Resenha de livro: Things fall apart, de Chinua Achebe

Paulo Avelino
                                                                                                      avelino@roadnet.com.br
                                                                                       http://www.roadnet.com.br/pessoais/avelino
                                                                                                           ICQ# 53760772


ACHEBE, Chinua. Things fall apart. New York: Anchor Books, 1994. 213p.

Lênin teria dito, “o cristianismo é imensamente vil”. Essa frase a ver com o banzo, a saudade da qual morriam os escravos brasileiros, e com os “personal ads”, os anúncios afetivos que pululam nos classificados de jornais americanos. Todas essas coisas têm elementos de reflexão aqui nesse romance.

Chinua Achebe é o Machado de Assis dos nigerianos, é o maior romancista daquele país. Aqui cabe uma explicação, aquele país é dividido em etnias, das quais as principais são os Hausa, geralmente muçulmanos no norte; os iorubas, no sudoeste, muito ligados ao Brasil pela forte vinda de escravos iorubas principalmente para a Bahia, trazendo suas crenças; e os Ibo, no sudeste, em volta do delta do grande rio Níger. Chinua Achebe é Ibo. Nasceu em 1930 e logo aos 28 anos publicou esse livro, sua obra-prima, quando a Nigéria ainda era colônia inglesa. Aos 36 perdeu seu emprego na rádio nigeriana quando das agitações que precederam a guerra de Biafra, um desastre para o povo Ibo. Hoje vive nos Estados Unidos. O livro fala do povo Ibo.

A capa do livro diz que sua história pode ser comparada às grandes tragédias gregas. Não é bem assim pois as tragédias seguiam cânones muito rígidos, entre os quais a unidade de ação. E o livro não é assim. A sua primeira parte trata da vida de Okonkwo, um homem Ibo, que toda sua vida quis ser importante e diferente do pai fracassado. Para tanto se destacou como lutador – um prestigio grande na sociedade Ibo – como guerreiro nas guerras contra outros clãs e como trabalhador. A dieta deles é baseada no inhame, e um homem deve ser forte e disposto para plantar muitos inhames para alimentar a si e sua família, que inclui várias esposas. Na medida em que é bem sucedido, um homem vai ganhando títulos e ascendendo na escala social. E Okonkwo ascende, sempre implacável, sempre escondendo os próprios sentimentos. E a primeira parte do livro é um painel da sociedade Ibo. A gente se acostuma com tal sociedade. É uma sociedade com suas vantagens e desvantagens, em que as pessoas são felizes ou infelizes.

Por exemplo, uma vez uma mulher do clã é assassinada por um clã vizinho (esses clãs eram grandes, chegavam a ter umas dez mil pessoas). O outro clã teve de entregar uma mulher (para substituir a primeira) e um rapaz, esse para ser sacrificado. Um costume sem dúvida desumano. Mas note bem os civilizados brancos: em 1914  duas pessoas, o Arquiduque da Áustria e sua mulher foram assassinados por um sérvio. E como resposta houve uma guerra em que morreram dez milhões e vinte milhões ficaram aleijados. Não teria sido muito menos pior que a Sérvia tivesse sido obrigada a entregar dois dos seus em troca?

Enfim, o leitor se distrai e embrenha na sociedade Ibo, e eis que chegam os missionários brancos. E o leitor, assim como Okonkwo, tem vontade enxotá-los de lá a vassouradas. Por que eles precisavam ir lá? Não estava quase tudo bem como estava? Mas os cristãos além da ameaça da força tem também a sedução da palavra. Eles pegam os pontos mais fracos da sociedade Ibo, que era uma sociedade hierarquizada. Obtém seus primeiros convertidos entre os párias da sociedade, os desclassificados, tidos como pobres e marginais. Profanam os lugares sagrados. Mas muito pior é quando chega um juiz branco, um rapazinho que se acha superior àqueles selvagens de pele preta. E o livro termina em tragédia.

E voltamos à frase do começo. O cristianismo é imensamente vil? De certa forma é. A igreja, católica ou protestante, não podia ter se sujeitado a esse degradante e desumano papel de ponta de lança para a exploração. E o papel dela foi tanto mais dissolvente como essas sociedades eram fortemente baseadas numa solidariedade social, num sistema de crenças e valores no qual cada um sabia seu lugar. Às vezes as pessoas sabem de histórias de escravos, e ficam se perguntando por que não se revoltavam mais. Lendo esse livro dá para entender melhor. Aquele sociedade era fortemente baseada no clã. Fora do seu clã, o indivíduo ficava perdido, não era nada. Então se entende melhor o “banzo” dos escravos brasileiros. Não era uma “saudade” infantil do clima ou da terra. Era o sentimento de estar perdido,de não ser nada, por estar fora de uma coletividade.

Eram sociedades primitivas? As nossas sociedades individualistas estão muito longe de ser um paraíso. Nos Estados Unidos têm uns anúncios afetivos, os “Personal ads”, que também têm no Brasil, claro, mas que lá são mais gritantes: “procura-se mulher branca solteira, 50/62 (faixa de peso), 1,55/1,70 (faixa de altura), não fumante, sem crianças”. O que é isso senão uma sociedade onde o indivíduo não é nada, não tem papel social nenhum a cumprir, e fica consumindo produtos para ser alguma coisa? (No caso o produto é outra pessoa).

Esse livro vende anualmente cerca de 100.000 cópias nos Estados Unidos, em grande parte por que ele é indicado como livro texto no ensino médio, por política de multiculturalismo. Até agora detestei esse tal multiculturalismo, que faz Hemingway ser preterido por sumidades como um tal Gary Soto. Mas, diante desde livro, vejo que ele pode não ser tão ruim.