Uma trama sufocada pela história

Paulo Avelino
 avelino@roadnet.com.br
 
November 1916, de Alexander Solzhenitsyn. (The Red Wheel/ Knot II). Farrar, Straus and Giroux, New York. 1000 pp. Traduzido por H. T. Willets.

Alexander Solzhenitsyn (1918- ) ganhou fama mundial no final dos anos sessenta e início dos setenta como escritor dissidente soviético. Capitão do exército durante a Segunda Guerra, foi preso em 1945 por duas cartas que escreveu a um primo criticando certos aspectos internos da unidade. Por isso passou um total de onze anos de prisão e exílio na Sibéria, sendo libertado quando do degelo de Khruschev. Depois de libertado publicou Um dia na vida de Ivan Denissovich e principalmente O Arquipélago Gulag. Foi principalmente este livro, em que ele descreve a vida nos campos de prisioneiros da Sibéria, que lhe valeu a expulsão da União dos Escritores Soviéticos (1969) e o exílio (1974). Vale salientar que Gulag não é um lugar, é a sigla da repartição que cuidava dos campos de prisioneiros, que para o autor formavam uma espécie de arquipélago, distante do mundo. Viveu nos Estados Unidos  no estado de Vermont até 1994, quando voltou para Moscou. Escolheu aquele estado, um dos mais frios dos EUA, exatamente por que lhe lembrava a Rússia.

Solzhenitsyn é um bom exemplo de autor usado pela mídia para fins políticos. No auge da guerra fria a imprensa ocidental fazia estardalhaço de suas opiniões. A carta que ele enviou a Breznev em 1974 pedindo que deixasse o povo respirar e se desenvolver foi publicada com destaque até pela imprensa brasileira. Nas época a mídia convenientemente fechava os olhos para o óbvio: ele nunca foi pró-ocidente, sempre foi monarquista, ortodoxo e eslavófilo. Ele deplorava o que ele chamava de espetáculo deplorável dos políticos agradando o povo a cada quatro anos. Depois do fim da União Soviética, e depois que deixou de ser útil, a mídia simplesmente o esqueceu, com exceção de uma ou outra reportagem lembrando que ele estava esquecido até pelo povo russo, e que seus últimos livros eram pessimistas em relação à Rússia, e por isso estavam vendendo pouco.

Seu ídolo e modelo sempre foi Tolstoi. O que não deixa de ser curioso, pois é difícil escapar da influência esmagadora de Dostoievski, principalmente na terra dele.

Novembro 1916 é um livro que trai fortemente a influência Tolstoiana, principalmente de Guerra e Paz. O livro é a Segunda parte de uma tetralogia, chamada de A Roda Vermelha Uma narrativa em períodos discretos de tempo. A primeira parte, Agosto 1914, trata do início da Primeira Guerra Mundial. O autor chegou a pensar em fazer uma segunda parte sobre 1915. Mas desistiu, e a segunda parte é esta. A terceira e a quarta partes serão Março 1917 e Abril 1917.

O objetivo de A Roda Vermelha é explicar como o povo Russo chegou à Revolução Comunista. Um como e porquê perplexos. O autor faz uma espécie de análise retroativa, angustiada, como uma pessoa que cometeu um grande erro fica se analisando para ver como pôde chegar àquilo. Isso trai não só o anticomunismo do autor, mas também a influência Tolstoiana: usar um romance para explicar um povo, ou pelo menos um período histórico de um povo.

É um livro muito bom para se aprender certos aspectos da história recente russa geralmente negligenciados. Os livros sobre a Revolução Russa se concentram em Lênin e no Czar. Este, pelo contrário, nos faz conhecer em detalhes personagens quase complemente esquecidos, (Trotski diria: pessoas jogadas na lata de lixo da história) como Guchkov, líder democrata burguês, Rodzianko, oposicionista moderado ao Czar, Shingarev, líder moderado, General Alekseev, chefe do estado-maior do exército Russo, etc. É dada uma longa história e gênese do partido Cadete, um partido de origem burguesa que foi se radicalizando com os tempos, sobre o partido Outubrista, são feitas longas transcrições de Assembléias da Duma (parlamento).

