, amplo demais, vazio demais, onde o olhar não tem onde repousar – que nos dera a impressão de ali havia um reles pinguinho de gente.

Assim é Brasília, cidade-bunker segundo alguns, melhor ainda, cidade-amortecedor, feita para diminuir ao máximo possível a ressonância dos movimentos sociais.

Se alguém consegue reunir duas mil pessoas – e olhe que duas mil pessoas é gente como diacho! – e as coloca e frente ao Congresso para protestar, essas duas mil vão parecer meia dúzia, tal a força esmagadora da concepção da cidade.

Não que os seus criadores fossem pessoas más, não. Pelo contrário, eram pessoas sensíveis e cujas boas intenções esbarraram na dura realidade. Parece-me que o problema é que eles quiseram resolver os problemas sociais através de arquitetura. Mas a realidade é maior que a arquitetura e se impõe facilmente a ela.

Existe em Brasília uma avenida chamada W-3 Sul. Foi projetada para ser a grande avenida comercial da cidade. De um lado estaria o comércio: lojas, restaurantes, etc. Do outro lado um setor de habitações geminadas, pequenas casinhas pegadas umas nas outras, com um certo espaço, andar de cima e jardim. O raciocínio era simples, bem-intencionado e teoricamente magnífico. Os autores – com razão – se horrorizaram diante do triste espetáculo das favelas. Então eles pensaram o seguinte: vamos criar habitações simples mas confortáveis para os pobres. Os empregados do comércio, empacotadores, contínuos, caixas, gente em geral mal remunerada apenas cruzará a avenida para suas casas pequenas porém confortáveis e racionais. Simples, não?

Não. Hoje essas casas são caríssimas, disputadas a tapas pela classe média, quase todas já foram adaptadas para ter garagens – que não constavam na concepção original. E a classe pobre mora lá longe, nas chamadas cidades satélites – Ceilândia, Planaltina, etc. Um a zero para a realidade social do país.

O Palácio da Alvorada me impressionou desde a primeira vez que o vi. Não por lugares comuns de beleza ou por lembrar os cartões-postais – mas pelo seu aspecto militar. Não me considero de forma alguma um estrategista ou coisa parecida, mas se alguém me dissesse- “faça uma posição fortificada para resistir aos ataques do inimigo” – eu faria algo parecido com o Palácio da Alvorada: uma estrutura de concreto parcialmente enterrada na areia, com um longo terreno completamente plano em frente  terminando com um fosso, para que o inimigo tenha de correr por longo tempo sem proteção nenhuma antes de poder me atingir. Só que do outro lado do fosso não está nenhum inimigo. Estamos nós. Que não somos - ou não deveríamos ser considerados - inimigos por nosso próprio governo. Dois a zero.

Parece ser uma coisa racional reunir tudo num lugar só: cria-se um setor só de bancos, um só de comércio, outro só de hotéis. Só de hotéis. Imagine você, caro leitor, num descampado sob um sol lancinante, sem automóvel, sem conhecer direito os ônibus e os pontos de comércio da cidade, por entre pistas por onde os carros e coletivos correm mais que qualquer Rubinho. Isso é o setor hoteleiro de Brasília. Um lugar onde você se sente mais desamparado que se tivesse vindo parar ali 50 anos atrás, quando tudo era mato. Não, não é racional um lugar que só tenha hotéis, obrigando o pobre e indefeso visitante e andar centenas de metros sob o sol para comprar uma escova de dentes ou uma garrafa d’água.

Três a zero. E por aí vai.