Vinte e duas horas

Paulo Avelino
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Luzes Rua

 Ruazinha, seis casas espalhadas, calçamento de pedra. Longe luzes cortantes de adaga de carros que passam voando baixo numa avenida. Na esquina um vigia coça a barriga esperando o momento dos patrões dormirem para cair no sono. Olha em volta, olhos inchados s esbugalhados, boceja. Alguns carros, a maioria de duas portas, alguns de quatro portas, e caminhonetes e pequenos buggys e até algumas motos estacionadas. Rua bonita, casas bonitas.

Uma casa iluminada, vidros por todos os lugares. A luz que sai dela. Palmeiras em volta, som dentro dela, distante, murmúrio de dragão em caverna, rock.
 

Os gatos

Graurrrrrrrrr! Miaaaaaaaauuuuueroooorrrrrrrrrrrr! Graaaaaurrrrrrrrffffffffffeeeerrrrrrrrnnn! Diziam os gatos que brigavam ou se procuravam debaixo dos carros estacionados. Gataparda no cio se esconde perto da roda do BMW vermelho. Gatobranco desavisado passa por baixo do mesmo carro.

Miaurrr e Gataparda se joga em louca correria atrás de Gatobranco. Correm, tigres de araque e sem estrias desenrolando movimento pela rua vazia. Passam por baixo das pernas do vigia. Enxota-os. Gatobranco se junta a Gatopreto e Outrogato sobre o muro da casa em festa. Olham. Lá dentro figuras fazem movimentos psicodançantes. Gataparda os descobre e pulam e se dispersam pela rua.

Carro. Dobra a esquina e surge e faróis que refletem olhos de gato que fogem, graurrs e miaurss para todos os lados.

Aninhada contra o fio de pedra Gataparda vê o pé de Andréa sair do carro. Um pé, outro pé. Roçando os bigodes de Gataparda. Gatagata. Blam e porta que fecha. Chaves, óculos se escorregando pelas bochechas tipos anos setenta, jeans e blusa. Clean, visual clean de sempre. Gataparda a vê afastar-se. Lá dentro.

- Que foi que disse! Repete, o barulho está demais!

O rock pauleira fazia vibrar  o concreto da casa. "I can get no, satisfaction..."

Mécia teve de gritar para ser ouvida. Gauchescos sotaques e conjugações.

- Te disse que a festa está demais, guria!

Paraarram-tchaaaaaaaaaa-raarrrararatcchhhhhaaaaaa.

Mécia vê uma figura e corre até ela, tropeçando nas figuras dançantes meio iluminadas pela luz colorida saltitante no meio do caminho, derrubando taças de vinho e bandejas.

- Tu chegaste, finalmente, guapa garota!
 

Andréa is arrived

- Trouxe um presente - gritou Andréa, berrante, bocanoouvido de Mécia, tentando se fazer ouvir e ver em meio às figuras que dançavam nas cores que trocavam.

- Que original! - disse Mécia com a cara cor de violeta com a luz estroboscópica, pegando no embrulho que Andréa trouxera - Uma panela de pressão!

- Ora, chá de PANELA - disse Andréa de cara verde do jato de luz enquanto jogava sua bolsa na mesa - por que não panela?

- A noivinha! A noivinha! Fale com a noivinha - aproximava-se um coro de vozes femininas com alto teor etílico. A noiva, já meio completamente bêbada, trocando de cor, azul, verde, vermelha, cor de rosa, com um forte bafo de vinho correspondeu aos beijinhos de Andréa. Esta quis dizer alguma coisa engraçada mas pensou que todo o repertório possível de piadinhas indecentes já teria se esgotado naquela festa.

- Parabéns pelo casamentoooooo, disse Andréa gritando por cima da música sem conseguir pensar em nada mais original.

Num canto duas garotinhas louras, sem dúvida gêmeas, com CDs na mão escolhiam músicas ainda mais barulhentas para a próxima rodada. O vinho tinha curso livre e liberado em todas as garrafas e bocas. Do alto do muro os gatos podiam ver.
 

Casa cheia

- Não vai servir nada! Você está bêbada! Me dá essa bandeja! - e rápida a heróica Catarina salva os sanduíches. Passa por duas garotas que trocam posteres de Leo DiCaprio uma que chora pensando no antigo namorado duas que falam que faculdade pretendem fazer uma que reclama da comida duas que falam mal da noiva outra que dorme em estupor alcoólico vinte que dançam sete que contam piadas indecentes e outra que fala da sorte da Selminha ter arranjado um cara tão legal.

- Andrrrrrreeeaaaaa! - disse Catarina correndo para Andréa enquanto comia mais sanduíches do que servia.

"Letís twist again..."

Sessão nostalgia.

Andréa fecha os olhos.

- Não! Vou adivinhar! Com esse escândalo todo só pode ser... a Rainha da Inglaterra, certo?

- Bem vinda à festa do absorvente, querida! - gritou Catarina passando um cálice de vinho a Andréa enquanto comia um sanduíche de pasta de atum. O perfume de Catarina podia ser sentido a quilômetros de distância.

Mécia era o destaque agora tentando dançar o twist imitado da vovó, dizia ela. Uma roda em torno bate palmas.

- Festa de mulher podia ter patrocínio. Patrocínio!- continuou Catarina, enquanto alguém finge um pequeno strip-tease mas no final não tira nada.

