Oito horas

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br
Catarina acorda com estrépito, como sempre. Pula da cama e abre a cortina de um supetão, e num gesto amplo com os braços tenta como que abraçar a cidade.

- Ahhhhhhhhhh! Bom dia, dia, bom dia para todo mundo!!!! - diz ela. Lá embaixo os carros buzinam.

- Agora, a sessão de tortura - continua ela. Despe-se rapidamente e  se mete debaixo do chuveiro aberto à toda, com a água fria, dando um uivo que acorda Andréa.

Minutos depois Catarina chega à cozinha. Enrolada na toalha e com a cara cheia de creme de beleza.

- Andreaaa! Andrrrrrrrrrrrrrrrrreeeaaaaaaa!

Esta aparece, vindo do quarto, bocejando de sono, e desaba na cadeira, ficando de bruços sobre a mesa.  Era a vez de Catarina preparar o café.

- Meu Deus, que desânimo! Vai  ver que é a má companhia. - dizia Catarina enquanto colocava a infusão para ferver. Um cheiro forte de café invadiu logo o ambiente.

Andréa brinca com ao açucareiro.

- Sim senhor, é a companhia. - continua Catarina enquanto agora arrumava a mesa. - Tire os bracinhos um instante para eu pôr a toalha, querida... iiiiiiiisso. O que você precisava era de alguém que fizesse a barba todo dia. Creme de barbear na cara, entende, e não creme de beleza. Me passe este paninho, sim?

Andréa passou-lhe o pano e pensou que mais uma vez vinha Catarina com essa conversa de novo. Todos os dias esse papo de homem.

- Você não devia ter se separado, Catarina - disse Andréa, um tanto séria.

- Droga! - falou Catarina remexendo em todas as gavetas - Cadê o pão?

- Mécia desceu para comprar.

- Três xicrinhas para três menininhas - disse Catarina enquanto arrumava as xícaras em fila e derramava café em cada uma. - Mas o que dizia você?

- Que você não devia ter se separado.

As duas tomam o café.

- Ai, ainda está quente demais -disse Catarina com uma careta. - Não devia ter me separado? Que bobagem! Bem, confesso que às vezes, asssssssss vezessssssssss, eu sinto uma faltinha de... droga, cadê o pão? Como é que eu posso comparar sem um daqueles pães compridos??

Andréa tomou o café, soprando para amenizar o calor, dando graças por Mécia ainda não ter chegado com o pão.

Catarina pegava as frutas e as arrumava no centro da mesa.

- Por falar no pérfido assunto - disse Catarina. - Rogério ligou. Mr. Roger!

- Já disse que não quero nada com ele.

- Andréa, Andréazinha... Não seja tão orgulhosinha... Ah Chegou finalmente! Ainda bem, querida nós estávamos a ponto de nos entredevorar. Canibalismo, entende?

Mécia entrava com os pães e os colocava sobre a mesa. Catarina os pegou rapidamente partia com a faca de serra.

- Coloque meu café na garrafa, sim? Vou tomar um banho rapidinho - disse Mécia.

Andréa conhecia esses banhos, demoravam horas. Catarina se sentara e devorava agora as fatias de pão nas quais passara toneladas de manteiga.

- Do que estávamos falando? Ah, Mr. Roger. Ligou para você.

André ficou calada. Ouvia-se a voz de Mécia mal sufocada pelo ruído do chuveiro:

"Mas em caso de emergência,
Me procure, me procure..."

- Mécia tem uma irresistível vocação para o brega. Mude para uma FM, querida! - disse Catarina.

"Só espero que você
de vez em quando me escreva
algumas linhas..."

- Teve pesadelos de novo. - disse Andréa, enquanto cortava uma laranja.

- De novo? E o que foi dessa vez? Alguns dragões a estavam caçando? - disse Catarina com a boca cheia de pão com manteiga.

A TV do vizinho disparava notícias de reajuste cambial bombardeios acordos de paz frustrados contusão do artilheiro da seleção e campeonato de cães.

"...falando de você,
mas não espere receber
notícias minhas".

- Não ficarei aqui com ela, Catarina, não consigo dormir, ela passa a noite toda falando.

Catarina levantara de novo e revirava as gavetas atrás de guardanapos.

- Falando o quê? Ah, achei!

- Não sei, não dava para entender nada.

- Eu não acordei - disse Catarina, enrolando um guardanapo na gola da blusa.

- Você não acorda com nada.

Um caminhão carregado com espelhos bate em um monte de ferro de sucata mal arrumada. Ao lado dali, numa cama de dossel, Catarina continua dormindo e sonhando com os anjos.

- O Rogério quer ter uma conversinha com vocêzinha - disse Catarina. - Só uma horinha, disse ele.

- Onde estão as toalhas? - gritou Mécia do banheiro.

- Estão onde sempre, querida - gritou Catarina de volta. E continuou mais baixo: - Uma horinha numa caminha resolveria o probleminha do Rogerinho.

Catarina recolhe os pratos.

- É como eu disse, Catarina.

Mécia voltava, o cabelo sob uma toalha enrolada.

- Sentai-vos, ó Cinderela atrasada - disse Catarina.

- Quem quer esse toddy? Ninguém come isso? Três garotas dietéticas! - disse Catarina. Mas o que é que dizes, ó Príncipe da Dinamarca?!

- Que você não devia ter se separado.

Catarina se volta. A TV do vizinho anuncia o fim do telejornal matutino. Catarina demora um pouquinho olhando para o teto antes de responder.

- Lúgubre, entendeu? É o que você é. Lúgubre! Um cara bacana daqueles. Afinal, um escorregãozinho é um escorregãozinho, e perfeição, perfeição só no meu café, com licença, mais uma cícara de chafé.

Catarina derramava o líquido na xícara com delícia, aspirando o aroma. Mécia ficava calada, distraída lendo o jornal e comendo seu pão.

- Eu tenho meu orgulho. Meu orgulho, minha sentimentos, respeitabilidade, minha integridade...

- Integrimentos, sentimentulhos, respeitacolusibalhidades! - Tudo pongas lalavras que não nizem dada! - respondeu Catarina fazendo perigosos meneios com a xícara na mão.

- Eu também creio que tu não devias ter te separado - disse Mécia, que se orgulhava de usar a segunda pessoa do singular.

- Oh, até tu, ó Bruta! - disse Catarina, batendo na testa com a mão. - Atreves-te a atraiçoar-me deste modo vil e solerte?!

- Tu precisas muito - disse Mécia se levantando da mesa, já tinha terminado seu café. - Precisas demais. Não podes viver sem.

- E acha que os outros também - disse Andréa sem sair do seu canto.

- Preciso do quê, criaturas sorumbáticas?

- Precisamos dizer? - continuou Andréa.

O relógio da sala bateu pausadamente as nove horas.

- Não. Já fui por demais insultada hoje. Vocês me ofenderam e considero-as minhas inimigas pelo resto da existência. Vocês se arrependerão de suas impensadas palavras, mas é tarde, pois vingar-me-ei de vocês, nem que leve cem anos. Alguém quer ir à natação comigo? - disse Catarina enquanto despejava a louça na pia, quase quebrando os pratos.

- Eu vou. - disse Mécia.

- Eu não - respondeu Andréa. - Tenho de dar uns telefonemas.

Catarina piscou o olho para Mécia e saíram da cozinha.