Arabela

Paulo Avelino
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 Doze de março de mil novecentos e setenta e oito e eu não vou contar a vocês como conheci Arabela. Essa coisa de “era uma noite fria e calma no Rio de Janeiro, e eu estava me sentindo perdido na vida e então” essa coisa me enche o saco. Arabela, nome ridículo, bom apenas para os bobocas que ela pegava pelos cantos, bolsa colorida a tiracolo e sandálias de pano no pé, vendendo chupadas a vintinho, e trinta e cinco por uma dupla, nunca entendi direito o que era uma dupla, acho que era o dobro do tempo, incluindo um trato nas bolas. Trinta e cinco, tinha desconto. Boa menina a Arabela, óculos bochecha e roupas de hippie.

Nós morávamos numa  qui-tche-ne-tche de náuseas nos fundos do bairro nem sei qual bairro, eu sem fazer absolutamente nada o dia todo apenas com as latas de sardinha abertas e as garrafas de cerveja quente do lado vendo TV, a TV em cores que ela ganhou de um cliente – boa menina, a Arabela – batendo uma lentamente assistindo à Vila Sésamo – que tesão assistir à Vila Sésamo, mas era o Jornal Nacional o que mais me excitava, as notícias sobre o Oriente Médio me faziam chegar perto do orgasmo total, como dizia um biruta lá do Nove que vendia um método de prazer oriental para os otários, Arabela no canto de cócoras, o idiota em pé encostado na parede olhando com os olhos daquele tamanho para mim, os óculos de grau deformando os olhos indeciso entre ficar em guarda contra mim e olhar para cima, aqueles gemidos de sempre, a boca de Arabela. Ou então o bobo era mais bobo ainda, queria o completo e eu sabia que aquela era noite de jantar grã-fino no Pileque’s e o idiota na cama gritando como uma capivara, daquelas que eu via quando menino no interior do Paraná, calcinhas e sutiãs voando – eu muitas vezes pegava uma no vôo – Arabela de pernas abertas – como abria as pernas a Arabela, lhes digo, nem mesmo Jacqueline Kennedy abria as pernas com a classe de Arabela –o cara gemendo como uma capivara ferida, só que eu nunca estive no Paraná nem nunca vi uma capivara, nem sei como é uma capivara, como é, hein?

Às vezes a gente ia às festas. Salgadinho, cervejinha, Ipaneminha, maconinha, santo daime, LSD, haxixe, epadu, larica, carambola, murado, extrato de não sei que mais lá, morfina, paracodéina, estrictina e tudo o que mais, uns vinte ou mais caras homens e caras mulheres e todo mundo trepando, depois do milésimo “que barato, amizade!” eu estourava a cabeça do próximo que dissesse, eu gritava, ou achava que gritava no meio daquela gemedeira sempre que algum idiota dizia que “aquilo era uma forma de protesto contra o regime militar”, argh. Arabela me arrumava, me colocava de branco e roupas perfumadas e lavadas e ensebadas, em mim e nela, cobrindo-lhe o violão do corpo e o triângulo– o triângulo mais que perfeito de Arabela, aquela congruente equivalência dos cantos, aquela reta curva dos lados, a delicada proporção das bissetrizes, a estupefaciente densidade peluda tridimensional, não havia no mundo triângulo mais Belo que o de AraBela – e me dizia que a gente tinha de ir perfumado, cheirosinho, engraçadinho, o ácido era um lugar especial, a gente tinha de ir bonito, e íamos lá bonitinhos, arrancando olhares de admiração “que casal bonito” descendo a Atlântica diziam as meninas de calça boca-de-sino.

Às vezes a gente acabava vomitando pela calçada mas naquele dia todo mundo já lorpado, gozado, drogado, algum talvez necessitado de hospital, e Arabela espremida entre o casal de meia idade, o sujeito se esforçando - uma geléia - a mulher dele lambendo – o triângulo, aquele triângulo e Arabela, a lutadora, Arabela quando chupava ia até o final, retroceder nunca, render-se jamais, e eu me levantei engordado por algumas gramas de ácido e pó e segurei o mundo para ele não cair, os grandes olhos de Arabela me fitavam, os olhos marrons e enrugados, os olhos que ela trazia no peito, as pernas compasso fazendo um ângulo de quase cento e oitenta, e eu queria sentir Arabela, sua boca quente que envolvia tudo, tudo até o cabo e parecendo que mal saía de começo, as mãos me bolinando os bagos, queria estar dentro da sua vagina luva perfeitamente adaptada queria forçá-la para os lados, relaxá-la, se houvesse um campeonato de luvas seria de Arabela, os pelos macios, gostava de puxar até sentir firmeza, queria sentir seu rabo, seu rabo me apertando forte e me fazendo derramar todo, queria jogar um monte de novos eus, inúteis e bobocas como eu, punheteiros em frente à Vila Sésamo, em sua boca, a boca de Arabela.

Mas não consigo sair do lugar, nada se mexe, durmo sem dormir em meio a um monte de  paus  moles e melados e bocetas relaxadas e meladas se achando o máximo porque ácido e treparam. Grande coisa. Arabela se chega, se achega e me põe no colo, e me embala nenê e me acaricia o cabelo dum jeito que você sabe que eu não gosto, Arabela.