Catarina se levanta e escreve num cartaz imaginário, a mão tapando o nariz, a voz anasalada de locutor de comercial: - Chá de Panela de Selma Tavares - patrocínio de tcham-tcham-tcham-tchammm: Modess! Sempre Livre! Segura! Natural!

Andréa se afasta das bobagens de Catarina. Toma o cálice depressa. A sala gira.
 

Vai começar!

Andréa gosta do vinho. Doce. Suave. Toma mais um e mais outro e um. Recusa os sanduíches.

- Devias comer, querida, dizia Mécia. Do contrário, já sabes.

As garotas passam em frente a Andréa, leves. Uma suave brisa passa e algumas delas começam a flutuar, mas pousam logo.

- Só mais um, pensa Déazinha, como seu pai a chamava, só mais um e paro. Quer dizer, além da saideira. E de mais outra que der vontade, claro.

- Vai começar, Andréa, vai começar! Disse-lhe uma borboleta que tinha a cara de Catarina. Mas voou logo para dentro da cozinha.

A dança pára. Música passa a ser música de general, de auge, de expectativa. Gritam histéricas. Vai começar. Catarina joga o lenço para o ato, Mécia grita, Selminha ri encabulado Adriana finge que cobre os olhos com as mãos Ana e Carla fazem vira-vira com os copos de vinho Marcela tropeça no sofá e umas três servem de acompanhantes ao showman.

- Já sei o que é isso - pensou Andréa alto sozinha descaindo a cabeça para trás.
 

O Show

Andréa na varanda. Lá dentro o show. Gritos de mulheres: Tira! Tira!

Mundo moderno, pensa Andréa. Fecha os olhos.

Quanto tempo? Abre os olhos de novo.

O piso de mármore da varanda era agora um felpudo tapete. As paredes estavam cobertas por dosséis. Odaliscas adormecidas sob almofadões se podiam ver lá dentro. A varanda dava para a bela paisagem do deserto. Minaretes e Mesquitas se podiam ver ao longe. Suave música de flauta era tocada por uma caravana, com seus camelos e mercadorias.

Um xeque se aproxima de Andréa. Seu turbante ostenta o mais belo diamante do mundo. Suas vestes ostentam enorme riqueza.

ROGÉRIO: (com a voz tonitruante mas tranqüila) Traíste minha confiança. Tantos meses de sereno amor, sob as bênçãos de Alá, e na primeira rusga, no primeiro pequeno desentendimento, entregas teus desejos a outro!

ANDRÉA: (com sete anos de idade, tentando esconder os cacos da cristaleira) Não, não, não é verdade, eu não fiz nada disso!

ROGÉRIO: (vestido apenas numa minúscula sunga, o corpo bronzeado reluzente de óleo, os músculos delineados e vigorosos, a mesma cara do stripper. O ambiente em volta é escuro, lascivo, propenso a prazeres proibidos) Então, porque se encheste de paixão ao ver este homem, ao ver seus músculos vigorosos, seu peito cabeludo, seu pênis prometendo-te prazer!?

ANDRÉA: (complemente nua, os pelos negros contrastando com o corpo branco, os bicos dos seios enormes endurecendo, a xoxota gotejando) Não, não foi nada disso... Foi apenas...

ROGÉRIO: (vestido de toga, apoiado na tribuna, o juiz com a mão no queixo olhando para o relógio) Vejam, senhores do júri, pega em sua falta e sem querer confessar. Confessa!

ANDRÉA: (com treze anos, vestindo calça comprida e blusa verde-abacate, apontando para duas outras meninas da mesma idade cara e roupa que ela) Não fui eu, papai. Foram elas!

ROGÉRIO: (com uma enorme barriga e chinelos, sentado na poltrona em frente à TV) E não culpe suas irmãs! Eu e sua mãe sabemos que foi você.

ANDRÉA: (tirando a gravata listrada, o paletó azul-marinho, o colete esverdeado, as abotoaduras douradas, a camisa de linho branco, os sapatos lustrados de couro, as meias de alpaca legítima, a calça azul-marinho da griffe Pierre Cardin, a sunga negra, mostrando um enorme falo complemente ereto, avançando para Rogério, rasgando-lhe as roupas e derrubando-o de bruços na cama redonda do motel, espelhos em volta, e enfiando-lhe a tora cu adentro, metendo a valer com muita força e gozando litros de esperma nas suas costas) Foi sim. Fui eu! Tesão puro!

ROGÉRIO: (copo de pinga na mão, com um grupo de amigos num bar, todos bêbados, chifres decorativos pendurados pela parede) Vejam só. Dois anos de namoro. Respeitoso e cuidadoso. Uma boa menina do interior, estudieira e trabalhadeira.

ANDRÉA: (vestida de freira, ajoelhada em frente a uma imagem, as mãos postas, o suave canto do carmelo porejando pela janela quadriculada) Mas foi você quem primeiro quebrou os votos.

ROGÉRIO: (bebendo um trago) só um pequeno desentendimento... e ela vai a uma festa de perdição...

ANDRÉA: (com um vestidinho curto e bustiê, rodando uma bolsinha dourada encostada numa esquina) Depois que brigamos eu me considerei sem compromisso.

ROGÉRIO: (vestido de Carlos Gardel, enlaçando uma mulher da vida num cabaré) Eu também estava livre.

ANDRÉA: (vestida de branco, com um par de asas, sobre o prédio da ONU em Nova Iorque) E o que há de mal na liberdade?!