Os amantes e a morte

Paulo Avelino
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É engraçado como até vendo filmes idiotas a gente pode se comover. Estava assistindo a um filme tolo pela TV, um desses Hollywoodianos caça-níqueis, nem importa o nome. Mas uma cena me comoveu: Um rapaz - personagem não muito simpático aliás - chega doente de viagem. Sua garota, feliz, vai a seu encontro e diz "você parece horrível! O que houve?" E ele responde com a patética sinceridade dos doentes, "eu não sei". E ela o beija, profunda, apaixonadamente. Pela trama a gente sabe que daquele beijo virá a morte pela doença. Para os dois.

Por mais boboca que fosse o filme - e era - aquele beijo me fez pensar que significava algo assim: "eu estou com você e vou compartilhar tudo com você, de um lado e do outro da morte". E gastei boa parte do meu estoque de lenços de papel.

Acho que Cristo se esqueceu de dizer no sermão da montanha "bem-aventurados os que têm alguém que lhes dê um beijo desses". Bem-aventurados até depois da morte.

 E quem disse que não há amor depois da morte? A gente sempre pode ter a esperança que os amantes, depois da morte, possam passar toda a eternidade fazendo um amor eterno, etéreo, sinergético, sem limites nem peias, vírus nem perseguições ou justificações, exatamente ao contrário do que tiveram aqui.

Conhecem a história de Dante e Beatriz? Vou contar um pouquinho. Existe no bairro medieval de Florença uma bela casa de dois andares, ainda hoje, de pedra, numa esquina. Era a casa dos Alighieri, pais de Dante, gente poderosa na cidade e metida em política. Saindo da casa, andando-se uns trinta metros estava a casa dos Portinari, também muito ricos, inimigos políticos dos Alighieri. E no meio uma capela. Foi neste capela que começou o namoro entre o jovens - jovens mesmo, 15 ou 16 - Dante e Beatriz. Namorinho de olhares, semi-sorrisos, vigiado por severas mucamas. Maledicentes espalharam que o jovem Dante se interessava por outras mulheres. Um dia Beatriz lhe recusa o cumprimento. Ele fica arrasado. Depois voltam às boas, às boas em seus olhares, só isso. O jovem Dante se envolve em política, um perdedor nato, seu partido só fez perder. E ele parte para o exílio, o primeiro de muitos. E no exílio, ele tem um sonho terrível. Pássaros brancos, puros e leves, voejavam. E ele os vê cair mortos, um por um. Acorda assustado, suado como em todo pesadelo. E ele adivinhou. Beatriz iria morrer.

Naquele momento, Beatriz se casava, contra sua vontade, com um homem muito mais velho, um riquíssimo banqueiro. Mal casou, caiu doente. Ficou de cama um mês, e morreu. E, dizem, morreu virgem. Tinha vinte e um, a mesma idade de Dante.

Este fica arrasado. E um dia Beatriz aparece de novo em seu sonho. Não morta, mas linda, vestida de luz. E lhe diz que ele fosse sempre fiel a ela.

Bem, o tempo passou, o rapaz casou com outra, teve filhos com outra. E muitos anos depois, ele escreveu como homenagem a sua amada o poema depois conhecido como Divina Comédia, onde ele a pôs como uma das virgens do céu, eternamente acompanhando Nossa Senhora.

Esqueci de dizer uma coisa: Dante, muitos anos depois, teve quatro filhos, três meninos e uma menina. Os meninos se chamavam Pedro, Antônio e Jacó. Quanto à menina, creio que vocês já saem o nome dela!

Enfim meu Deus, tanto problema. Tanto obstáculo para o amor. É política, é doença, é dinheiro, é falta de tempo, é a moderna incompatibilidade de gênios, e agora a pós-moderna "incompatibilidade de horários". Volto ao que Cristo sem dúvida pensou mas não disse, bem-aventurados os que se dão esse beijo, talvez a única coisa que salte por cima da morte e una as duas faces da vida. E talvez do lado de lá os amantes finalmente sejam livres, sem nada disso, sem que doenças ou contas bancárias possam separar e eles flutuem livres, numa brincadeira como sempre deveria ter sido, tanto gente famosa como Dante e Beatriz como gente não famosa do mesmo jeito, e me lembrei daquela canção boba "Eu vou para o mundo da Lua/que é feito um motel/aonde os deuses e deusas/se abraçam e beijam no céu"...