A clara intenção do autor era dar um amplo painel da sociedade russa às vésperas da revolução (que começaria em março de 1917). Mas esta também é fraqueza do livro. O livro se espalha, tenta abarcar todas as facetas da Rússia, o maior país do mundo, com 170 milhões de habitantes, em suas páginas. Assim, o autor espalha personagens por praticamente toda a Rússia. Temos personagens históricos ou fictícios em dois locais na frente de combate, um no Norte e outro na Romênia; personagens angariando fundos em concertos; falando sobre judaísmo, sobre seitas ortodoxas, personagens nas linhas de abastecimento e na imprensa das pequenas cidades, personagens no alto-comando do exército, personagens no parlamento, em apartamentos de políticos em Petersburgo, personagens políticos importantes no Parlamento, no Ministério, a família Imperial também é personagem, personagens na Suíça, Lênin e seus principais auxiliares, o partido social-democrata suíço, inventores envolvidos na criação de armas, personagens operários e grevistas, intelectuais, bolcheviques de médio escalão, fora as transcrições de documentos e de atas. A literatura naquilo que tem de mais seu, ou seja, a trama, o aprofundamento psicológico, os exageros e twists, tão típicos da grande literatura Russa, ficam sufocados por esse mar de informação histórica trazida por essa multidão de personagens e pontos de vista. Aliás,. Solzhenitsyn é um grande escritor, pois qualquer um outro se perderia complemente em meio a tanta história. E ele consegue, apesar disso, armar algumas tramas interessantes no decorrer do livro.

O principal personagem é o Coronel Vorotyntsev, um oficial em desgraça na carreira, que está na frente Romena, combatendo o exército Alemão. Combatendo é forma de dizer, pois eles não têm armas, alimentos, o abastecimento é uma desgraça, nada funciona. Então ele resolve ir a Petersburgo para falar com Guchkov, líder da oposição, pois que fazer algo par mudar isso. Só que antes passa por Moscou, para rever sua mulher, Alina, uma pianista, que faz concertos beneficentes para feridos de guerra. Seu casamento está mal, ela faz um escândalo ao saber que ele está lá só de passagem, e ele promete voltar dias depois, no aniversário dela. Ele vai a Petersburgo, tem contato com vários líderes de oposição, e se torna amante de Olda, uma mulher inteligente, professora de história. Volta para Moscou contra a vontade, e lá conta tudo a sua mulher, que ameaça se suicidar e sai de casa. O Coronel viaja até Mogilev, onde fica o Alto Comando do Exército, e lá tem contato com vários militares insatisfeitos com a situação.

Esta é a história principal. Tem muitas história paralelas, como a de Kovynev, político de província que se apaixonou por uma ex-aluna e ela teve um filho com outro homem. A história de Sanya, tenente de artilharia, pela qual podemos ver como é o dia a dia na frente de combate, nos intervalos entre as batalhas. A história de Blagodarev, camponês que está na guerra, que volta para casa de licença, e faz planos com sua mulher para depois da guerra; a história de Alix, a mulher do Czar, mística e imprudente, e sempre influenciando o marido na direção errada. Entre todas essas histórias, uma das mais interessantes é a de Lênin, na Suíça, pobre, isolado, brigão, quase sem seguidores, com a saúde não muito boa, mas com uma fé inquebrantável no futuro, uma convicção de que o futuro da humanidade estava nas mãos dele, um verdadeiro poço de certezas.

Este é o grande problema do livro. Algumas dessas histórias conseguem se desenvolver, outras não. Elas acabam, se intercalam, às vezes são retomadas, às vezes não. É certo que o livro terá continuação, mas num livro de mil páginas esperamos sempre histórias bem desenvolvidas, como um fim que se possa dizer como tal. Certas histórias praticamente não terminam, fica faltando algo, as coisas não desenvolvem. Flores são mandadas a Alina, a mulher do Coronel, por um admirador misterioso. E ficamos em saber quem é ele, simplesmente não é mencionado depois. Zinaida, a estudante amante de Kovynev, perde seu filho, que morreu doente quando ela foi visitar Kovynev. E depois? E muitas e muitas outras história ficam sem continuação. A única história razoavelmente desenvolvida é a do Coronel Vorontyntsev. E mesmo a história dele fica truncada pela necessidade de colocar História direto dentro da trama. Ele e sua amante ficam entremeando suas conversas amorosas com política o tempo todo. A necessidade que o autor tem de passar informação histórica ao leitor é enorme.

A óbvia inspiração deste livro é Guerra e Paz. Mas decididamente não chega ao nível daquele. A impressão que dá é que o autor quis traçar um painel amplo da situação Russa na época, e para isso estendeu seu livro ao máximo, fazendo com que a trama em grande parte se enfumaçasse, se tornasse fina e tênue. Tolstoi fez um painel da sociedade russa usando basicamente duas famílias de aristocratas. Talvez porque percebeu o fato óbvio de que uma sociedade no século XX era exponencialmente mais complexa, Solzhenitsyn quis colocar todo tipo de gente no seu livro: aristocratas, políticos, burocratas, operários, camponeses, revolucionários, reacionários, membros da família Imperial, soldados, oficiais, professores, comerciantes, etc. Nisso a trama perdeu muito. Talvez tivesse sido melhor diminuir o número de personagens e aprofundar psicologicamente neles, sem perder o contexto histórico, é claro.

Enfim, o autor é um grande romancista. Um dos maiores de nossos tempos. Mas este romance tem um interesse muito maior para o leitor interessado em história russa. Se o leitor não estiver interessado nisso, grande parte da leitura pode ser monótona e desinteressante.