Comemoremos o Bloomsday

Paulo Avelino
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As revoluções começam em pequenos atos. Um cara irônico e chato subiu as escadarias da casa velha onde moravam para fazer a barba ao ar livre, olhando o panorama da baía. Perto dele estava seu companheiro de quarto, um rapaz um tanto soturno e culto, desses que parecem carregar todo o peso do mundo. O primeiro, fazendo-se de padre, abençoava a feia baía de um país feio, ferrado e triste, como são ferrados, feios e tristes quase todos os países. O segundo estava magoado com uma ofensa que havia recebido. E ali começava uma revolução. Eram aproximadamente oito horas da manhã do dia 16 de junho de 1904, o país era a Irlanda, mais uma colônia da Inglaterra, a baía era a de Dublin, o rapaz chato era Buck Mulligan, o rapaz soturno era Stephen Daedalus, cuja biografia já era conhecida dos leitores. Pouco depois um terceiro, Leopold Bloom, circularia pelas ruas da cidade em busca ninguém sabe exatamente do quê. E juntos começariam a literatura moderna. Era o Ulysses de Joyce.

Hoje, 16 de junho,  é Bloomsday. O dia em que joyceanos de todo o mundo comemoram o dia em que se passa o Ulysses. Há um grupo em são Paulo que faz tal comemoração regularmente, um pessoal de Santa Maria (RS) fez até um portal a respeito, passageiros de ônibus em Belo Horizonte vão ser premiados (ou punidos) com audições gratuitas de Ulysses nos ônibus.

Ler Joyce é algo meio decepcionante. Não pelo livro em si. Comparo ler Joyce ao seguinte: o cara tem um restaurante que ele gosta de ir. Aquele restaurantezinho aconchegante, bacana, onde ele se desliga de seus problemas e gosta de ficar naquela mesa especial, lendo alguma coisa e curtindo a boa comida. Um dia ele comete a tolice de visitar a cozinha do restaurante. E sai decepcionado. Nunca mais vai lá. Pois bem, o que o cara ganhou com isso? Nada. Perdeu o seu lugarzinho favorito, passa agora a desconfiar de todos os restaurantes, sua vida enfim piorou. Teria sido melhor continuar na áurea ignorância.

Ler o Ulysses é mais ou menos a mesma coisa. Sabe aquele autor que está fazendo sucesso –como ele é inovador! Que técnica bacana! – Que modernismo! – você abre o Ulysses e vê a mesma técnica, feita com oitenta anos de antecedência, e com muito mais cultura e com competência. Sabe aquele amigo que tem idéias revolucionárias sobre criação literária, idéias que ninguém teve, segundo ele. Está tudo lá, só que muito melhor, num livro escrito no começo do século. Joyce foi uma benção e uma maldição para a literatura moderna. Ler Ulysses é assim. Você passa a não admirar muita gente que admirava. Não se ganha nada com isso. Só torna o mundo mais cinzento.

O Ulysses tem 18 partes, cada parte com um tipo de narrativa (certo que algumas são muito parecidas). Cada parte tem de umas quatro a dez técnicas, grosso modo (algumas são repetidas). Ou seja, o livro tem por baixo uma sessenta técnicas inovadoras, uns oito modos de narração diferentes, sem contar com a cultura enorme de seu autor e as alusões a história, mitologia e tudo o mais. O Ulysses é uma espécie de Cronos, o deus que devorava os próprios filhos. É muito difícil ir na esteira de Ulysses e não ser devorado por ele. Alguns poucos conseguem.

De qualquer forma, comemoremos o Bloomsday. Se o próprio Ulysses não estiver disponível, leia outros livros dele – os Dublinenses, o Retrato do artista quando jovem ou o Finnegans Wake. Se não há nenhum Joyce, leia os melhores seguidores dele – Salinger, Guimarães Rosa, Clarice Lispector. Ou procure sue respectivo ou sua respectiva e brinque de James Joyce e Nora Barnacle – era a mulher dele. Eles faziam coisas que coravam os anjos, e que não posso dizer aqui para não tirar o caráter inocente dessa crônica. Mas, de uma forma ou de outra, comemoremos o Bloomsday.