Dez horas

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br
A porta onde se colava uma placa escrito "Software" se abriu à leve pressão da mão de Andréa mão essa que além do esforço de abrir a porta ainda sustentava duas pulseiras douradas, e estava ligada por um braço branco ao resto do corpo coberto por uma blusinha rendada colorida em camadas e uma calça comprida jeans e sapatos pretos e encimado por uma cabeça de cabelos acastanhados e orelhas e nariz onde se penduravam óculos de lente fosca, daqueles tipo anos 70 que faziam bochechas que se esparramavam pelas bochechas e que a mãe sempre disse que a deixam dez anos mais velha.

Mal pôde jogar a bolsa para um lado e tirar os óculos. Barulheira infernal

- Querida sócia, conseguimos o contrato! - dizia uma forma balofa que se aproximava dela de braços abertos equilibrando uma pança de dez anos de cerveja intermitente e uma barba enorme que cobria metade da cara e lhe pôs um copo de refrigerante na mão, que quase foi derramado com o sufocante abraço. Em volta Carolina ria de olhos arregalados e boa cheia de bolo, Marciano contava alto piadas que ninguém estava interessado em escutar, os estagiários sorriam de olhos arregalados, Wal fazia um barulho enorme com um porta CD portátil, as telas de computadores choravam emocionadas, os disquetes dançavam, os scanners e zipdrives se beijavam apaixonadamente, os telnets procuravam levantar as saias das icqs enquanto elas vermelheciam.

- Que contrato, disse Andréa, verificando o quanto de sua blusa tinha ficado molhada.

Gilberto se pôs em porte marcial, empertigou-se e empinou ainda mais a barriga. Carolina distribuía as caixas com coxinhas e empanados.

- Da HC - disse ele à americana enquanto o êitissí, que significava money e prosperidade por vários meses, escorria como baba de sua boca.

- Déazinha, conseguimos, conseguimos - dizia Juliazinha que a abraçava, lágrimas nos olhos. Júlia, Juliazinha, dezoito anos, inteligente e de lágrimas fáceis, proclamara Andréa sua mãe desde que entrara na empresa.

Gilberto já dançava um ridículo tango com Carolina.

- Deus - pensava Andréa, as lágrimas de Júlia caindo sobre seus ombro -  meses e meses de antivírus.

- Gruuummm, nhuuuuuuuummmmm - soluçava Juliazinha, abraçada à sua mãezinha. Wal fazia malabarismos com três empadas. O tango no CD lamentava

"Será que tu recordas como eu
aquele tempo tão feliz"

- Gente - gritou Andréa por cima do barulho, enquanto se desvencilhava gentilmente de sua filhinha - parabéns para a gente. Vou agora. Serviço atrasado. Ninguém conseguiu ouvir.

Mais uns vinte passos e blllaaaaaaaammmmmm da porta que se fecha.

As telas dos computadores refletiam aquela jovem que chegou e fechou a porta. Parou um pouco, como que aliviada pelo silêncio que se fez. Sala hermeticamente fechada, com janela de vidro para o corredor. A jovem pôs a bolsa displicentemente de lado, cercada de telas apagadas e telas que faiscavam, pilhas de disquetes amontoados em escrivaninhas, calendários de empresas de computadores pendurados nas paredes, peças pelos cantos, e se sentou em frente à tela que a espiava.

Suspirou fundo, haurindo o silêncio.

Vamos agora ao trabalho trabalho trabalho. Mais dinheiro mais trabalho.

As teclas cederam à pressão de seus dedos e a tela se cobriu de listagens.

E-mails. Negócios, propaganda, oportunidade, oferta de emprego, não, estou bem aqui, compre nosso novo produto, temos um melhor, reclamações de cliente, esse é um chato nem Deus poderia satisfazê-lo, mais propaganda, Eu te amo, que é isso, um novo vírus? Não, já sei que vírus é esse.

Os losangos e círculos que se desenhavam na tela vizinha do Toshiba 445CDT pararam um instante para espiar a moça que girava com um nhhhhhheeeeeecccc a cadeira giratória e parecia pensar.

- Sei muito bem quem enviou, por que enviou e o que diz. Por que abrir?

- Clec fez a porta que deixou passar Juliazinha, a cara ainda vermelha de choro.

- Quer alguma coisa, Andréa?

- Não, está tudo bem. A festa já terminou? - disse Andréa enquanto se voltava para a tela e uma pilha de disquetes se esparramava no chão.

- Já. O Gilberto lhe chama para a assinatura da assinatura, hoje à noite, na casa dele - disse a carinha permanentemente assustadiça de Juliazinha enquanto se baixava e recolhia os disquetes.

Dentro dos computadores, vírus insidiosos e maléficos de armadura preta e lança na mão eram combatidos por antivírus de armaduras e lanças brancas e a cruz de malta no peito.

- Assinatura, na casa dele?!... - diziam Andréa enquanto seus dedos amassavam pobres teclas.

Juliazinha agora arrumava a pilha de forma desarrumada na mesa mais próxima.

- Ele disse que quer uma coisa em grande estilo.

Povo  de minha terra - dizia a figura balofa de Gilberto, de fraque e chapéu coco, sobre um palanque dourado iluminado por holofotes de raio laser situado em meio à multidão estimada pelos bombeiros em cerca de dois milhões, quatrocentos e cinqüenta e sete mil, novecentas e vinte e oito pessoas - depois desta minha eleição, iniciar-se-á era de infindável paz e prosperidade, que só cessará quando cessar o meu governo, o que, espero, meus concidadãos nunca consentirão!

Não! - responde em uníssono o rugido da multidão - Não! Nnnnnnnnoooooooaaaauuuuummmmm!

- Não posso ir. Tenho um compromisso - respondeu Andréa enquanto procurava um drive novo.

- Compromisso? Vocês voltaram?!... Quer dizer...

- É na casa de uma amiga - respondeu Andréa encarando Juliazinha.

A menina ficou encabulada.

- Bom, vou ajudar a arrumar as coisas - disse Juliazinha se retirando com seus passos macios e fechando a porta atrás de si.

Não queria constrangê-la gosto muito de Juliazinha mas ele tem de aprender que ela não é minha filha e onde estávamos, droga o diacho da mensagem. Eu te amo. E se for vírus mesmo? Quem sabe o que acontecer quando eu abrir isso?

Um monstro de corpo verde e escarlate se materializa e salta da tela do computador e quebra todas as telas, esfarela as placas e disquetes, arranca os fios e mastiga as conexões, enquanto Andréa foge apavorada pela porta afora.

Bom, vou abrir.

Sabendo da ansiedade, e sabendo que se trata de algo amoroso, o malicioso computador demora, demora muito para abrir a mensagem. Os segundos milênios passam e a mensagem não se abre. O rosto de Andréa está indiferente. Já seu coração aumentou as pulsações de uma média razoável de repouso de 65 pulsações por minuto para cerca de 85. A pressão arterial sangüínea pula de onze por sete para doze por oito, mantendo-se então estável. Glândulas sudoríparas aumentam seu trabalho. Íons eletrolíticos aumentando em cerca de 23% no plasma, aproximando-s