Resenha de livro: Latinomérica, de Marcus Accioly

Paulo Avelino
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ACCIOLY, Marcus. Latinomérica. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001. 620 pp.

Poemas são fáceis de comprar. Eles têm de pegar o leitor de chofre ou não o pegam nunca. O romance é diferente: se eu fosse largar todos os romances que têm as duas primeiras páginas sonolentas teria deixado de ler desde Proust até Tolstoi. O romance é aquela velha tia que convida o café, e o prepara bem devagar, e serve bem devagar, e começa a conversa bem devagar – que pode ser uma maravilha ou uma chatura.

Já a poesia é aquele cara fortão do Vale-tudo que agarra pelo pescoço e obriga a ficar ouvindo – ou não obriga, e então não presta.

Quando vou escolher um livro de poesia eu o folheio e escolho aleatoriamente seis poemas – se o poema é maior que a página leio apenas a página. Cada bom poema é um ponto à esquerda. Cada mau poema é  um ponto à direita. E faço mentalmente a contagem: 1-0, 2-0, etc.

Quase sempre dá 6 – 0 ou 0 – 6. Geralmente essa última – os bons livros são raros.

Conheci Marcus Acioly no começo dos 90 quando ele veio à cidade lançar seu livro Érato. Era um lançamento duplo, dele e doutro poeta. Estava no fim do lançamento, os dois sozinhos à mesa com as pilhas de livros. Supra-sumo da cara de pau, fiz meu teste dos dois livros na frente deles. O Accioly foi 6 – 0. O outro, 0 – 6. Não tive dúvidas, comprei só o do Accioly. Quanto ao outro, quem mandou ser ruim?

Érato é um excelente livro, baseado nos dois pilares do estilo do poeta – o uso de parágrafos e a erudição devastadora.

Anos depois vejo a notícia que Accioly passou anos escrevendo um poema épico sobre a América. Conseguiu uma bolsa para tanto. É esse Latinomérica.

É um poema épico com proposição e invocação, como os de antigamente, e se inspira numa luta de boxe (a América como luta). Divide-se em partes, começando com as antecedências da luta (árbitro, luvas, etc.) e se subdivide em rounds quando a luta começa. E como tema a América, país a país, fato a fato.

No começo faz uma invocação pagã, e uma invocação cristã. Na parte pagã ele invoca as Sireidas do rio Sirigi, misturando Grécia e Pernambuco. A parte cristã tem trechos soberbos. Por exemplo quando ele invoca a Santíssima Trindade, começando pelo Pai:

eu Te canto (Senhor) cantando a água
(placenta maternal) útero líquido
(sal dissolvido em mar e mar em lágrima)
sangue dentro da carne (suor-vivo)
olho abrindo e fechando sob a pálpebra
o seu brilho que vaza em cada pingo
uma gota de luz (ó tão feliz
-    irmã-água – do apóstolo de Assis)


E continua:


eu Te canto (Senhor) cantando o vento
(ar dentro do pulmão da teoria
de Galeno) suavíssimo alimento
do barro que (formado) principia
com Teu sopro de vida (Teu alento)
com Teu fôlego enchendo cada via
respiratória de alma (ó tão feliz
- irmão-vento – do apóstolo de Assis)


Depois invoca os poetas. É um dos pontos fortes: ele falando de outros poetas. São os jurados da luta, de César Vallejo a Nicolas Guillen a Derek Walcott e também os nossos poetas-profetas do nosso fim do mundo, os poetas do sertão:


Aderaldo Ferreira de Araújo
(cego Aderaldo) a máquina-do-trem
(dizia) * rompo-ferro-e-rompo-tudo *
(disseste) * e o que restar rompo também
no trava-língua * (maquinista) o mundo
te fez cego e (sem luz e sem vintém)
tu acendeste aos trancos e barrancos
(com o arco-da-rabeca) a luz dos cantos


Lembremos que o Cego Aderaldo, do Quixadá, é o maior poeta repentista sertanejo de todos os tempos. Morreu em 1967 e sua filha guarda todos seus pertences na casa dele no Quixadá, pronto para virar museu. Ficou conhecido por suas pelejas, das quais Lampião gostava demais. Ficou cego já rapaz, por um acidente.

Depois o poema fala de país a país, e seus acontecimentos históricos principais. Aí que cai um pouco. Nem sempre se pode tirar coisas boas da história, especialmente quando se tem de falar de cada país individualmente. Latinomérica (omérica = de Homero) é daqueles poemas que só vai ser devidamente aquilatado com os anos. Pretende demais (sem sentido pejorativo) e portanto sua permanência precisa de uns tempos para ser avaliada.